cineclick-logo
    botão de fechar menu do cineclick
  • FILMES
  • NOTÍCIAS
  • CRÍTICAS
  • LISTAS
  • GAMES
  • © 2010-2021 cineclick.com.br - Todos os direitos reservados

    63 anos depois, 12 Homens e Uma Sentença é atual ao discutir preconceitos

    Longa lançado em 1957 aborda discussões sobre as falhas da justiça
    Por Thamires Viana
    14/12/2020

    Doze homens sentados em uma sala pequena, em um dos dias mais quentes do ano, decidindo o destino de um rapaz de 18 anos, latino e pobre, acusado de matar o próprio pai. São dois caminhos: inocência ou culpa que indicarão se o jovem irá ou não para o corredor da morte.

    A trama de 12 Homens E Uma Sentença, um dos maiores e mais importantes clássicos da história do cinema, chegou ao público em 1957, mas ainda permanece mais atual do que nunca. Nas mãos do diretor Sidney Lumet, que viria a trazer outros títulos memoráveis como Serpico e Um Dia De Cão às telas, o filme é uma magnífica aula de cinema e uma desconcertante crítica às fragilidades da justiça, ao preconceito e ao desamparo aos latinos que ingressam na América.

    Ambientado nos Estados Unidos, que mantém a legalidade da pena de morte, o filme gira em torno de um julgamento no qual um jovem porto-riquenho é acusado de ter matado o próprio pai a facadas. Os 12 jurados se reúnem para decidir a sentença, com a orientação do número 1, que comanda a reunião.

    As discussões

    Nas cenas iniciais, os homens, sem nome, apenas numerados de 1 a 12, discorrem sobre o caso, mas já parecem ter decidido pela culpabilidade do adolescente. São provas rasas, mal analisadas e uma certeza de que "pessoas desse tipo são perigosas", referindo-se aos latinos, algo visto até os dias de hoje no governo Trump. Enquanto onze deles, cada um com sua razão, votam pela condenação, o jurado número 8, interpretado brilhantemente pelo ator Henry Fonda, é o único que acredita na inocência do garoto.

    Lumet cria uma atmosfera de suspense em torno da discussão capturando a expressão de cada um dos homens que se importam mais com a própria vida do que com o fato de que uma delas está em suas mãos. Aqui, o roteiro assinado por Reginald Rose (Selvagens Cães de Guerra), insere da forma clara e realista o prejulgamento que ainda permeia em acusações desse porte nos dias atuais.

    Enquanto o jurado 8 vai apontando falhas no sistema e nas provas apresentadas por duas testemunhas sobre o caso, sua intenção é convencer os outros a repensarem a sentença. Ele recria a cena do crime, aponta detalhes que colocam as provas em dúvidas e insiste que algo desse tipo deve ser analisado com cautela e responsabilidade. É aqui que o longa engata em caracterizar os personagens e criar identificação com o público que, mesmo sem apontar seu principal objetivo, vai explorando as convicções pessoais que levaram os 12 homens a considerar o jovem culpado e examinam os seus (e os nossos) próprios preconceitos.

    Passado X Presente

    São 63 anos desde que o longa foi lançado e é perceptível que a trama de 1h36 minutos de duração parece ter saído de um roteiro escrito em 2020. É comum se deparar com notícias sobre prejulgamentos e a irresponsabilidade em acusações que, várias vezes, resultam em prisões injustas e penas de morte cometidas erroneamente.

    Um dos casos de maior evidência sobre um erro de júri foi retratado na emocionante série Olhos Que Condenam, comandada pela diretora Ava Duvernay em 2019, que trouxe à tona um dos exemplos mais revoltantes da história americana. Tanto o racismo quanto a "pressa" na resolução resultou na prisão de cinco jovens – quatro negros e um hispânico - acusados de cometerem estupro e quase matarem uma jovem no Central Park, em Nova York.

    Cena da série Olhos que Condenam

    Em 1990, os cinco jovens foram condenados de 10 a 15 anos de prisão, embora as provas apresentadas pela acusação não comprovassem a autoria do crime: nenhum dos DNA dos adolescentes correspondiam ao coletado na cena do crime, assim como as amostras de sêmen que apontaram ser de um homem não identificado e as evidências físicas que não ligou nenhum dos acusados ao local do crime.

