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    UM EVENTO FELIZ

    Sensível e envolvente, filme francês trata do nascimento de uma nova vida como algo perturbador <br />
    Por Cristina Tavelin
    18/12/2012

    Não julgue um livro pela capa. E nem um filme pelo pôster. Um Evento Feliz parece mais um longa sobre a benção do nascimento de um filho, mas não é. Baseado no livro homônimo da francesa Éliete Abécassis, mostra como um outro ser pode afetar tudo ao seu redor - a começar pela mãe -, trazendo mudanças positivas e negativas.

    Bárbara (Louise Bourgoin) conhece Nicolas (Pio Marmaï) em uma locadora e logo passa a frequentá-la assiduamente, dando indiretas sobre o interesse no rapaz por meio dos filmes que aluga – um deles é Prenda-me se for Capaz, bem sugestivo. Temos um casal empolgado e inconsequente, vivendo de forma intensa todos os clichês dos apaixonados dentro e fora das telas. Fotografia de cores fortes e vibrantes se sobressai na primeira parte do longa e dissipa-se em tons de cinza com o passar dos acontecimentos.

    Meio de brincadeira, Nicolas diz à protagonista que deseja ter um filho. E o desejo é atendido. Ao contrário daquela graça que as mães de primeira viagem se veem praticamente obrigadas a sentir, Bárbara tem aflição do novo habitante em seu corpo. A jovem sente a criança como um intruso, um alien. Quando descobre a gravidez, está em meio a uma tese de mestrado bem existencialista relacionada ao tema, e o filme se desenvolve entre a vida “real” dela e a filosofia de seu trabalho.

    A atuação de Louise Bourgoin é convincente ao longo do filme. Primeiro, passa um ar vívido e intenso. À medida que sua personagem se vê presa a uma vida não desejada, o entusiasmo começa a desaparecer e Bárbara a se esvaziar, algo evidente na expressão da atriz. Pio Marmaï acompanha bem esse ritmo, tornando a decadência do romance perceptível também em seu semblante.

    O medo invade a jovem após o nascimento da filha. As noites em claro, a criança dormindo com os pais e distanciando o casal, a falta de sexo... Uma fala da personagem sobre como perdeu a sensibilidade do corpo com tanta mecanização em cima dele – obstetras, agulhas, exames – enfatiza o desconforto de uma mulher consigo mesma. Ela se torna outra pessoa após a gravidez. A antiga Bárbara começa a morrer para dar lugar a uma nova e despreparada mãe.

    Outro filme lançado neste ano com enfoque similar sobre maternidade foi Precisamos Falar Sobre Kevin. Só que a história sob direção de Lynne Ramsay tem um desfecho muito mais trágico. Aqui a vida segue. Não por acaso é uma obra francesa, cheia de existencialismo no mais cotidiano dos atos.

    Para Bárbara, a filosofia não ensinou muito sobre a crua realidade. As linhas de Voltaire não poderiam lhe ajudar a trocar fraldas ou manter o desejo de seu namorado mesmo com tantos afazeres domésticos. A criança mudou para sempre a vida do jovem casal. Mas, entre as polaridades de nossa existência, o longa deixa uma sensação dolorosamente positiva. Em todo fim há outro começo. Laços se desfazem, mas a linha continua a existir - nesse caso, em um novo ser.