Afonso Poyart fala sobre Mais Forte Que o Mundo e experiência em Hollywood

Diretor comandou o suspense Presságios de Um Crime

30/06/2016 18h32

Por Iara Vasconcelos

O diretor Afonso Poyart é uma das principais referências do cenário atual do cinema brasileiro, principalmente após o criativo 2 Coelhos. Depois de passar um tempo em Hollywood, onde dirigiu o suspense Presságios De Um Crime, ele retornou ao Brasil e encarou o desafio de contar a história do ex-campeão da categoria peso pena do UFC José Aldo.

+ Leia a Crítica de Mais Forte Que o Mundo

Em entrevista exclusiva ao Cineclick, ele fala sobre o processo criativo e as principais dificuldades de filmar um longa dessa magnitude com um orçamento médio, além de relembrar sua trajetória nos EUA. Confira:

Antes de "Mais Forte que o Mundo", você já tinha interesse em fazer um filme sobre algum esportista brasileiro?

Poyart: Eu sempre achei interessante filmes que retratavam esportistas, inclusive eu tenho vários filmes de luta que sempre me chamaram a atenção, um filme de atletismo ou que retrata a carreira de algum atleta. Eu sempre pensei em fazer algo sobre algum jogador de futebol, aproveitando essa paixão nacional. Não houve nenhum grande filme sobre o futebol, que retrata a ascensão de um ídolo. Eu me lembro de um filme dos Trapalhões, que tinha o Pelé, acho que para mim foi um dos grandes longas de futebol aqui no Brasil que tenha atingido o público. Eu sempre pensava nessa possibilidade e o filme de MMA surgiu como uma oportunidade e me pareceu interessante contar a história de um gladiador moderno, de um brasileiro que sai de uma situação adversa e vai brilhar em Las Vegas. A história pessoal do José Aldo me interessou mais do que o próprio esporte, é a jornada do herói clássica, um homem vencendo seus demônios.


O longa tem cenas no Rio de Janeiro, Manaus e até Las Vegas. Como foi o processo de filmagem e como manter isso no orçamento da produção?

Poyart: O orçamento não é gigante pelo tamanho do filme. É mais ambicioso que o 2 Coelhos. Nós não conseguimos ir até Manaus, por exemplo – as cenas que se passam lá foram filmadas em São Paulo e São José dos Campos. Filmamos em Las Vegas em um regime minimalista, com uma equipe pequena. A gente espremeu tudo o que podia da laranja. Foi difícil ficar dentro do orçamento, tanto que acabamos colocando dinheiro do próprio bolso.


O Malvino Salvador era sua primeira opção para viver José Aldo. Qual foi o motivo da troca de atores?

Poyart: O Malvino é um grande amigo, ele foi contratado para o filme, mas eu recebi uma proposta nos EUA e o projeto ficou parado no Brasil. Na minha volta, o Malvino estava com a agenda lotada e não podia se comprometer da maneira que precisávamos.


Como você conheceu o trabalho do José Loreto?

Poyart: O Loreto já estava no meu radar, como um possível Aldo pela aparência, talento e tudo mais. O que mais me chamou a atenção foi a vontade que ele demonstrou em fazer o papel. Mostrei uma foto do Jake Gyllenhaal que tinha acabado de fazer um filme de luta e ele curtiu. Ele se superou na tela, tanto pela atuação quanto pela parte física.


Tanto "José Aldo - Mais Forte que o Mundo" quanto "Presságios de um Crime" possuem elementos de diversos gêneros na mesma trama. Isso é algo intencional? Qual a ideia por trás dessa mistura?

Poyart: Eu não tenho um estilo definido. Eu tenho algumas ferramentas na minha manga e tento usá-las, como múltiplas câmeras, slow motion – algumas pessoas até falam que eu uso muito esse efeito – e também justaposição temporal, gosto de brincar com essa percepção do tempo. Gosto também de misturar músicas de filmes diferentes, esse filme tem Lorde até Ennio Morricone, Jorge Bem Jor, Charlie Brown Jr, Lenine ... é uma mistura musical bem eclética, mas que para mim ajuda a narrar a história.


Os filmes biográficos costumam sofrer críticas sobre sua fidelidade (ou falta dela) com a vida real. Em outras entrevistas, você alega que acrescentou elementos fictícios na trama de "José Aldo - Mais Forte que o Mundo". Qual foi o principal motivo dessa decisão?

Poyart: O José Aldo sabia que ia ter ficção e mesmo assim ele achou que a história e a mensagem que o filme traz no final se assemelha ao que ele sentiu quando passou por esses eventos na vida real. Isso para mim foi uma coroação.


Em sua opinião, quais elementos uma boa história precisa ter para se tornar um bom filme?

Poyart: Um bom filme não é como uma receita de bolo. Para mim, um filme bom é um filme feito de coração. É que tem verdade e qualquer verdade na tela, feita com carinho pelos realizadores, é bacana de se ver, mesmo com uma câmera amadora. Você tem que criar uma conexão emocional com o espectador.


Qual foi sua maior dificuldade em Hollywood. Você pretende fazer outro filme por lá?

Poyart: A minha experiência em Hollywood foi um aprendizado enorme. Pretendo fazer mais coisas por lá, estou estudante novos roteiros e negociando algumas coisas. Quando eu fiz o Presságio eu tinha acabado de completar 35 anos, então foi tudo muito novo para mim.


Como foi a experiência de filmar com Anthony Hopkins? Como ele é no set?

Poyart: O Anthony Hopkins é um grande ator, foi uma tremenda experiência trabalhar com ele. Claro que não foi fácil, ele é um homem que tem um ponto de vista muito forte sobre a arte dele e o personagem que ele está fazendo. Então os embates criativos são de alto nível, ele não aceita muito menos que isso, então você tem que chegar com boas ideias para argumentar. Nos Estados Unidos eu era um contratado, tinha menos autonomia, acho que essa foi a principal dificuldade.


Dois Coelhos é um grande filme de ação, com elementos de fantasia que raramente são vistos no cinema nacional. Se você fosse dirigir um filme de super-heróis, qual seria?

Poyart: Eu sou muito fã do Batman, faria um filme sobre ele. Acho que é um dos personagens mais interessantes e complexos desse universo dos quadrinhos. Eu acho que a Marvel é muito "colorida", gosto de personagens mais sombrios. Inclusive, estou conversando com um estúdio sobre a adaptação de um comic muito popular nos Estados Unidos, mas não posso revelar nada sobre isso ainda.


Você pretende fazer uma sequência de algum de seus filmes? Acha que qual deles funcionaria melhor como franquia?

Poyart: Não sou muito fã de fazer sequências. Mas eu tenho uma oportunidade de fazer o Dois Coelhos nos Estados Unidos, um remake, e eu não ia dirigir, mas o roteiro ficou tão legal e conversei com o produtor, já estou olhando de maneira diferente para essa possibilidade.

Mais Forte Que O Mundo - A História De José Aldo já está em cartaz nos cinemas. Assista ao trailer: