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    A História do Terror no Cinema: medo ao redor do mundo

    Filmes de terror são mais do que sustos e sangue: são um reflexo da sociedade e de seus medos
    Por Da Redação
    16/12/2020

    A história do Terror no Cinema tem mais de cem anos de assombro. Nós preparamos um especial sobre a trajetória de um dos gêneros mais controversos da Sétima Arte e aqui você confere a segunda parte dessa história. 

    Não deixe de ler também a primeira parte: A História do Terror no Cinema: tudo sobre filmes de terror!


    O cineasta Zé do Caixão



    O terror em solo tupiniquim: filmes, movimentos, diretores e o contexto da produção do gênero no Brasil

     

    Quando falamos em filme de terror nacional, estamos falando de uma história com pouco mais de 150 produções realizadas ao longo de sete décadas.

    Apesar da tímida quantidade de filmes do gênero, o Brasil tem uma trajetória bem particular repleta de erotismo e sangue que, nos últimos anos, tem desabrochado em algo novo e promissor.

    Confira abaixo mais da história na lista de filmes de terror nacionais:

    O começo do filme de terror nacional e a influência de José Mojica

    O início do terror no Brasil se deu em 1964 e durante um bom tempo foi impactado pela censura da ditadura militar, que se fortaleceu no fim dos anos 1960. Ainda assim, isso não significa que a produção foi inexistente, muito pelo contrário.

    Em À Meia-noite Levarei Sua Alma (1964), o país é introduzido a Zé do Caixão, coveiro conhecido pela violência e unhas enormes - o que virariam sua marca registrada. O longa de José Mojica Marins, que dirigiu e atuou, fez sucesso, marcando o começo de uma série de filmes que ficaria para a história do terror nacional. Outros da época que merecem destaque são: Esta Noite Encarnarei No Teu Cadáver (1967) e O Estranho Mundo de Zé do Caixão (1968).

    As obras de Mojica serviram como impulso inicial para outras obras independentes do gênero, que infelizmente não foram muito longe. Algumas delas são: Phobus, o Ministro do Diabo (feito em 1965, mas lançado somente em 1974), de Luiz Renato Brescia, exibido pouquíssimas vezes no cinema, Zorga, o Médico Louco, de César Galvão, que não chegou a ser concluído, e O Homem Lobo (feito em 1966, mas lançado somente em 1971), de Raffaele Rossi.

    Além dessas tentativas de terror nacional, a agressividade dos filmes de Mojica também apareceram no Cinema Marginal, em obras experimentais como Barão Olavo, o Horrível (1970), Copacabana Mon Amour (1970) e Os Monstros de Babaloo (1970).

    Mas não eram só influências internas que o gênero sofria. Com o sucesso mundial de O Exorcista (1973), temas envolvendo demônios e espíritos achariam um solo fértil no Brasil, um país que tradicionalmente já é repleto de misticismo em sua cultura.

    Foi o momento de O Exorcismo Negro (1974), de Mojica, Seduzidas pelo Demônio (1976), de Raffaele Rossi, e Enigma para Demônios (1975), de Carlos Hugo Christensen. Lançado na mesma época também é importante mencionar O Anjo da Noite (1974) e As Filhas do Fogo (1978), que trouxeram uma pegada existencial e erudita para o terror nacional.

    Nos anos 1970, a sensualidade invadiu o gênero, misturando-se ao misticismo em longas como As Noites de Iemanjá (1971) e Janaína, a Virgem Proibida (1972) e abrindo as portas para o horror na Boca do Lixo.

    Boca do Lixo: o sexo chega ao terror

    A Boca do Lixo era uma região na cidade de São Paulo, próxima à Estação da Luz, que ficou conhecida por várias produções relevantes para o cinema nacional. Apesar de não ter sido sempre assim, a partir de meados de 1970 ela se destacou pela carga erótica nos longas feitos por ali - algo que se refletiu diretamente na história do terror brasileiro.

    Nessa época, a Boca do Lixo foi o polo de produções de filmes de terror nacionais, investindo em erotismo e medo. Exemplos dessa geração são Excitação (1977), Perversão (1979), A Noite das Taras (1980).

    Poucos anos depois, com o fim da ditadura militar e, consequentemente da censura, surgiram títulos bem mais explícitos e não menos violentos: Amadas e Violentadas (1976), O Estripador de Mulheres (1978), O Matador Sexual (1979), sendo que alguns como As Taras do Mini Vampiro (1987) começaram inclusive a contar com cenas de sexo explícito.

    Foi nessa época também que o filme de terror nacional se aventurou no slasher, subgênero que conta com serial killers e muito sangue. Seguindo o exemplo de O Massacre da Serra Elétrica (1974), o diretor Jair Correa lançou Shock (1984) enquanto Francisco Cavalcanti apostou em A Hora do Medo (1986), uma clara referência a clássicos como A Hora do Pesadelo (1984) e A Hora dos Mortos-Vivos (1985).

    Retomada e o terror brasileiro contemporâneo

    A década de 1990 foi quase insignificante em termos de filme de terror nacional. Ainda assim, é relevante mencionar duas produções de Fauzi Mansur focadas no público norte-americano: Satanic Attraction (1989) e The Ritual of Death (1990), ambos grandes apostas no sobrenatural e no gore. Contando com um elenco totalmente brasileiro falando em inglês, eles se destacam das produções nacionais de terror da época pela extrema violência.

    É na virada para o novo milênio que ocorreu uma retomada nas produções de terror de forma mais efetiva, contando com lançamentos como Olhos de Vampa (1996), cujo enredo é marcado por uma série de assassinatos com pegada sobrenatural, Gêmeas (1999), que aposta na rivalidade de duas irmãs gêmeas como fio condutor, e O Xangô de Baker Street (2001), uma versão abrasileirada e mais puxada para o terror do clássico Sherlock Holmes.

    Essa onda, junto com o avanço da tecnologia digital, possibilitou um novo fôlego para o gênero, que passou a poder trabalhar em baixos orçamentos sem comprometer bons resultados.

    Em 2008, três lançamentos merecem ser mencionados. Um é Mangue Negro, de Rodrigo Aragão, que aposta no gore e na temática de zumbis com claras influências de clássicos diretores do terror como Sam Raimi, de A Morte do Demônio (1981).

    Outro é O Fim da Picada de Shristian Saghaard, que traz uma releitura de monstros carregada de gore e críticas políticas. Por fim, Encarnação Do Demônio marca a volta de Mojica e tem como enredo a soltura de Zé do Caixão depois de 10 anos preso em um manicômio. O longa também tem uma pegada gore, aproximando-se de Jogos Mortais (2004) e O Albergue (2005).

    No entanto, é a partir da década de 2010 que um novo terror tem aparecido com um volume maior nos cinemas brasileiros. A época coincide com a grande instabilidade política e econômica enfrentada pelo país e o amadurecimento de uma geração que cresceu assistindo clássicos do terror de 1970 a 1990. Agora, ao invés de assistir, é a hora de por a mão na massa.

    Trabalhar Cansa (2011) talvez seja o primeiro dessa onda, contando a história de um casal que acaba de comprar um supermercado e passa a participar de acontecimentos repletos de tensão crescente e uma boa carga de crítica social.

    Outro é O Rastro (2017), que começa com um médico supervisionando a transferência de pacientes entre hospitais até um deles, uma criança, desaparecer e obrigá-lo a entrar em uma busca sinistra.

    As Boas Maneiras (2017), que conta a história de uma grávida cujo comportamento vai se alterando de forma gradativa e dramática e sua babá recém-contratada, e Morto Não Fala (2018), onde um plantonista de necrotério que fala com mortos se vê em meio a uma maldição, são brasileiros que apostaram no sobrenatural e em folclores mundiais, unindo espíritos, lobisomens e uma alta carga de suspense, que eclodem em um clímax repleto de terror.

    Por fim, apostando em uma linha mais sangrenta, Motorrad (2017) é um thriller que traz mortes brutais para as telonas em um enredo em que uma turma de amigos passa a ser perseguida por motoqueiros sádicos. Assim como ele, há: O Animal Cordial (2017), que aposta no slasher ao contar de um assalto a um restaurante, O Segredo De Davi, que acompanha o desenvolvimento de um assassino em série, e O Clube Dos Canibais (2019), onde a crítica social dá as caras em uma narrativa com socialites canibais e o sangue é elemento que não falta.

     

    Uma volta ao mundo pelo gênero: quais são os países mais prolíficos na produção de filmes de terror?

     

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    O GABINETE DO DR. CALIGARI

     

    Apesar dos filmes de terror norte-americanos serem mais conhecidos, não significa que o gênero não encontrou um solo fértil em outros países.

    Na realidade, antes de cruzar o Pacífico e chegar à terra do Tio Sam, os primeiros longa metragens que se tem história deram os primeiros passos em solo europeu, mais precisamente na Alemanha.

    Confira a lista de filmes de terror estrangeiros que marcaram o gênero:

     

     

     

     

    Filmes de terror alemães: o início do cinema e o expressionismo

    Junto com o nascimento do cinema, o mundo foi abalado com a Primeira Guerra Mundial. Em 1919, a Alemanha do pós-guerra estava arrasada e passando por um dos piores períodos econômicos de sua história.

    O desespero da época não passou batido pela Sétima Arte, que se viu envolta por uma estética perturbadora e sombria. Surgia o Expressionismo Alemão, momento em que o terror alemão atingiria o seu auge.

    Cenários distorcidos, maquiagem carregada e sombras exageradas eram ingredientes indispensáveis para trazer para as telonas um sentimento de desconforto e até mal-estar. O precursor desse movimento no cinema foi O Gabinete Do Dr. Caligari (1919), com um enredo que desenvolve temas como hipnose, sonambulismo e loucura com atuações exageradas. Outros clássicos do terror alemão que seguiram o estilo e marcaram a história do gênero foram Nosferatu (1922), uma versão de Drácula modificada por questões de direitos autorais, mas não menos assustadora e que é referência até hoje no cinema.

    Vale falar também de A Morte Cansada (1921), que aborda uma negociação com a morte repleta de terror, e Metrópolis (1927), que mistura ficção científica com discussão sobre luta de classes de forma sinistra.

    Terror no Reino Unido e os clássicos monstros

    Se é possível apontar um momento histórico para o terror britânico é a década de 1950. Na época, um dos estúdios que alcançou sucesso mundial pelos seus filmes de terror estava no auge da produção.

    Estamos falando da Hammer Film Productions. O terror britânico foi muito marcado pela presença dos clássicos monstros, como Frankenstein, Drácula, assim como lobisomens e afins. O primeiro deles que conquistou o público com um enredo repleto de violência e medo foi A Maldição de Frankenstein (1956). Logo em seguida, Vampiro da Noite (1958) superou as expectativas, sendo um verdadeiro blockbuster do terror e confirmando o caminho do sucesso.

    Nos anos seguintes, a Hammer se mantinha como o estúdio mais promissor do Reino Unido, colecionando filmes de terror bem sucedidos como A Múmia (1959), O Cão dos Baskervilles (1959) e O Monstro de Duas Faces (1960). No entanto, as décadas 1960 e 1970 não geraram muitos frutos no cinema britânico e no estúdio, que quase faliu.

    Depois de muitos anos de altos e baixos, atualmente é possível acompanhar um retorno dos filmes de terror britânicos de boa qualidade com a retomada da Hammer. Entre eles estão: Deixe-me Entrar (2010), A Inquilina (2010) e A Mulher De Preto (2011).

    O cinema de terror italiano e o giallo, o slasher macarrônico

    Com obras expressivas no gênero do terror, a Itália é um dos países que brilhou na década de 1970. O primeiro relevante da época é O Pássaro das Plumas de Cristal (1970), de Dario Argento, considerado o primeiro do subgênero giallo, que em poucas palavras seria um equivalente do slasher, em que um serial killer está à solta, mas em moldes italianos.

