Cineasta Edu Felistoque fala de mercado, música e da série Buscando Buskers

Série acompanha músicos de rua

02/02/2017 13h54

Por Daniel Reininger

Buscando Buskers, do cineasta Edu Felistoque, é uma série documental musical de seis episódios sobre a vida de virtuosos músicos, letristas e cantores, que possuem um trabalho autoral de qualidade e se apresentam nas ruas de grandes cidades. A série mostra a vida e composições desses artistas, que retratam angústias, alegrias, opiniões e seus pensamentos sobre o mundo contemporâneo.

Para saber um pouco mais dessa série que tem chamado atenção no Canal Sony, falamos com o diretor e idealizar do projeto. Confira:

Edu, como surgiu o projeto Buscando Buskers?

Edu Felistoque: Meu filho, Gabriel Felistoque, também é realizador de audiovisual e teve essa ideia. Na mesma semana que ele me contou, li uma critica musical melancólica dizendo que a grande promessa da musica brasileira não tinha sido comprida pelas novas gerações. Achei curioso porque gosto de rap, musica clássica, pop, sertanejo, folk rock e não tenho essa impressão.

Dias depois eu andava na Av. Paulista com meu fone de ouvido e passei por um, dois, três músicos se apresentando na rua. Resolvi tirar o fone e surgiu a ideia da série. Esses artistas são geniais e fazem sim a trilha sonora das cidades.

Eu me identifico, porque sou um pouco igual a eles. Eu não fico esperando um produtor famoso me produzir, vou pra rua buscar condições para minha arte.

Qual é sua relação com a música?

Edu Felistoque: Eu adoro realizar filmes que tenham temas que eu não domino, pois assim aprendo. Já tem um tempo que, eu que não sou musico, busco mergulhar no universo artístico musical para compreender e sentir o processo de criação desses artistas. Primeiro no filme que dirigi com Nereu Cerdeira, "Musicagen", com Abujamra (Abú) e Fernando Sardo, e agora "Buscando Buskers".

Música pra mim é uma "maquina do tempo", outras vezes uma "nave de renovação de ideias e emoções". Não curto muito fone de ouvido, gosto mesmo de caixas acústicas vibrando na minha frente para sentir a musica no corpo e não somente dos ouvidos.

Antes de ir para o set dirigir atores eu coloco musica pra tocar. Já dirigi cenas e cenas com a musica rolando. O técnico do som direto fica puto.

Você costuma lidar com questões políticas e sociais em seus filmes, o mesmo acontece com essa série? Comenta um pouco sobre isso.

Edu Felistoque: Gosto de tentar fazer filmes híbridos na ficção. Filmes que entretenham mas que também estimulem reflexões. Adoro também pensar que posso construir na obra camadas múltiplas de interpretações. Creio que o publico deve curtir procurar essas camadas. Eu não tenho lado politico absoluto, curto um "poder decentralizado" ou um "não poder", mas não fico impondo minhas ideias, até porque tenho certezas de que imposição gera revolta, seja pra que lado for.

Não tem jeito, só tem respeito. Em documentários procuro não censurar, não manipular nada, até porque já aprendi coisas interessantes com gente que pensa diferente. A politica é escrota, cada vez mais horrível. Mas não vejo outra saída se não pela politica. Na ficção não fico "discursando" o tempo todo, eu respeito. Curto fazer cenas, sem diálogos que retratam uma observação seria social. Bom, nasci anarquista e a gente sempre aprende com utopias.

Mas criticar eu também sei. Por exemplo, acho que para muitos realizadores de cinema ou audiovisual brasileiro está faltando honestidade artística e principalmente intelectual. Aqueles que se rendem aos mecanismos de financiamento público de produção, não são todo, mas, até onde eu sei, "o cão não morde a mão do dono que o alimenta", e já vi muito realizador de cinema com discurso social incrível e quando vai para o set a arrogância vence e rola desrespeito e maus tratos com a equipe.

Como a trilha sonora influencia seus filmes? Como é o processo de escolha das trilhas?

Edu Felistoque: Eu escrevo cenas ouvindo musica. A música muitas vezes é 90% do filme. Adoro sugestões de amigos e vibrações, eu me emociono com tudo, e às vezes uma música se torna um mantra, ouço repetidamente, dezenas de vezes.

Em seguida da mesma música, se eu curto e me emociono com ela, ela se torna parte do processo de criação.

O que achou da repercussão de Buscando Buskers?

Edu Felistoque: Eu recebo vários e-mails, mensagens nas redes sociais me parabenizando empolgadamente, não somente de artistas, o que seria óbvio, também de engenheiros, médicos, professores, etc. Acho que isso é uma grande repercussão, reconhecimento digno desses músicos, mas, por favor, senhores políticos, não tirem eles das ruas, caramba!

Buscando Buskers

Como encontrou os músicos para o projeto e como definiu o foco de cada episódio?

Edu Felistoque: Eu e a Victoria Mazzia, produtora, fizemos a curadoria junto ao coletivo de artistas e técnicos que trabalharam na serie. O método foi andar pelas ruas observando e ouvindo, mas existe um "dogmazinho ":

1 A escolha do artista de rua a ser documentado deverá seguir a premissa de que ele tem trabalhos autorais.
2 Evitar conversar com depoente sobre sua historia antes das filmagens.
3 As perguntas ao depoente deveram ser criadas formuladas no momento da gravação e abertas para toda a equipe.
4 Usar lentes luminosas e que proporcionem agilidade de enquadramentos e também permitam o operador ficar no mínimo 4 metros distante do depoente (evitar "invasão da bolha pessoal" do depoente)
5 Usar a luz do mundo, luz ambiente.
6 Aceitar o cenário real da forma que ele existe, sem mover objetos para "melhorar" composição dos enquadramentos.
7 Abusar de enquadramentos cujo conceito cinematográfico acadêmico julgue "estranho".
8 Evitar takes de cobertura que possam transmitir algo que não ocorreu de fato durante as filmagens.
9 Utilizar somente o depoimento do artista, sua voz como construção de uma linha central da edição na intenção de que ele, o artista, passe sua mensagem, "o artista pelo próprio artista" apresentado suas ideias, seus conceitos, pensamentos, etc. Evitando assim colocar analises positivas ou negativas de terceiros, especialistas, críticos de musica ou arte, ou opiniões individuais do publico sobre o trabalho do artista.
10 Gravar imagens e sons com ou sem publico.
11 Ser feliz!

Como você avalia atualmente o espaço para produções nacionais, tanto no cinema quanto na televisão?

Edu Felistoque: Sou a favor da exibição das obras e não somente da produção. São produzidos mais de 150 filmes nacionais por ano com verba pública, parece que isso é muito legal mas não é. Eu comemoraria esse número e fosse produção com financiamento privado.

Mesmo com todo incentivo, o gargalo continua, as salas de cinema não cresceram como a produção, isso em minha opinião é um erro de administração grave. Não podemos afirmar que o povo brasileiro não gosta de filme brasileiro porque não vai ver cinema brasileiro, sem levarmos os filmes para a galera ver, principalmente na periferia, onde sem duvida deveria existir incentivos para criar salas de cinemas de bairro com ingressos populares a R$ 4 ou R$ 5 já que os filmes são 100% financiados por verbas publicas. A SPcine em SP está fazendo um trabalho bacana. Criou um circuito na periferia eficiente com aparelhos que já não estavam em uso como os CEUS.

Na televisão, sou a favor da lei de cota até que o cinema ande com suas próprias pernas, mas deveríamos ter essa lei também na TV aberta e não somente na TV por assinatura.

Agora, qual será seu próximo projeto?

Edu Felistoque: Estou trabalhando junto a FM Produções do Fernando Muniz no lançamento do filme documentário (música outra vez) sobre a cantora, compositora e violonista Badi Assad. Com a Raven Produções e com o produtor Sérgio Martinelli trabalho na segunda temporada da série "Buscando Buskers". No final do ano, se tudo der certo, filmaremos o longa ficção sobre Zagati, o catador de papeis que montou um cineminha na comunidade com restos de projetores e filmes que encontrou no lixo.