cineclick-logo
    botão de fechar menu do cineclick
  • FILMES
  • NOTÍCIAS
  • CRÍTICAS
  • LISTAS
  • GAMES
  • © 2010-2021 cineclick.com.br - Todos os direitos reservados

    VERSOS DE UM CRIME

    Morte e reconstrução revelam a gênese da geração beat
    Por Ana Carolina Addario
    11/06/2014

    Um dos maiores autores norte-americanos e percursor da geração beat, Allen Ginsberg teve sua vida e carreira marcadas por grandes acontecimentos. A diferença é que, como poeta, transformou suas experiência em uma nova maneira de enxergar a vida. Com discussão profunda sobre a morte, literal ou figurada, como agente transformadora da vida, Versos de um Crime se revela mais do que o suspense sobre um assassinato e discute a importância de construir novos começos.

    Ambientado na década de 1940, a trama acompanha a chegada de Ginsberg (Daniel Radcliffe) à Universidade de Columbia. Ilhado no conversadorismo da instituição, o jovem poeta e sua inclinação à desconstrução encontram um encantador aliado na figura de Lucien Carr (Dane DeHaan), rapaz envolvente e apaixonado pela literatura que cativa a todos a seu redor. Ao lado de Jack Kerouac (Jack Huston) e William Burroughs (Ben Foster), eles fundam o movimento chamado New Vision, que pretende revolucionar a literatura norte-americana inspirado na obra de W. B. Yeats.

    Em uma das primeiras cenas do filme, Ginsberg é introduzido por Carr à denominada wonderland, país das maravilhas de Columbia: um apartamento próximo à universidade que abre suas portas aos alunos para a diversão sem escrúpulos, além da livre discussão sobre poesia. No centro da sala, o professor David Kammerer, dono da casa, discursa sobre a organização cíclica da vida. Estamos eternamente presos a um esquema de destruição e reconstrução no qual a morte, mesmo que figurada, sucede o clímax. Mas essa previsibilidade da vida, segundo ele, pode ser quebrada quando algo novo aparece.

    A sinopse de Versos de um Crime sugere um suspense no qual o assassinato de um professor transforma um grupo de jovens e dá origem à chamada geração beat, manifestação literária da contracultura norte-americana. O assassinato, de fato, acontece, mas a discussão é mais profunda do que isso. Mais do que o prometido clima de thriller, o filme de John Krokidas revela a mudança na maneira de enxergar o mundo desta geração marcada pela experiência da Segunda Guerra Mundial e indisposta a aceitar as estruturas sociais vigentes, mesmo as que organizam os versos de um poema.

    A direção do filme dá dicas sobre o surgimento desta ideia de desconstrução dos modelos padrões de vida. Ao longo do rolo, trechos marcantes são repassados de trás para frente, fazendo menção justamente à quebra do ciclo que esta geração irá promover com sua literatura.

    A indecisão entre o tom de suspense e aquele conhecido clima Sociedade Dos Poetas Mortos de culto à literatura prejudica um pouco o andamento do filme: ele perde o ritmo quando se aproxima do final e o desfecho fica um pouco superficial. Embora não seja compensador, o elenco entrega boas atuações, de maneira geral: Radcliffe, o eterno Harry Potter, convence na figura do sensível e apaixonado Ginsberg na mesma medida em que DeHaan cativa como o motivador do movimento.

    Mais ambicioso do que sugere, Versos de Um Crime é um filme que fala sobre como eventos fantásticos podem transformar completamente a organização social e revelar novos agentes. No filme de Krokidas, este 'evento catalisador' não é a morte de David Kammerer, mas o encontro da sensibilidade de Allen Ginsberg com a energia vibrante de Lucien Carr. O clímax, assim, está mais perto destes momentos do que das estocadas no peito do professor americano. Uma surpresa positiva.