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    WALESA

    Protestos e trilha punk rock em bom filme político
    Por Cristina Tavelin
    27/05/2014

    A década de 70 não foi uma época fácil em vários países. Se, no Brasil, a ditadura era de direita, na Polônia a esquerda trabalhava para manter o poder adquirido à força. Durante manifestações devido ao aumento abusivo nos preços dos alimentos, tanques tomaram as ruas e centenas de cidadãos foram presos e torturados. Nesse cenário começou a ganhar força a figura de Lech Walesa, futuro líder da organização sindical Solidariedade.

    O longa de Andrzej Wajda (O Homem de Ferro) retrata como um homem comum se viu, aos poucos, levado a liderar uma multidão. O contexto era tenso e confuso, sem direcionamento claro, como acontece em toda revolução.

    A história se desenvolve por meio do relato de Walesa a uma jornalista italiana. Esses momentos de diálogo entrecortam e conduzem a narrativa, além de pontuar contradições do eletricista que se tornou líder político. Em 1967, o protagonista desta trama assistiu à violenta repressão de protestos no estaleiro naval onde todos trabalhavam em péssima condições.

    Em 1970, se engajou definitivamente na política. Ao retratar esse momento conflituoso da Polônia, o longa enfoca detalhes para evidenciar o nível da tragédia de uma nação: o trabalhador que tem a perna esmagada por um tanque do exército; aquele que é preso por estar andando na rua no momento "errado"; ou o que apanha sem saber o por quê.

    Walesa foi preso centenas de vezes e suas passagens na cadeia rendem perspectivas interessantes. Quando é interrogado, ouve-se os gritos dos cidadãos sendo torturados o tempo todo, o que causa angústia no espectador e o insere dentro da experiência dolorosa, não apenas expõe uma imagem distanciada proporcionando mero voyerismo.

    A liderança do movimento grevista do estaleiro de Gdansk, 10 anos depois, mostra diversos aspectos interessantes nas relações humanas: os conflitos de opinião que surgem no próprio grupo, o uso das massas para o alcance de objetivos, a inevitável dispersão quando alguma conquista individual é alcançada, etc. Um ótimo panorama sobre lideres e o laço ilusório criado entre eles e o povo.

    Para fazer um retrato humano, o diretor dá grande espaço à companheira de Walesa, Danuta, a qual precisa cuidar de seis filhos e do ambiente familiar - sempre colocado em risco pela inclinação à coletividade do marido. Esse embate entre público e privado rende boas cenas, a exemplo de quando a esposa coloca dezenas de militantes para fora do apartamento do casal.

    Esteticamente, a opção de inserir os atores em cenas históricas cria um efeito, digamos, tosco. Talvez fosse mais eficiente e prático utilizar as passagens reais completas. Em termos de atuação, o par principal se sai bem e alguns pouco coadjuvantes deixam a desejar. Destaque ainda para a trilha de punk rock polonês. 

    Em 1980, após Gdansk, vários direitos foram alcançados, mas a lei marcial os levou a derrocada. A história se fez justa e, após muitos anos e mudanças, Walesa chegou à presidência da Polônia, onde exerceu o cargo entre 1990 e 1995. Em 2000, obteve apenas 1% dos votos nas eleições. As coisas realmente mudam, mais ainda quando se trata de política.

    Imaginava-se que a queda do muro de Berlim e o fim dos regimes comunistas traria liberdade. A cena de Walesa aclamado nos EUA retrata bem esse sentimento. Mas, como menciona Aldous Huxley, "a ditadura perfeita terá as aparências da democracia". Sempre necessário refletir sobre o assunto, e este filme histórico cumpre bem seu papel.