    Esses assassinos em série do giallo ganhariam força nos próximos lançamentos como Profondo Rosso (1975) e Suspiria (1977), sendo o último um verdadeiro marco para os filmes de terror, com uma trama sobrenatural intensificada pelas cores vivas das cenas.

    Espíritos e misticismo também foram temas que apareceram nos filmes Lisa e o Diabo (1972) e Shock (1977). Por falar em sobrenatural, os filmes de terror italianos tiveram uma verdadeira atração pelo tema. Um dos expoentes é A Noite Dos Mortos Vivos (1968), que praticamente definiu o conceito de zumbis no cinema, explorando-a novamente em Zombie (1979).

    Aqui também vale a menção de Holocausto Canibal (1980), que chocou o mundo com a sensação do medo real por meio da criação do subgênero conhecido como Found Footage, no qual o filme se apresenta como um documentário falso ou como se fossem gravações reais achadas.

    Estados Unidos e a década de clássicos

    É inegável que os filmes de terror norte-americanos tenham sucessos em todas as décadas, principalmente por ser um dos países que mais investe no formato. Ainda assim, é possível dizer que a década de 1980 foi uma das mais frutíferas para os amantes de clássicos do medo.

    O Iluminado (1980) é quem abre a década, trazendo o terror psicológico e a tensão com cenas milimetricamente calculadas por Stanley Kubrick. A trama com pitadas de sobrenatural é seguida pela máxima exploração do tema em Poltergeist - O Fenômeno (1982), longa que abusa dos efeitos especiais para trazer verdadeiras assombrações para as telonas.

    Os efeitos especiais também foram mais do que explorados em filmes como O Enigma De Outro Mundo (1982) e A Mosca, do subgênero body horror, ou seja, com muitas transformações e deformações do corpo humano - vale dizer que a maioria não muito agradável aos olhos, como é típico do terror.

    Por fim, foi durante os anos 1980 que o slasher realmente se concretizou. Depois do lançamento do seu precursor - O Massacre Da Serra Elétrica (1974) - vieram os inesquecíveis Sexta-feira 13 (1980), A Hora Do Pesadelo (1984) e Brinquedo Assassino (1988), todos com personagens aterrorizantes que permaneceram no imaginário popular até os dias de hoje.

    J-Horror: o temido terror japonês

    Mesmo se você nunca viu um filme japonês de terror, saiba que é possível que tenha visto algum remake de um - e que ele provavelmente não era tão bom quanto o original.

    Para quem está acostumado com obras ocidentais, o terror japonês aborda o medo de uma forma muito mais psicológica e indireta. Ele demora a “entregar o tema” e o suspense é sufocante, deixando qualquer um extremamente tenso. Além disso, a cultura japonesa é muito rica, com imagens sobrenaturais muito fortes de demônios e espíritos vingativos.

    Muitos dos sucessos do cinema de terror japonês foram lançados na virada do século, sendo um deles Ringu (1998), a versão original de O Chamado (2002). Da mesma época outros filmes que marcaram o terror sobrenatural são Audição (1999), que leva o espectador para uma reviravolta sangrenta e inesperada, Uzumaki (2000), onde uma maldição aparentemente inescapável atormenta uma cidade, e Água Negra, no qual um vazamento de água é muito mais do que se espera.

    Outras obras que não necessariamente são sobrenaturais, mas que não ficam devendo em nada para o terror são: Battle Royale (2000), que é praticamente uma versão bem mais obscura e sangrenta de Jogos Vorazes (2012), e O Pacto (2001), que inicia com uma cena chocante de suicídio coletivo e a partir de então desenvolve uma trama sinistra.

    Novo Extremismo Francês: o terror para os fortes

    De uns anos para cá, os filmes de terror franceses têm revolucionado o gênero com o movimento batizado de Novo Extremismo Francês. Ele se caracteriza por filmes muito pesados e uma violência com a qual o público definitivamente não está acostumado. Não é à toa que vários desses longas não chegam às telonas por poderem causar mal-estar.

