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    UM CONTO DO DESTINO

    Misto de fantasia e autoajuda transcendental
    Por Cristina Tavelin
    18/02/2014

    O que esperar de um filme no qual Will Smith interpreta Lúcifer e ganha o apelido carinhoso de "Lu" do demônio vivido por Russell Crowe? Pois é. E Um Conto Do Destino não para por aí. Atuações sofríveis, personagens superficiais e frases de efeito completam a trama que tenta ganhar o público por meio do amor romântico e um misto de fantasia tosca com autoajuda transcendental.

    O longa marca a estreia na direção do roteirista vencedor do Oscar Akiva Golsman (Uma Mente Brilhante) com base no best-seller homônimo de Mark Helprin. Na Nova York de 2014, Peter Lake (Colin Farrell) é um artista sem memória a vagar pela cidade. Por meio de seus flashbacks, voltamos a 1895, quando ele, ainda bebê, é deixado em um barco pelos pais imigrantes impedidos de entrar nos Estados Unidos. Abandonado em Manhattan, se torna um ladrão do grupo de Pearly Soames (Russell Crowe).

    Crowe é a representação débil do mal com um sotaque irlandês forçado e entra em cena para perseguir o protagonista do bem, o qual tenta seguir um destino mais "direito". Sim, o ator e o roteirista haviam se reunido no ótimo Uma Mente Brilhante. Pena a parceria atual não ter repetido o mesmo êxito.

    Em uma dessas perseguições protagonizadas pelos personagens no início século XX, Lake é resgatado por um cavalo branco alado. Neste momento fica evidente o tom de fantasia, para o qual a trama apelará em momentos onde não há razão aparente para justificar determinada situação.

    Ao invadir uma casa para seu assalto derradeiro antes da fuga, o protagonista com corte de cabelo bizarro conhece sua amada Beverly Penn (Jessica Brown Findlay), jovem ironicamente corada, mas à beira da morte por conta da tuberculose. A arma carregada para a abordagem pouco a assusta porque, no fundo, ela sente o seu amor advindo da eternidade.

    Esse imediatismo de um laço, longe de suscitar o sentimento de amor à primeira vista, recai numa atitude típica dos dias de hoje: espera-se muito em muito pouco tempo, numa visão parecida com a do consumo no sentido de receber o que se quer imediatamente. Não é possível construir tal sentimento e passá-lo ao espectador de forma tão objetiva e plástica.

    Não bastasse isso, ainda há outras passagens no estilo autoajuda de "tudo se encaixa e vai ficar bem". Por exemplo, a trama gira em torno da ideia de que cada pessoa é um milagre para a próxima. Muito bonito, mas pena se jogar na mão do destino e do universo a generosidade, num tipo de barganha com o desconhecido.

    Além das lacunas subjetivas deixando a trama sem suporte, cenas com enquadramentos mal feitos, iluminação falha e efeitos especiais discutíveis dificultam ainda mais a tentativa de conexão com o filme. Mas alguns cenários da Nova York do início do século passado e figurinos de época se salvam.

    Assim, Lake sente que precisa salvar Beverly e, obviamente, o vilão de Russell Crowe fará de tudo para impedir. O embate de bem versus mal fica evidente em cenas como a dos protagonistas em seus cavalos preto e branco. E na linha de barganha com o desconhecido, o personagem de Crowe procura Lúcifer (Will Smith) para conseguir destruir o protagonista num dos momentos mais bizarros dessa trama.

    O salto para o futuro acontece sem muita explicação, quando o filme parece se aproximar do final. Sem memória devido a uma briga ocorrida 100 anos antes, o personagem agora imortal de Farrell conhece outro núcleo, do qual faz parte a jornalista Virginia Gamely, interpretada por Jennifer Connely na única atuação boa do longa.

    Nesse futuro, ele descobrirá, finalmente, o seu milagre. Mas vale ressaltar que, ao menos, o destino do personagem não permanecerá ligado à ideia de amor romântico, ganhará outro sentido apesar da insistência numa ideia dramática.

    Entre as cenas constrangedoras, podemos destacar três: a trágica noite de amor de Lake e Beverly com final quase hilário; a do encontro dele com a personagem de Eva Marie Saint no futuro; e o final. Ah, o final.

    Um Conto de Destino se sai mal em todos os gêneros que tenta explorar: fantasia, romance, drama. Ao querer reduzir as questões humanas a um simples "você precisa acreditar", soa como a maioria dos best-sellers: vazio de reflexão. Mas, se a ideia era vender frases de efeito como placebo para faturar milhões, se saiu muitíssimo bem.