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    UMA DOSE VIOLENTA DE QUALQUER COISA

    Filme segue tão ou mais sem rumo que seus personagens
    Por Roberto Guerra
    13/08/2014

    O cineasta Gustavo Galvão gosta de falar da instabilidade da vida real. Seu problema é transferir essa irregularidade, que deveria ficar restrita ao universo dos personagens, à execução de seus filmes. Foi assim com Nove Crônicas para Um Coração aos Berros, seu longa de estreia, e se repete agora com Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa. Não se pode negar, no entanto, que Galvão sabe dar bons títulos às suas obras.

    Infelizmente, de instigante seu longa só tem o nome. A expressão foi pinçada do poema Uivo, de Allen Ginsberg, que serviu de inspiração para o cineasta levar às telas um road movie às avessas, um trânsito de não-descobertas.

    A ideia era boa: ir na contramão das descobertas e transformações decorrentes de uma viagem. Os deslocamentos, o trânsito e as transculturações não parecem fazer efeito sobre seus personagens, que chegam ao fim de sua trajetória tão sem rumo quanto começaram. Em ambos subsiste apenas o desejo de permanecer na estrada, tendo esta como fim.

    Esses personagens são Pedro (Vinícius Ferreira) e Lucas (Marat Descartes), que se conhecem numa lanchonete à beira do caminho, um caminho cujo fim desconhecem mas que decidem seguir juntos. Pedro fugiu de sua vida frustrada e tediosa e não faz ideia de onde quer chegar. Sua única certeza é que este lugar é longe de Brasília, que deixou para trás. Lucas, um tipo enigmático e rebelde, também segue sem rumo e sobrevive cometendo delitos. Apesar de diferentes, a dupla cria um vínculo improvável nascido do desejo de fuga.

    Havia substrato aí para se desenvolver uma boa trama, mas não é o que ocorre. Uma Dose Violenta é tão sem norte quanto seus personagens. Repleto de situações improváveis a tantas outras que nada acrescentam, em dado o momento o filme começa a minar a paciência do espectador, que percebe que seu realizador começou a rodá-lo sem ao menos ter algo palpável em mãos.

    Como em Nove Crônicas Para Um Coração aos Berros, neste longa de Gustavo Galvão há um sem-número de diálogos recitados, ora tolos ora pretensamente densos e que nada acrescentam – o discurso pelo discurso. Mesmo os silêncios eloquentes carecem de retórica. Se o objetivo do diretor foi fazer uma road movie diferente, de fato conseguiu. Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa, com todos seus desacertos, é um filme de estrada profundamente entediante, chato. Uma dose pavorosa de nada.