    Um dos primeiros desse movimento a ganhar destaque foi Alta Tensão (2003), que conta com muitas mortes explícitas e um enredo tenso. No entanto, é em A Invasora (2007) que o perturbador atinge outro nível, com mortes cruéis e muito sangue, sendo talvez o mais gráfico deles, e em Mártires (2008) que a fama chega ao movimento, com direito inclusive a uma versão Hollywoodiana em 2015.

    Outros dois filmes do Novo Extremismo Francês que merecem destaque são Grave (2016), no qual o início tranquilo colorido em tons pastéis faz com que a reviravolta sangrenta seja ainda mais inesperada e perturbadora - o longa inclusive ficou conhecido por causar mal-estar no público em suas exibições no Festival Internacional de Cinema de Toronto - e Climax (2018), que, por sua vez, recebeu aplausos de pé no Festival de Cannes com um enredo de drogas, dança e, claro, bastante sangue e violência.

     

    Neve Campbell em cena de Pânico 4

    Mulheres em filmes de terror e seus papéis inesquecíveis

     

    Os personagens de filmes de terror femininos, assim como o próprio gênero, passaram por várias fases ao longo dos anos. Na maioria das vezes estereotipado, o lugar da mulher foi mudando e se complexificando, recentemente atingindo um novo espaço bem mais subversivo se comparado ao seu longo histórico. Antes de falar dele, no entanto, é preciso entender toda a trajetória dessas personagens até chegar nos dias atuais, começando pelas Scream Queens.

    Scream Queens e o início da mulher nos filmes de terror

    Quem não lembra da cena de Psicose (1960) quando Marion Crane, interpretada por Janet Leigh, grita aterrorizada logo antes de ser assassinada? Se você não sabia, essa é a marca registrada das Scream Queens, na tradução literal Rainhas do Grito.

    Esse tipo de personagem surgiu nos anos 1930 quando o cinema ainda era mudo e o papel era reservado apenas para personagens femininas. As Scream Queens eram as vítimas de assassinos nos filmes de terror que, como o nome já sugere, gritavam bastante antes de morrer. Elas não tinham uma importância profunda no enredo, muitas vezes sem inclusive uma história sólida por trás.

    Essas personagens ocupavam um lugar passivo, dificilmente conseguiam se defender de alguma forma e suas mortes basicamente serviam para movimentar a narrativa com cenas dramáticas e chocantes. Além de Janet Leigh, outras Scream Queens memoráveis foram Lil Dagover em um dos primeiros filmes de terror da história, O Gabinete Do Dr. Caligari (1920), Helen Chandler em Drácula (1931) e Fay Wray em King Kong (1933), que inclusive inspirou um concurso de gritos.

    Apesar das Scream Queens serem uma figura presente até hoje no cinema de terror, a partir da década de 1940 as mulheres começaram a deixar a passividade de lado e, inclusive, assumir certa maldade em seus papéis.

    A Segunda Guerra e o começo do empoderamento das mulheres no terror

    Com a Segunda Guerra Mundial, o papel da mulher sofreu profundas alterações na sociedade como um todo. Antes, ele se resumia a ser dona de casa e ter muito pouca autonomia.

    No entanto, quando os homens tiveram que ir para a guerra, as mulheres assumiram as responsabilidades e funções antes consideradas masculinas. Essa mudança de papéis se refletiu também nos personagens de filmes de terror femininos.

    A partir dessa época, começaram a surgir vilãs memoráveis no cinema, como Regina Giddens, interpretada por Bette Davis em Pérfida (1941), que assiste à morte do marido enquanto considera ser uma viúva rica, e rendeu a Davis uma indicação de Melhor Atriz ao Oscar.

    Outra que não pode ficar de fora dessa lista é Phyllis Dietrichson, interpretada por Barbara Stanwyck em Pacto De Sangue (1944) que também foi indicada ao Oscar. Com esse pontapé, as mulheres começaram, ainda que de forma lenta e pontual, a serem mais ativas nas narrativas de terror, deixando de se restringir a personagens que só existem para morrer.

