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    UM TOQUE DE PECADO

    Lento e detalhista, longa exige esforço do olhar
    Por Cristina Tavelin
    13/12/2013

    Uma das causas de atos extremos de violência, certamente, está relacionada ao poder. E o principal condutor desse elemento nefasto na sociedade contemporânea é o dinheiro. Money. O significado da palavra em inglês é conhecido mundialmente. Bem o sabem os países em desenvolvimento. Bem o sabe a China de Um Toque de Pecado.

    Filme lento, detalhista, instigante, que exige esforço do olhar. Não foi feito para a era digital de mil imagens por segundo. Nele, quatro histórias se passam em diferentes cidades deste país cambaleando entre tradição e futuro incerto.

    1. O minerador fora de si. O personagem decepciona-se com a justiça humana e parte para o ataque. Quem poderia julgá-lo?

    2. O trabalhador migrante. O amor pelo filho e o interesse pelas armas ganham a mesma proporção, na grande medida do vazio interior.

    3. A recepcionista da sauna. Humilhada até o osso ao apanhar com um maço de dinheiro, reage com vingança.

    4. O jovem trabalhador. Apaixonado por uma prostituta, violentado pela incredulidade da família e do mundo, joga a violência contra si mesmo.

    Ganhador de Melhor Roteiro em Cannes, Um Toque de Pecado abre espaço para enquadramentos bem pensados, literalmente quadros naqueles instantes de imobilidade, seguidos pela articulação sinuosa da câmera, que desliza elegantemente em meio a cenários pútridos. Não há sombra de dúvida sobre a competência do diretor Jia Zhang-ke. A fotografia dá peso a uma certa sensação nostálgica, sempre remetendo a tempos ancestrais.

    Tratando-se de ambiência, a calma da China milenar mistura-se à opressão das cidades, evidenciando um estado de espírito dúbio. Nesse sentido, animais são inseridos nessa narrativa de forma interessante e causam impacto. O cavalo agredido no começo - símbolo da liberdade - é solto por um funcionário oprimido num ato de fúria.

    A violência transita entre o caricato e o real, entre Tarantino e o realismo italiano, deixando dúvidas sobre o tom a ser alcançado. No contexto, torna-se um aspecto negativo. Entre os pontos positivos, um deles enfatiza ainda mais sua lentidão: a falta de trilha sonora. Saber emocionar de maneira mais realista, sem trompetes soando ao fundo, é muito mais difícil.

    Assim como Pelo Malo, outro longa também exibido na 37ª Mostra Internacional de Cinema, Um Toque de Pecado destaca as geometrias perversas de cidades pensadas para coisas e não para pessoas. Os apartamentos iguaizinhos, lado a lado, destruindo a personalidade de cada um, se assemelham a caixões de concreto, nada mais que isso.

    A distância deste longa para um blockbuster é tão grande quanto a de Crime e Castigo para 50 Tons de Cinza. Se não é seu estilo – e você não está com a mínima vontade de que o seja - nem comece a assistir. E se for fazê-lo, não escolha um horário no qual tenha sono.

    O esmero não chega a compensar a falta de ritmo tão marcante, mas vale a pena conferir a obra, principalmente para observar pela ótica chinesa sua própria indecisão. Comunismo ou capitalismo? Calma ou opressão? Espírito ou poder?