cineclick-logo
    botão de fechar menu do cineclick
  • FILMES
  • NOTÍCIAS
  • CRÍTICAS
  • LISTAS
  • GAMES
  • © 2010-2021 cineclick.com.br - Todos os direitos reservados

    'Eternos' prova que diversidade não deveria ser tabu

    Conversamos com especialistas sobre a importância da representatividade no novo filme da Marvel
    Por Daniel Reininger
    11/11/2021 - Atualizado há 2 dias

    Eternos pegou muita gente de surpresa por sua narrativa e ritmos bem diferentes dos habituais filmes da Marvel, entretanto o título apresenta algo que precisa ser muito celebrado: a diversidade, tanto em etnias, quanto por ter o primeiro herói gay dos cinemas. É maravilhoso ver um blockbuster com tanta representatividade, tema que não pode mais ser tratado como tabu. 

    E é inegável a importância de ter um blockbuster como Eternos tratar o assunto da diversidade com tanta naturalidade. “Os super-heróis na última década se tornaram a principal mercadoria de consumo de massas, saíram de nichos, ocuparam o lugar que os filmes de terror nos anos 90 e de fantasia nos anos 2000 ocuparam, isso são tendências da indústria cultural. Tratar a diversidade em um meio que se torna um fenômeno de massas é levar as questões para o debate público”, explica Leona Wolf, psicanalista e cientista social, especialista em direitos humanos, diversidade e violência e mestranda em economia política mundial pela UFABC.

    Outro ponto importante é a oportunidade de identificação e de reconhecimento de diferenças através do cinema. "Eternos permite que pessoas de diferentes culturas, orientações sexuais, identidades de gênero, experiências e vivências raciais e étnicas possam se perceber nas telas. Ainda que grande parte das representações tenha características estereotipadas, diferentes personagens nos permitem conhecer outras histórias", explica o professor Dr. Samilo Takara, especializado em estudos culturais e educação contemporânea.

    Diversidade nos quadrinhos

    A diversidade nos quadrinhos não é algo novo, a exemplo do Pantera Negra produzido nos anos 60. “Questões envolvendo transgeneridade e homossexualidade já estavam em Sandman e Hellblazer, mas não possuíam difusão massiva, atingia o público cult dos quadrinhos adultos e alternativos. Em 2002 a série da Mulher-Gato centrava-se nas relações entre protagonismo feminino com uma mulher-gato negra, mas na época foi polemizada. Se a mesma série aparecesse agora, entraria no debate público de outra maneira”, explica Leona.

    Os tempos mudam e as formas de ver certos conteúdos também. “Estou falando de uma conversa entre mídia e tempo, tensões que só aparecem quando as coisas estão mudando, o que faz com que reações também venham à tona”, analisa Leona.

    O assunto ainda é considerado tabu, mesmo hoje. "Porque implica na reprodução social, na naturalização de comportamentos e funções sexuais. Implica na tentativa da manutenção de um modelo ideal da família nuclear vitoriana do século XIX, mesmo que ela não exista mais", afirma Leona.

    Grupo reunido em EternosReprodução

    Importância do cinema

    É inegável o aspecto positivo de uma produção como essas abordar a representatividade de forma séria. "Quando uma produção com apropriação de massa ressalta um problema social, ele o potencializa no debate público e cria tensões que permitem o avanço de discussões na cultura e na política. Um filme é sempre político, reverbera em jornais e revistas. Muitas pessoas que nunca pensaram sobre a transgeneridade pensaram sobre o assunto assistindo a novela A Força do Querer, quando questões sobre a transmasculinidade e mesmo sobre homotransmasculinidades vieram à tona, por exemplo", esclarece Leona.

    “Além disso, se a pessoa vai aberta para assistir ao filme, ela pode se mobilizar a ver que a história ganha com a diversidade uma complexidade que também é visual, também é sonora e também é cultural. São vozes, rostos, ideias e representações que podem oferecer outras interpretações para visões que estão estanques, mas conhecem e reforçam padrões e estereótipos que são preconceituosos”, completa Samilo.

