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    UM SONHO POSSÍVEL

    Indicado ao Oscar chama o espectador a derramar rios de lágrimas
    Por Heitor Augusto
    17/03/2010

    Um Sonho Possível foi um dos indicados a Melhor Filme no Oscar deste ano. Sandra Bullock, a protagonista, arrebatou a primeira estatueta de sua vida. Ambas as indicações são compreensíveis, já que o filme trabalha símbolos dos Estados Unidos de hoje e a jornada do “yes, you can”. Porém, é um filme completamente dispensável e que apela para o mais tosco do gênero feel good.

    John Lee Hancock adaptou o livro de Michael Lewis e fez um filme que se estrutura no encontro e no estranhamento entre “eu” e o “outro”. Assim, o mundo da ricaça (e branca) Leigh Anne (Bullock) entra em contato com o do desamparado, miserável (e negro) Michael Oher (Quinton Aaron). Ela dá abrigo ao jovem e pronto, estão abertas as portas da esperança.

    Há uma atmosfera bem criada no filme: o retrato do sul dos Estados Unidos. Lee Hancock fez uma decente contextualização da política atual, na qual os neo-republicanos se colocam como vítimas do preconceito dos Obamistas e dizem sofrer de “racismo às avessas”. Posição reforçada diariamente pela Fox News.

    Este é o solo onde Um Sonho Possível pisa. Aí está o problema: a base está bem justificada, mas o que se desenvolve em cima disso é um filme com tiradas simples, muletas cômicas e uma abordagem covarde do momento norte-americano.

    A primeira pista do tom dos 128 minutos de filme já está no começo. Se você não sabe como desenvolver uma questão ou morre de medo que o seu espectador não entenda alguma coisa, o que fazer? Narração! E assim começa a produção, com Sandra Bullock explicando o que é tal do lado cego (título original) de um quarterback no futebol americano. Primeiro indício de insegurança (ou preguiça) da direção em diluir a informação ao longo do filme. Estratégia cada vez mais adotada pelo cinema comercial norte-americano, que encara o público como burro – o que é um completo equívoco.

    O segundo indício do sentimentalismo barato e a empatia tosca é o uso exagerado da relação entre o caçula da família, S.J. (Jae Head), com o ex-carente Michael. Digam se não é fácil conseguir a simpatia do público com uma criança magrinha e serelepe ao lado de um grandão meio desajeitado? Mais um filme a explorar o carisma entre os opostos.

    O terceiro indício é o medo que o filme tem de se filiar tanto ao drama de fato ou à comédia. Lee Hancock pula de um a outro, tentando dar ritmo, mas faz com que o segundo anule o primeiro. Todas as vezes que se aproxima de algo sério, foge e pede auxílio de tiradas cômicas. Reflexo de que ele precisa deixar o espectador confortável e de coração aquecido. Afinal, é um filme feel good e a dor é um elemento proibido.

    Um Sonho Possível vai ter público no Brasil? Bem provável, já que foi sucesso nos Estados Unidos (US$ 245 milhões) e é protagonizado pela atriz mais rentável de 2009. Sem contar que o filme usa códigos diretos, a combinação entre uma personagem caridosa com um lutador em sua jornada de superação. Combustíveis perfeitos para rios de lágrimas.

    Porém, o filme não passa de um reducionismo da sociedade contemporânea, que resume a solução para o mundo em “basta apenas fazer a sua parte e tudo estará resolvido”. Bem confortável sair do cinema de consciência limpa e com o espírito “só preciso fazer o bem”. Como diria Tom Zé, “Faça suas orações uma vez por dia/ e depois mande a consciência junto com os lençóis/ pra lavanderia”.