O Rastro: Porque o terror nacional merece ser visto

Rafael Cardoso e Leandra Leal estrelam o horror psicológico O Rastro

14/08/2020 18h15

Por Alexandre Dias

O terror é um dos gêneros mais bem explorados no cinema nacional. O tom desses filmes no Brasil, seja mais psicológico ou voltado para o gore, quase sempre é construído com qualidade, ainda que envolva a junção desses elementos. 

É o caso de O Rastro, longa de 2017 dirigido por J.C. Feyer (Minotauro). Na trama, João Rocha (Rafael Cardoso) é um jovem médico em ascensão, que acaba encarregado da tarefa de supervisionar a transferência de pacientes quando um hospital público da cidade do Rio de Janeiro é fechado por falta de verba. Quando tudo parece correr dentro da normalidade, uma paciente criança desaparece no meio da noite, levando João para uma jornada em um mundo obscuro e perigoso.

Como se pode perceber, a história promete descobertas ao longo da narrativa, em meio a sensações de medo, tensão e debates sociais. São aspectos intensos, o que não só ressalta a qualidade técnica da obra como induz o espectador a revê-la com o objetivo de absorver tudo o que ela tem para transmitir. 

Dito isso, vamos trazer os motivos pelo qual O Rastro merece ser assistido mais de uma vez: 

Cuidado com os spoilers!

Local assombrado 

O filme levou oito anos para finalmente chegar aos cinemas. Captar recursos e amadurecer o roteiro foram alguns dos embates enfrentados pela equipe. A princípio a história se passaria em uma casa isolada em alguma colina do país, mas como a própria equipe definiu: "seria muito americanizado".

Visto que o projeto teve influências de terrores clássicos, como O Iluminado, O Sexto Sentido e Os Outros, percebe-se que a decisão sobre a alteração do cenário principal foi certeira, pois há a velha e ótima dinâmica do gênero de aterrorizar por meio de um local assombrado. 

O centro de saúde parece ter uma energia diabólica, mesmo que focada no personagem de Cardoso. Não à toa, a criança desaparecida é usada como uma figura medonha, a exemplo de diversas outras produções assim.

Loucura pessoal

O sumiço da menina que move a trama mescla medo e empatia por ela no espectador. No primeiro caso, por ter uma caracterização do "mal"; no segundo, porque fica implícito que ela foi vítima das falhas da saúde pública no Brasil - o hospital é exibido em degradação o tempo todo.

É justamente essa "certeza" de que ela foi prejudicada que deixa a jornada de João tão tensa. Ele é apresentado como uma pessoa "confiável", porém passa a ficar obcecado e, por consequência, o seu julgamento é posto em dúvida; o ultimato desse questionamento da sanidade dele é a cena em que o médico pede um arquivo para uma atendente e tem uma crise de raiva.

A morte dele no segundo ato é um dos pontos altos do filme, afinal estamos falando do protagonista. Contudo, é nesse momento que o roteiro de Beatriz Manella (Meanwhile) e André Pereira (Mato Sem Cachorro) dá um nó na cabeça de quem está assistindo: João morreu pelo seu terror interno ou por alguma ação externa?

Discussões sociais 

Segundo a produtora, Malu Miranda, os suspenses de David Fincher (Garota Exemplar, Zodíaco) também exerceram grande influência no processo de criação. O diretor é conhecido por abordar questões cotidianas de um jeito sombrio e Feyer absoveu isso para o terceiro ato de O Rastro.

É chover no molhado dizer que o longa critica o sistema de saúde público do Rio de Janeiro e do Brasil. Entretanto, essa denúncia é feita no decorrer da narrativa e o final conclui de vez quem é o alvo da mensagem: os ricos e poderosos. 

Leila (Leandra Leal), a viúva de João, o substitui como o ponto de vista central da história. Por estar devastada com a perda do marido, ela serve de contraponto a Ricardo (Ricardo), um dos chefes traidores de João que está tentando matá-la. A posição de poder dele, que o tornaria "superior" a ela, é desconstruída pela sua ausência de moral e ele mesmo admite isso em uma fala de realização da sua identidade: "Algumas pessoas não sentem culpa."

Ricardo não estava se referindo só a ele, dando a entender de que o sistema nocivo é vasto. É a conclusão perfeita para um filme que quer trazer diversas abordagens sem perder a naturalidade.

Veja o trailer do longa:

 

Nesta matéria você leu sobre: O Rastro, O Iluminado, O Sexto Sentido, Os Outros.

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