    Quatro jovens cumpriram de 6 a 11 anos e o quinto, que foi preso após acompanhar um dos amigos no interrogatório, passou 13 anos na prisão após ser julgado como adulto por ter 16 anos na época do crime. A resolução só veio em 2001 com a confissão de Matias Reyes, um estuprador em série e assassino condenado que confessou às autoridades que havia estuprado a atleta naquela noite. Além de provas que confirmaram a autoria do crime, o exame de DNA do assassino correspondia àquele coletado no Central Park.

    Outro exemplo, agora de uma pena de morte errônea, que revoltou os EUA foi a de Troy Davis, um afro-americano acusado pelo assassinado de um policial. Ele foi executado em 2011 com injeção letal, mesmo após as evidências do crime não terem sido conclusivamente provadas durante o processo judicial de sua acusação.

    Além das evidências e amostras de DNA descartarem a autoria do crime, sete das nove testemunhas que apontaram Troy como culpado voltaram atrás em seus depoimentos e confessaram ter sido persuadidas pela polícia a testemunhar contra o homem, algo que esclarece a forma apressada e cega com que o júri foi conduzido, principalmente por se tratar da morte de um policial e ter como réu um homem negro. Outra testemunha chegou a afirmar que a autoria real do crime foi de Sylvester "Redd" Coles, um homem que confessou o crime durante uma festa.

    O caso mais recente sobre o assunto veio à tona no último dia 11 de dezembro, quando outro homem negro chamado Brandon Bernard, de 40 anos, foi executado às pressas em Indiana, EUA. O caso ganhou repercussão pela forma como o governo americano, ainda liderado por Donald Trump, vem acelerando a execução de presos antes do fim do de seu mandato.

    O homem era acusado pela participação no assassinato de um casal no Texas, mas seus advogados afirmavam que o rapaz, na época com 18 anos, não foi o autor dos disparos, se arrependeu da participação e teve um comportamento exemplar em mais de 20 anos na prisão.

    Ele foi uma das pessoas ajudadas pela socialite Kim Kardashian, que também é estudante de Direito, e cirou o projeto The Justice Project, que visa reduzir o número de detentos nas penitenciárias americanas libertando acusados de crimes de baixa gravidade. Mesmo com os esforços dos advogados e do projeto que relutavam e pediam o adiamento da sentença, Bernard foi executado após ter seu pedido de clemência rejeitado.

    O caso de Brandon traz à tona a indignação da imprensa e população pela quebra que Trump fez à tradição americana que visa suspender a execução de penas capitais enquanto ocorre uma transição presidencial. Estima-se que mais quatro execuções sejam completas até a saída de Trump da Casa Branca.

    Cena de 12 Homens e Uma Sentença

    Em 12 Homens E Uma Sentença, a pressa é mostrada com exemplos "fúteis" que descrevem o descaso com a vida de outras pessoas. Um dos jurados está mais interessado na partida de futebol que acontecerá em algumas horas, enquanto outro se preocupa com as propagandas que criou e acaba considerando o jovem acusado ao ver todos os outros dez com a mesma opinião, indo junto com a "massa" em suas afirmações.

    Talvez Lumet e Rose não imaginassem o quanto sua obra cinematográfica seria ainda tão necessária e potente seis décadas depois.

    12 Homens E Uma Sentença está disponível no catálogo do Telecine Play. Além de Fonda, o elenco ainda traz nomes como Martin Balsam, John Fiedler, Lee J. Cobb,  E.G. Marshall, Jack Klugman, Edward Binns, Jack Warden, Joseph Sweeney, Ed Begley,  George Voskovec e Robert Webber. 

    Veja também:

    Kim Kardashian ajuda a libertar 7 mil presos em documentário da Amazon

    Nunca viu os clássicos? Chega de vergonha e confira no streaming

    Histórias Inspiradoras: Lições de vida que aprendemos nos cinemas