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    UM NOVO DESPERTAR

    Drama dirigido por Jodie Foster tem potencial de sensiblizar espectador disposto a se emocionar<br />
    Por Heitor Augusto
    23/05/2011

    Só a Jodie Foster para escalar Mel Gibson como protagonista de um filme e, de quebra, fazer o espectador simpatizar com seu personagem. Em Um Novo Despertar, Gibson é um cinquentão em queda livre que perde o pudor de esconder para a família, amigos e colega de trabalho que a vida está uma grande porcaria.

    Fora do cinema, Gibson é antissemita, alcoólatra, machista e já foi expulso de filmes antes mesmo de começarem as filmagens. A diretora dá a ele um personagem também repleto de problemas – marido depressivo, pai ausente, executivo desleixado e beberrão – que encontra a segunda chance de sua vida num insólito castor fantoche. É como se a câmera apontasse para o ator interpretando Walter Black e pedisse ao espectador para estender a mão ou ao menos se sensibilizar de que, apesar dos atos corrosivos, ali mora um coração.

    O cinema é ótimo para dar a segunda chance que os seres humanos não conseguem no dia a dia. Especialmente a produção norte-americana, calcada na estética da transparência e na ideia de sequestrar o espectador no começo do filme e só largá-lo ao final da sessão. Um Novo Despertar logra o que busca: sensibilizar a audiência disposta a ser sensibilizada.

    Comédia

    O longo caminho de Walter Black em busca de uma segunda chance é aberto por um elemento insólito. Ao se separar da esposa e dos filhos, ele se livre de algumas tranqueiras, mas no meio do caminho surge um dentuço castor que serve de títere. Quando Walter o veste no braço esquerdo, uma operação mágica acontece: uma porção recôndita de sua mente assume o controle e lhe dá sobrevida. Walter não fala mais: qualquer pensamento se transforma em frase pela voz do castor.

    Walter é um esquizofrênico. Se essa história estivesse nas mãos de David Lynch teríamos Eraserhead. Como Jodie Foster é uma diretora comportada e comprometida com a inteligibilidade de seu filme, a comédia entra como elemento para suavizar as dores. Afinal, não falta matéria bruta para um filme barra pesada: pai esquizofrênico, mãe despreparada, filho mais velho tentando se livrar do fantasma paterno e caçula se isolando gradativamente do mundo.

    Mas Um Novo Despertar, honesto em suas pretensões, não quer fazer o espectador sentir na pele a desconexão com o mundo. Prefere apresentar um tema e encerrá-lo no próprio filme, oferecendo a solução e atendendo a um público interessado por histórias sensíveis. Para tal, prefere a simplicidade narrativa e correr poucos riscos: um elenco afiado e talentoso (Gibson sai bem do drama para a cômico), uma história sensível com começo, meio e fim e música a criar um clima de esperança.

    Os acontecimentos insólitos ao longo do filme são o que dão carisma. Frente à equipe de sua empresa, Walter vai explicar o que significa o tal castor em seu braço. Antes, porém, quando todos chegam encontram o seguinte bilhete: “Olá. Esta pessoa está sob os cuidados de um castor receitado como prescrição médica. Por favor, trate-o como de costume, mas se dirija ao castor”. Cômico, sim, mas também profundamente triste, reflexo de um filme equilibrado nos dois registros.

    Um Novo Despertar amortiza: ao observar uma cisão clara entre o externo e o interno, não se estabelece o caos, mas uma certa ordem. Quando tudo indicava a perda de rumo, aparece uma alternativa, um paliativo: o castor títere. Filme correto para quem busca se emocionar sem ter sua inteligência ofendida, postura em extinção no cinema comercial.