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    TRASH - A ESPERANÇA VEM DO LIXO

    Realismo brasileiro e elementos lúdicos dão tom ao filme
    Por Daniel Reininger
    09/10/2014

    Com clima de filme nacional, Trash é a nova obra do diretor britãnico Stephen Daldry, famoso por As Horas e Tão Forte E Tão Perto. O longa baseado no livro de Andy Mulligan acompanha a aventura de três meninos do lixão, com direito a mistério e elementos lúdicos em meio a uma história pesada e tensa. O resultado é um filme cativante, mas que, às vezes, parece deslocado.

    Na trama, Raphael, Gardo e Rato, três garotos moradores de uma comunidade à beira do lixão, encontram uma carteira e decidem investigar o mistério que a rodeia. Logo se encontram em uma aventura repleta de pistas e perigos, enquanto são caçados pelo policial Frederico (Selton Mello). Aos poucos, os garotos começam a descobrir segredos de José Angelo (Wagner Moura) e Antonio Santos (Stepan Nercessian), que descobriram informações que podem destruir um inescrupuloso político corrupto. Os garotos, então, percebem que precisam fazer a coisa certa.

    Parte do espírito de aventura do livro é substituída por temas como corrupção e violência policial. No final das contas, a trama, que deveria ser uma fábula para os mais jovens, se torna algo voltado para adultos, cujos momentos lúdicos vão, aos poucos, perdendo espaço para situações já vistas em filmes como Cidade De Deus e Tropa De Elite. Até a fotografia lembra essas produções.

    Para garantir orçamento maior e melhor aceitação em todo mundo de um longa com temas tão brasileiros, Martin Sheen e Rooney Mara são as estrelas norte-americanas do elenco. O problema é que suas atuações, principalmente por culpa do roteiro, são apagadas e, se ambos fossem removidos da obra, não fariam falta. Os astros brasileiros Selton Mello e Wagner Moura têm mais espaço e fazem bom trabalho, especialmente Mello. Entretanto, Trash funciona principalmente devido à energia contagiante dos três protagonistas, algo semelhante ao que acontece em Quem Quer Ser Um Milionário?.

    Rickson Tevez, Eduardo Luis e Gabriel Weinstein, todos com seus 14 anos de idade, foram revelados em comunidades do Rio de Janeiro pelo próprio Stephen Daldry e sua equipe. Eles convencem e mostram muita sintonia na tela. Os meninos apenas deslizam nas conversas em inglês com Mara e Sheen, momentos nos quais todos parecem deslocados e desanimados, não apenas os novatos. Passadas essas situações, as coisas voltam a fluir.

    Daldry escorrega também ao manter a estrutura de depoimentos do livro, com os meninos falando diretamente para a câmera. São momentos de explicação desnecessária, que atrapalham a narrativa ao relatar o que acabamos de ver ou veremos a seguir. Quando esses vídeos param subitamente, não só o suspense aumenta, como o ritmo da produção melhora.

    A mistura de realismo do cinema nacional com a estrutura da jornada de herói das fábulas dá o tom para Trash. Momentos de coragem épicos, pouco vistos no cinema brasileiro, se misturam a situações mais do que comuns em filmes sobre corrupção ou favelas. Sobram críticas até para instituições raramente atacadas por aqui, como cartolas de futebol e organizações religiosas.

    O próprio diretor admitiu, em entrevista ao Cineclick, que os protestos de junho de 2013 mexeram com sua cabeça e o fizeram querer explorar melhor os problemas do nosso país. Esses aspectos criam uma composição interessante, que, aliada a bons protagonistas e vilão cruel, faz de Trash um filme para brasileiro, e inglês, ver.