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    TRUMBO - LISTA NEGRA

    Filme se garante com roteiro enxuto e sem frases de efeito
    Por Iara Vasconcelos
    28/01/2016

    O cinema americano sempre teve uma relação antagônica com o comunismo. São inúmeras as produções em que os Estados Unidos aparecem como uma nação soberana que derrota o vilão comunista, personificado em um russo ou chinês. Mas se a paranoia anticomunista dos EUA é motivo de piada ou sinônimo de "clichê", para quem viveu naquela época ousar ter uma posição política voltada à esquerda era algo sério. É nisso que se apoia Trumbo - Lista Negra, novo filme de Jay Roach baseado na biografia do roteirista, escrita por Bruce Cook.

    Após a criação do comitê de Atividades Antiamericanas do congresso, criado em 1938, muitos diretores e roteiristas de cinema - bem como outros profissionais ligados à mídia - tiveram seus movimentos cuidadosamente vigiados pelo governo a fim de identificar qualquer atividade capaz de ameaçar a "democracia soberana" dos Estados Unidos. Uma dessas pessoas foi o roteirista Dalton Trumbo (Bryan Cranston). Abertamente comunista e defensor da liberdade de expressão, ele se recusou a cooperar com as investigações do comitê e acabou preso e proibido de exercer sua profissão.

    Trumbo não foi o único, junto com uma série de roteiristas, ele fez parte dos "Dez de Hollywood", uma espécie de lista negra que boicotava aqueles que teriam uma ligação com o comunismo. Com isso, o governo pretendia fazer uma verdadeira "limpeza" no conteúdo vendido ao público estadunidense e, ao mesmo tempo, castigar os escritores por sua desobediência.

    Entretanto Trumbo conseguiu uma forma de burlar esse sistema. Para pagar as dívidas pessoais e sustentar a família, ele resolveu escrever roteiros para produções de baixo custo, usando pseudônimos como forma de proteção. Com a grande demanda, alguns de seus companheiros da "lista negra" também assumiram alguns roteiros. Aos poucos, todos eles já estavam na ativa novamente sem que o comitê tomasse conhecimento.

    Sob essa estratégia, o roteirista escreveu grandes sucessos como A Princesa E O Plebeu, que acabou sendo vencedor do Oscar, mas por conta das circunstâncias, Trumbo acabou não recebendo as estatuetas.

    Logo, o restante do comitê descobriu o esquema criado por Trumbo, mas era tarde demais para pará-lo e a "lista negra" acabou perdendo a credibilidade, principalmente depois do apoio do ator Kirk Douglas (Dean O'Gorman) e do diretor Otto Preminger (Christian Berkel), os primeiros darem os créditos ao roteirista.

    Apesar de político, o filme foge de maniqueismos. Em nenhum momento o protagonista é mostrado como um herói sem defeitos, já que algumas sequências mostram que o excesso de trabalho e comprometimento com a causa o fizeram entrar em conflito com a família e até com outros roteiristas de seu grupo. Essa imparcialidade é importante - e até rara - se tratando de uma cinebiografia.

    A atuação de Bryan Cranston se mantém firme em seu propósito. O ator, que conseguiu se desvencilhar completamente de qualquer maneirismo do carismático e inescrupuloso Walter White, da série Breaking Bad, consegue interpretar um personagem interessante e com um humor sarcástico afiado, méritdo também do roteiro que não apela para frases de efeito.

    Apesar de tudo, Trumbo - Lista Negra é um filme otimista, mas nos faz questionar se, em tempos de crescimento do conservadorismo, podemos ver essa realidade nos amedrontar novamente.