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    TRÊS VERÕES

    Por Thamires Viana
    18/09/2020

    Trazer às telas um assunto como a operação Lava-Jato, um dos maiores escândalos políticos do país, tem seus desafios. Ele não é novidade no audiovisual pois já foi abordado no filme Polícia Federal - A Lei É Para Todos e na série O Mecanismo. O que eles têm em comum é a retratação da classe política, dos acusados e da ação da justiça. Mas o que fica de fora é o entorno da situação e as pessoas que indiretamente são afetadas pelo caso.

    É em Três Verões, novo longa de Sandra Kogut estrelado por Regina Casé, que vemos um olhar mais centrado do escândalo. Na trama, Madá é caseira da casa de praia de Marta e Edgar, um casal de classe alta que adora receber os amigos para as luxuosas festas de Natal e Ano Novo.

    No entanto, as ações políticas de Edgar o levam para a prisão e acabam trazendo consequências devastadoras para a família e os funcionários da casa. Com a ruptura familiar, Madá assume o comando da mansão ao lado de uma equipe de funcionários que se veem em meio a uma nova estruturação de suas vidas, incluindo a falta de pagamento dos salários e as incertezas adiante.

    Sutil, o roteiro de Kogut, escrito em parceria com Iana Cossoy Paro, retrata o abismo social de um país tomado pela corrupção e evita o uso de camadas extensas para contar essa história. É na leveza de um sorriso espontâneo de Madá que Três Verões se apoia para expor a realidade crua das desigualdades. O olhar minucioso da direção é eficaz até mesmo em descartar a presença de cenas explicativas sobre o desenrolar dos últimos acontecimentos, fazendo dos detalhes a base para reafirmar seu objetivo.

    Casé é um estouro em cena com sua personagem forte e determinada a reerguer a sua vida e das pessoas ao seu redor. A atriz leva para Madá uma inocência natural e uma alegria extrema, ao mesmo tempo em que deixa escapar nas entrelinhas o peso que a personagem carrega dentro de si. A caseira tem um jeitinho todo especial e íntimo com os patrões, sinal de quem trabalha há anos e se sente em casa, mas é o retrato de uma classe pobre que, infelizmente, ainda precisa engolir muitas coisas para conquistar seu verdadeiro espaço.

    Apesar da leveza, Três Verões é provocador na maneira em que conduz sua narrativa e na forma desafiadora em que aborda um assunto popular com outro viés. É inteligente e criativo ao ir na contramão com um tema que só deu olhares ao topo da pirâmide.