    Final girls: das conservadoras às independentes

    Em meados de 1980, surgiram as Final Girls, ou “as garotas finais”, em tradução livre, que são as personagens femininas que sobrevivem aos assassinos, algumas vezes inclusive os vencendo nos últimos minutos do longa. Elas surgiram como parte do subgênero slasher e trazem várias oposições às Scream Queens.

    Diferentemente das figuras originais e barulhentas que não têm importância para a história a não ser ter uma morte chocante, as Final Girls geralmente são centrais para a trama. São por elas que o público torce ao assistir ao filme, uma vez que ao longo da narrativa é possível criar um apego pela personagem e ver sua evolução. Em outras palavras, elas são figuras ativas que se desenvolvem e lutam para sobreviver.

    Apesar de as Final Girls serem um marco do empoderamento feminino no terror, é interessante ver que elas geralmente seguiram dois arquétipos principais: um, da virgem angelical e outro, da independente. O primeiro tipo carrega todo o conservadorismo moral de uma garota certinha e inocente como fórmula da sobrevivência, visto muito em filmes como Halloween: A Noite Do Terror (1978) com Laurie Strode, interpretada por Jamie Lee Curtis, e Sexta-feira 13 (1980) com Alice Hardy, interpretada por Adrienne King.

    No segundo, elas são mais próximas da realidade, em outras palavras, mulheres independentes com erros e acertos na sua trajetória, sendo que a primeira que aparece nas telonas com esse perfil é Sidney Prescott, interpretada por Neve Campbell, em Pânico (1996).

    Essa proximidade que o papel da heroína humana traz sem dúvida influenciou um aprofundamento dos personagens de filmes de terror femininos, que hoje não são mais resumidos a papéis de ou Scream Queens ou Final Girls. Eles vão muito mais além.

    Ambiguidade e independência nas personagens de filmes de terror femininos

    A partir de 2010, os filmes de terror ganharam uma nova roupagem, apostando em narrativas mais profundas e psicológicas do que o clássico slasher, por exemplo.

    Isso se reflete nas personagens femininas, que cada vez mais deixam de ter contornos que as limitam em papéis pré-formatados. Ao mesmo tempo, também vale lembrar que esse movimento ganha força pela onda de demandas por representatividade que são atendidas pelos estúdios como forma de agradar o público e manter as produções lucrativas.

    De qualquer forma, hoje as personagens femininas do terror dificilmente respeitam pré-requisitos. Em A Bruxa (2015), Thomasin, interpretada por Anya Taylor-Johnson, é uma profunda ambiguidade enquanto levanta questões ligadas ao ato de ser mulher - que ajuda a construir a tensão do filme. Já em Midsommar - O Mal Não Espera A Noite (2019), Dani, interpretada por Florence Pugh, tem seus traumas e sofrimentos explorados de forma aprofundada, algo que não era comum de ver em personagens femininas nos filmes - muito menos os de terror.

    Por fim, outro papel que merece destaque é para Cecilia Kass, interpretada por Elisabeth Moss, em O Homem Invisível (2020). O filme não poupa esforços de entrar fundo na vida da personagem assim como em explorar seus traumas de um relacionamento abusivo.

    Ao contrário de uma Scream Queen ou Final Girl, Kass é apresentada em toda a sua complexidade, aproximando a audiência da personagem como mais uma ferramenta a favor do terror.

    Os filmes de terror: uma história sem fim

     

    Pode-se dizer que os filmes de terror hoje têm mais status do que há alguns anos, apesar das obras sensacionais que foram feitas ao longo de sua história.

    O aprofundamento do novo terror com seu enredo e a abordagem crítica fazem com que o gênero ganhe cada vez mais espaço na academia, assim como indicações a grandes premiações do cinema. Ao mesmo tempo, o terror pelo terror também continua vivíssimo e atraindo multidões para suas estreias, mexendo com o imaginário da audiência e provavelmente lhe tirando algumas noites de sono.

    Independentemente do formato ou do status, os filmes de terror são parte essencial da história da Sétima Arte. Ao contrário do que muitos dizem, ele continua mais vivo e sangrento do que nunca e promete continuar se reinventando, surpreendendo e perturbando o público.