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    VIDAS QUE SE CRUZAM

    O que vale mesmo é conferir de olhos e coração abertos esta mais do que promissora estreia de Ariaga na direção<br />
    Por Celso Sabadin
    13/04/2010

    No meio do nada, numa paisagem árida e ensolarada, um trailer se incendeia e explode. Nos próximos minutos, ficaremos sabendo que o lugar era, na realidade, o ninho do amor proibido entre Nick (Joaquim de Almeida) e Gina (Kim Basinger). Ele, moreno e mexicano. Ela, loira e norte-americana. Ele, dono de uma velha picape. Ela, com um luxuoso sedan. Ambos adúlteros. Agora mortos, com seus corpos fundidos pelo fogo intenso, Nick e Gina se transformam nos mártires da fronteira, imolados num inesperado altar de ferro retorcido em pleno deserto, símbolo de duas famílias consumidas pela dor e pelo ódio mútuo.

    É neste clima de desolação que Mariana (Jennifer Lawrence), filha de Gina, e Santiago (J.D. Pardo), filho de Nick, vão surpreendentemente encontrar um espaço na dor para se apaixonar como Capuletto e Montecchio.

    Mas Vidas Que se Cruzam não é um Romeu e Julieta. É uma bela história de amor e ódio, de culpa e desespero e de choques culturais, contada com talento pelo mexicano Guillermo Ariaga, roteirista dos aclamados Amores Brutos, 21 Gramas e Babel, que aqui estreia na direção. Com o próprio roteiro, por supuesto.

    O título brasileiro Vidas Que Se Cruzam não é feliz. Talvez faça o espectador pensar que estará diante de mais um Amores Brutos ou 21 Gramas, estes sim exatamente mostrando episódios de vidas que se cruzam. Não é bem o caso aqui. Claro, há vidas que se cruzam, mas em qual filme não há? Assim como Encontros e Desencontros: em qual filme eles não existem? Mas este trabalho de Ariaga prioriza mais os tempos que os espaços fílmicos. A narrativa é intercalada entre o tempo atual e o cruel tempo passado que motivou a dor dos personagens do presente. Com muita sensibilidade e sem cair nas fáceis armadilhas rasas de causa e efeito.

    Ariaga também não se rende à cartilha acadêmica que reza tratar passado e presente com diferentes estilizações visuais. Aqui, como que reforçando a linha do tempo, o que é contado no passado segue o mesmo desenho visual do que acontece no presente, para o desespero de quem saiu do cinema por dois minutos para comprar pipoca e voltou achando que não vai conseguir entender mais nada do filme. O recurso só cria ainda mais interesse pela trama, contada em precisas doses cinematograficamente homeopáticas e atraentes.

    Trilha melancólica, saudáveis tempos de silêncio (ufa!), interpretações marcantes e um jeito sem pressa de contar uma boa história valeram a Vidas que Se Cruzam um convite para participar da Mostra Competitiva do prestigioso Festival de Veneza de 2008. Não ganhou como filme, mas rendeu um prêmio de interpretação para Jennifer Lawrence. Talvez merecesse mais, não importa. O que vale mesmo é conferir de olhos e coração abertos esta mais do que promissora estreia de Ariaga na direção.