cineclick-logo
    botão de fechar menu do cineclick
  • FILMES
  • NOTÍCIAS
  • CRÍTICAS
  • LISTAS
  • GAMES
  • © 2010-2021 cineclick.com.br - Todos os direitos reservados

    UMA LONGA VIAGEM

    Extremamente pessoal, filme faz conexão fraca e instável entre história real e história encenada
    Por Roberto Guerra
    09/05/2012

    Há que se ter certo cuidado em investir numa produção de cinema assumidamente pessoal. Em 2011, durante o Festival de Gramado, Lúcia Murat disse à imprensa que depois de fazer um filme este não lhe pertence mais, “pertence ao público, que vai interpretá-lo de maneira diferentes”. Uma Longa Viagem talvez não consiga ultrapassar essa fronteira e seja sempre um filme de Lúcia Murat, para Lúcia Murat e seus familiares.

    O documentário, narrado em primeira pessoal pela diretora, busca reviver as próprias experiências e a de seus dois irmãos, Heitor e Miguel, durante os anos de chumbo, expondo os diferentes caminhos seguidos por eles, principalmente os dela e de Heitor. A produção é um tributo a Miguel, cuja morte incentivou a diretora a realizar o longa.

    Para que o caçula não seguisse os passos da irmã e participasse do enfrentamento à ditadura militar, a mãe de Lúcia o enviou para Londres. Na Europa, Heitor vira uma espécie de mochileiro nômade, experimentando todos os tipos de drogas possíveis. Não há juízo de valor sobre as distintas escolhas feitas pelos irmãos, que são tratadas no filme como posicionamentos pessoais diante de um momento político e cultural conturbado.

    As experiências de Heitor envolvendo drogas e situações bizarras vividas em lugares obscuros são hilárias e divertem a plateia, mas esse mesmo público talvez não consiga absorver outros elementos que a diretora julga estarem presentes no filme. Avançando pelo terreno ficcional, a produção conta com a presença de Caio Blat declamando as cartas enviadas por Heitor à sua família e o interpretando. Uma interpretação realista e pungente que se alia a imagens de arquivos e depoimentos do próprio Heitor, hoje vítima de esquizofrenia.

    Essa mescla narrativa nada acrescenta ao filme. A conexão entre história real e história encenada é fraca e instável, o que transforma a participação de Blat no longa em recurso vazio de linguagem. Querendo não fazer o “arroz com feijão” do gênero documental – a tradicional combinação de imagens de arquivo e entrevistas -, Lúcia quis inovar e ficou na pretensão.

    Uma Longa Viagem saiu da 39ª edição do Festival de Gramado com um Kikito de Melhor Filme, prêmio dado por um júri sem muita opção diante da seleção sofrível do ano passado. Sorte da diretora, que realizou uma obra cheia de boas intenções, mas capenga na execução. Um filme particular e íntimo tanto quanto aqueles vídeos caseiros que costumam interessar à família retratada neles, mas que, invariavelmente, são tediosos para quem não participou da festa.