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    VÍCIO INERENTE

    Filme não é fácil, mas é absolutamente hipnotizante
    Por Daniel Reininger
    25/03/2015
    8/10

    VÍCIO INERENTE

    Policial

    Vício Inerente é uma viagem cinematográfica despreocupada em contar uma história coesa e sim em criar um mosaico, ou melhor, um caleidoscópio, da história noir movida a drogas escrita por Thomas Pynchon. A cada revelação, a realidade se torna mais confusa, tudo sempre com tom peculiar de comédia e visual psicodélico, muitas vezes, borrado, para aumentar a sensação alucinógena. Não é um filme fácil, mas é absolutamente hipnotizante.

    Na trama ambientada em 1970, Shasta Fay Hepworth (Katherine Waterston) aparece na porta do fumado detetive Larry "Doc" Sportello (Joaquin Phoenix), afinal, seu novo namorado, um bilionário chamado Mickey Wolfmann (Eric Roberts), está desaparecido. Relutante, ele aceita o caso e passa a rodar a cidade a procura de pistas. Indícios levam a mais perguntas e as investigações levam a novos casos de desaparecimentos. Ao longo do caminho, as coisas começam a se complicar e as teorias de conspiração se multiplicam.

    Vício Inerente precisa ser visto mais de uma vez. O tom, visual, trilha e estilo do filme procuram reforçar o estado mental de alguém constantemente alto. Paul Thomas Anderson, diretor e roteirista do longa, consegue capturar essa sensação de euforia e a insere em uma estrutura de três atos, na qual a atmosfera é mais importante do que qualquer coisa. Os detalhes não são essenciais e, quando Doc descobre alguma nova informação, é a atuação de Phoenix que nos diz mais sobre sua importância do que qualquer exposição óbvia.

    Mais voltado para a comédia, Phoenix mais uma vez comprova ser um dos melhores atores da atualidade ao enfrentar um personagem muito diferente de seus papeis recentes em Ela e O Mestre. Doc fuma e fuma um pouco mais. Os olhos escancarados, as costeletas e o chapéu de praia fazem dele um personagem caricato, porém, roteiro e atuação garantem profundidade, afinal ele é capaz de alternar momentos sombrios, heroicos e engraçados com muita facilidade. Phoenix conduz suavemente o espectador por meio da trama aparentemente desconexa.

    O elenco de apoio funciona bem como maneira de empurrar Doc adiante. Josh Brolin é o retrato do detetive noir e símbolo da figura de autoridade. No papel de Bigfoot, ele é o tipo de cara que entra no apartamento de Doc chutando a porta para exigir respostas. O exagero é proposital, afinal ele é parte da sociedade que espera confrontar qualquer jovem com ideologias diferentes para a época.

    Owen Wilson é um agente disfarçado arrependido, que aparece nos lugares mais estranhos (incluindo um hospício que parece ter saído direto de Corra Que A Polícia Vem Aí). Benicio Del Toro está em algumas cenas-chave como advogado de Doc, sempre com alguma informação útil. Martin Short está no trecho mais louco do filme, regado a sexo, cocaína e paranoia, momento interessante, capaz de aprofundar o clima da produção. Katherine Waterston impressiona como femme fatale e consegue seduzir apenas com palavras. Além disso, o longa conta com a narração de Joanna Newsom que, sem revelar demais, aprofunda a sensação de viagem do protagonista.

    Vício Inerente é um filme complexo, esquisito, mas bastante divertido. É denso, com muita coisa acontecendo, apesar de termos apenas relances da maioria das subtramas. Provocante e visualmente interessante, esse é um longa que precisa ser visto com calma, afinal claramente tudo foi pensado de forma detalhada e possui muitas nuances para o espectador absorver de uma só vez. Com o tempo, as ligações ficam mais claras, a trama ganha sentido e as revelações se encaixam. Perceber tudo isso da primeira vez não é fácil, mas tentar é algo bastante recompensador.