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    UM HOMEM SÉRIO

    Uma aula de desenvolvimento de roteiro (e não é mania de crítico em buscar pelo em ovo)<br />
    Por Heitor Augusto
    18/02/2010

    Os irmãos Coen acertaram a mão. Um Homem Sério é uma aula de desenvolvimento de roteiro e um filme que fala de muita coisa, mesmo que, aparentemente, seja sobre nada.

    O 14º longa-metragem da dupla retoma um Estados Unidos pré-Woodstock e às portas do verão do amor em São Francisco, da psicodelia de Jefferson Airplane e da intensiva norte-americana no Vietnã. Com essas transformações prestes a acontecer, os Coen situam uma família na comunidade judaica, extremamente rígida e fechada em si.

    O absurdo, o bizarro e o estranho são os principais sentimentos que guiam a história da família Gopnik, liderada pelo professor de física Larry (Michael Stuhlbarg), acompanhado de sua mulher Judith (Sari Lennick), o filho maconheiro (Aaron Wolf), a filha fútil (Jessica McManus), o irmão problemático (Richard Kind) e o amante da sua esposa, Sy (Fred Melamed).

    Leva tempo para que cada um desses personagens seja desenvolvido, especialmente o pai (que representa o presente) e o filho (o futuro). Não há pressa em mostrar como o mundo de Larry vai ficando cada vez mais sem respostas. Sua ideia do que é ser um homem sério – ter casa, família e emprego – mostra-se falida.

    Acompanhamos isso com lágrimas nos olhos? Não, porque Um Homem Sério é de certa maneira sarcástico. O humor está sempre lá para transformar o triste em absurdo. Não é à toa que o personagem principal, muito bem interpretado por Michael Stuhlbarg, questiona sempre: “o que está acontecendo?”.

    Ele não sabe o que passa em sua vida, enquanto nós, que assistimos ao filme, não sabemos as razões das mudanças. Elas acontecem e temos de encará-las. Isso é um dos méritos do filme (que ao mesmo tempo pode afastar quem não entrou nele): Joel e Ethan Coen respondem à tradição do cinema clássico norte-americano de dar respostas a tudo, explicar e amarrar todas as pontas do roteiro com um final anti-resposta. Afinal, a vida de Larry e da comunidade judaica continua, e podemos construí-la nas nossas cabeças, depois do filme.

    A beleza de Um Homem Sério não é mera mania de crítico de procurar pelo em ovo ou manter uma falsa aura intelectual só porque é um filme assinado por dois grandes roteiristas e diretores vencedores do Oscar por Onde os Fracos Não Têm Vez. É perceber que, depois de 105 minutos procurando respostas ou explicações lógicas para as questões dos personagens, é um filme sobre o imprevisível e o sério da vida. Um ensaio sobre como seguir quando um mundo que parecia perfeito desmorona. Em menor, instância, na vida de Larry Gopnik, o protagonista. Em maior instância, num novo Estados Unidos que se construiria depois dos anos 60.