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    VICTOR FRANKENSTEIN

    Releitura de história clássica mostra sinais de insegurança
    Por Edu Fernandes
    26/11/2015

    Como em muitos outros aspectos do mundo, um filme é feito de decisões e é preciso se ater a elas para que as coisas funcionam. Essa é a principal fraqueza de Victor Frankenstein, uma produção que se mostra indecisa do começo ao fim.

    A ideia é original: recontar a história do cientista Victor Frankenstein (James Mcavoy, de X-Men: Dias De Um Futuro Esquecido) e sua criação monstruosa pelo ponto de vista de Igor (Daniel Radcliffe, de Harry Potter), o corcunda que serve como seu assistente. Esse personagem foi criado e reforçado nas diversas adaptações cinematográficas do romance original, mas não há qualquer menção a ele no livro que Mary Shelley publicou em 1818.

    Isso não seria em si um problema, mas a presença do corcunda é marcante demais no imaginário coletivo para o filme deprovi-lo de sua característica física mais memorável logo no começo do filme – Victor "cura" o parceiro em um procedimento rápido nas primeiras cenas.

    Outro afastamento da obra original se dá no temperamento do personagem-título. O livro é narrado pela perspectiva do monstro e há poucas pistas da personalidade de seu criador, exceto que é um homem arrependido de sua criação e amargurado.

    No filme, Frankenstein é obcecado pela ciência e não tem muito traquejo social, um comportamento que se assemelha a outro personagem da literatura vitoriana inglesa: Sherlock Holmes, que está em alta por causa dos filmes e seriados recentes. Eis a primeira pista de que Victor Frankenstein está mais interessado em surfar no calor do momento do que em criar um espaço próprio. Some a dinâmica com um parceiro mais calmo e preocupado, e se tem uma similaridade exagerada entre o cientista e o detetive.

    Uma novidade bem-vinda é que no filme Igor não é apenas um lacaio. Ele demonstra desde o começo um alto grau de inteligência e conhecimento de anatomia. O longa retrata essa característica ao dividir com a plateia o funcionamento da mente de seus personagens, que enxergam em qualquer ser a dinâmica entre músculos, ossos e órgãos expressa por ilustrações animadas, porém tal recurso é usado muito pouco.

    Eis que entra em cena a figura de Lorelei (Jessica Brown Findlay, de Um Conto Do Destino), uma trapezista do circo por quem Igor é apaixonado. Ela tem pouca razão narrativa para existir, além de enfeitar a tela com sua beleza e servir como interesse romântico para afastar especulações de homossexualidade no relacionamento entre Igor e Victor.

    Outro personagem novo é Turpin (Andrew Scott, de 007 Contra Spectre), investigador que desconfia das pesquisas de Victor Frankenstein. O policial é um devoto religioso e traz para o enredo a contenda religião X ciência. A discussão poderia ser frutífera, mas há apenas pequenas referências ao assunto.

    Depois de Lorelei e Turpin, aparecem outros personagens com participação igualmente pífia na trama central. Um desperdício de talentos do calibre de Charles Dance (Crimes Ocultos), por exemplo.

    Com essa séria longa de tentativas sem foco, Victor Frankenstein fica em um incômodo limbo. Tenta ser criativo, tenta trazer novidades, tenta levantar questões intrigantes, tenta deixar gancho para sequência. No final, há muitas apostas, com pouco retorno.