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    XINGU

    Relação entre personagens é muito bem articulada pelo roteiro e captada com a sensibilidade pelo diretor<br />
    Por Roberto Guerra
    04/04/2012

    Em meados do século passado o Brasil pouco conhecia suas entranhas. Éramos um país com os olhos voltados para o atlântico e de costas para nosso vasto interior. Em 1943, a Expedição Roncador-Xingu, organizada pelo governo federal, quis mudar essa realidade. Não que a ideia de interiorizar o Brasil fosse nova, mas pela primeira vez foi colocada em prática de fato.

    A aventura abriu uma janela pela qual assomou um país isolado e mudou radicalmente a vida de três homens, os irmãos Cláudio, Leonardo e Orlando Villas-Bôas. Como resultado de seu trabalho, um outro Estado foi erguido dentro do país: o Parque Nacional do Xingu. Nele, até hoje encontram-se protegidos a parcela de brasileiros que pagaram mais caro por esse integração: os índios. A história dessa saga épica que uniu esses dois brasis diversos é o pano de fundo do longa Xingu, do diretor Cao Hamburger (O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias).

    Com o preâmbulo acima quis contextualizar, mesmo que de forma breve, esse episódio de nossa história. O filme de Hamburger concentra-se na história dos irmãos Vilas-Bôas e não perde tempo em tentar explicar o Brasil que foi atrás de conhecer os recônditos de seus sertões. Nem tinha essa obrigação. O roteiro escrito a seis mãos por Cao Hamburger, Ana Mulayert e Elena Soares intenta apresentar - o que faz muito bem - seus principais personagens: os irmãos que abandonaram um vida de confortos na cidade grande para se embrenhar na região Centro-Oeste do Brasil atrás de aventura. E como, com a experiência, tornaram-se defensores dos índios e da respeitosa relação com a natureza numa época em que isso ainda não era moda.

    Xingu é um filme como todo filme deveria ser: lapidado, bem trabalhado, no qual se enxerga de pronto a coesão da equipe que o realizou. João Miguel, Caio Blat e Felipe Camargo, atores que dão vida aos irmãos Vilas-Bôas, fazem um trabalho exemplar. Com destaque para Miguel, que interpreta Cláudio, sem dúvida o personagem mais intenso e complexo do filme.

    A relação entre os três, as tensões, os conflitos, tudo é muito bem articulado pelo roteiro e captado com a sensibilidade por Hamburger. Faltou, no entanto, o mesmo esmero no desenvolvimento da relação do trio de protagonistas com os coadjuvantes. Estes careceram de ser melhor explorados, melhor construídos na trama. O fato é compensado em parte pela participação de índios não-atores no filme representando seus antepassados na história. Graças a um bom trabalho de preparação, eles proporcionam ao longa uma genuinidade natural, determinante para a ambientação do espectador.

    Xingu também assume uma postura de filme-denúncia ao mostrar as atrocidades cometidas contra as tribos instaladas no alto Xingu, a ganância de latifundiários, garimpeiros e madeireiros e a falta de escrúpulo da classe política. É um filme ambientado na década de 40, mas com frescor atual num momento em que se debate iniciativas como sustentabilidade e proteção da região amazônica.

    A produção não se pretende um registro fiel e completo da história dos Villas-Bôas, mesmo porque epopeia dos irmãos atravessaram décadas. No entanto, bom desenvolvimento da narrativa não deixa espaço a questionamentos e acerta em priorizar aspectos emocionais e morais das personalidades dos irmãos, humanizando-os na tela. Um filme livre dos tradicionais clichês de exotismo indígena e acima da média dentro da produção recente do país.