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    UM ATO DE LIBERDADE

    Por Sérgio Alpendre
    08/05/2009

    O cinema narrativo não exclui a possibilidade de trabalhar com alguns clichês. Esses pequenos e incômodos truques de dramaturgia servem para que a história avance sem que o espectador seja muito exigido e pode, ou não, prejudicar a fruição de uma obra cinematográfica. Há diretores que sabem dosar os clichês de modo a tirar deles um potencial muito maior do que o descrito no parágrafo acima. Clint Eastwood é um belo exemplo. Brian De Palma é outro. Às vezes, Steven Spielberg consegue fazer de conta que domina esses clichês.

    Edward Zwick não. Sua limitação é totalmente associada à incapacidade de sair do lugar comum. Ao vermos um de seus filmes, sabemos como várias situações irão se desenrolar, com as possibilidades futuras se reduzindo a um mínimo possível, o que também significa grande preguiça narrativa. Um Ato de Liberdade, a despeito de contar com um ator (Daniel Craig, de 007 - Quantum of Solace) que sabe sair de qualquer redoma imposta por um clichê para compor pessoas de grande dimensão na tela, se insere na mediocridade habitual de Zwick.

    Vejamos a caracterização dos principais personagens. Temos três irmãos judeus fugindo do nazismo em uma floresta na Bielorrússia em 1941. O mais velho (Craig) tem o espírito de liderança necessário para a difícil tarefa de proteger os irmãos mais os refugiados que surgem no caminho, ainda que em alguns momentos hesite entre o humanismo impotente e o revanchismo cego. O do meio, Liev Schreiber (X-Men Origens: Wolverine), é impetuoso, violento, com um vigor físico também necessário, mas perigoso. O caçula, vivido por Jamie Bell (Jumper), é aprendiz de macho, se espelha nos irmãos mais velhos e é desajeitado com as mulheres.

    Por sinal, as aproximações entre homens e mulheres seguem rigorosamente a cartilha do flerte entre os sexos, inventada antes do cinema e já desrespeitada por diversos diretores desde os primórdios, mas nunca pelo limitado Zwick.

    Pior ainda que os três irmãos se comuniquem falando um inglês de imigrante do leste europeu. Não ajuda o fato de que são encontrados diversos arquétipos humanos entre os refugiados: o professor experiente, a senhora sofrida, o intelectual questionador, a jovem que esconde a gravidez, a mulher forte que some nos momentos dominados pelos homens, os coitados que nasceram para a figuração eterna, e por aí vai.

    Com meia hora de filme, já temos todas as cartas na mesa e a certeza de que poucas surpresas surgirão. E quando surgem, são muito mais fruto de nossa possível desatenção ou desinteresse do que por alguma armadilha de roteiro ou sacada de direção. As mudanças nas características dos personagens parecem calculadas de acordo com obras passadas, ainda que a inscrição "baseado em fatos reais" tente dar alguma força maior ao relato.

    Estamos no terreno da segurança, do tema nobre, da narrativa sem percalços, sem riscos. Tem quem ache interessante, e muitos podem até embarcar na viagem. Mas, apesar da história dos irmãos Bielski ser muito bonita, dificilmente alguém se lembrará do que viu depois de poucos dias. E se for só pela história, fiquemos com o livro que originou o filme.