    Gemma Chan como Sersi em cena de EternosReprodução

    A discussão sempre é importante. "Mesmo filmes problemáticos como A Garota Dinamarquesa, que coloca a transexualidade próxima de uma psicose, teve o papel de trazer visibilidade ao assunto, afinal, a militância trans pode falar. A criação dessa esfera público discursiva, em si, não resolve o problema, mas de certa forma esse espaço de disputa de voz favoreceu, entre outras coisas, o reconhecimento do nome social, a retificação de documentos e mesmo a despatologização", explica Leona.

    Falar do assunto é necessário para trazer avanços sociais. "Quando não se fala de um tema ele se torna tabu, quando se fala a proibição mágica desaparece, ele se torna um tema mundano e pode assim ser discutido publicamente. O impacto da indústria cinematográfica como a estadunidense é fazer com que no mundo inteiro, milhões ou bilhões de pessoas, apoiando ou reagindo, falem sobre um tema, isso no mínimo cria essa esfera pública de debate que permite disputas e conquistas", completa Leona.

    Brian Tyree Henry é Phastos, primeiro herói gay da Marvel nos cinemasReprodução

    Luta contra o preconceito

    Intolerância ainda é um grande problema em nosso mundo e Eternos está sendo atacado por pessoas que não aceitam a diversidade. “Justamente quando se debate um tema é que é possível levá-lo para a esfera política, na busca de efetivação de reconhecimento jurídico e de políticas públicas. Só existe reação se há movimento", explica Leona.

    Um beijo entre dois homens aparecer em um filme de grande público é sinal de que algo mudou na cultura. "Não é mais um choque e essa reação de grupos que não aceitam uma sociedade mais diversa existe porque algo mudou e tende a continuar assim”, completa Leona.

    O contexto dessa reação é antigo. “Estamos no centro de uma disputa em torno de direitos sexuais. Ela vem desde os anos 60, começa com uma reação católica à revolução sexual, ganha força nas disputas jurídicas principalmente a partir da conferência internacional das mulheres em 1995 e, após 2006, assume a forma de “guerra cultural”, explica.

    A especialista explica como isso se relaciona com Eternos. "Esse conflito começa tímido na reação à 'ideologia de gênero', criado pelo conservadorismo católico para se opor aos movimentos feministas e LGBT+ e ganha o debate público na estruturação de um neoconservadorismo nos anos 2010”, contextualiza Leona.

    E o impacto dessa reação é exatamente o ataque direto, como vemos acontecer com Eternos. “Essa reorientação da direita se ancora no terreno cultural, se alimenta de preconceitos e do medo de um mundo mais diverso. Ou seja, um filme que há 30 anos seria apenas considerado como ousado, aparece agora como uma parte de guerra cultural e assim é combatido", completa Leona.

    Kumail Nanjiani como Kingo em cena de EternosReprodução

    Impacto positivo

    Eternos pode ajudar audiências de todo o mundo a repensar a diversidade. “Ao mesmo tempo que a visibilidade leva a uma normalização social, fica claro que algo está mudando. O efeito a longo prazo é que a relação heteroafetiva é normalizada, para que um dia não haja problema de um casal homoafetivo namorar no espaço público. E que uma travesti, homem trans, mulher trans ou pessoa não binária seja tratada apenas pelo que é na vida social, uma pessoa, e não um risco”, explica Leona.

    Hoje temos questões que precisam estar presentes e precisam ser discutidas. “Pessoas diferentes precisam estar em visibilidade. As críticas que estão em torno de determinadas questões como a identidade de gênero, a identidade étnico-racial ou, ainda, a uma ideia de representação fidedigna, parece acobertar um olhar de querer ser sempre o mesmo discurso, com os mesmos rostos e com as mesmas vozes. Não sei se o filme tem o poder de mudar a leitura de algumas pessoas sobre o contexto que vivemos. Entendo que ter diferentes representações, ajuda a termos outras possibilidades de conhecer e de aprender com as personagens e se envolver mais para conhecer outras perspectivas”, comenta Samilo.

    É preciso conhecer o outro lado para se ter empatia. "Gostaria que as pessoas percebessem que o problema está no desejo de certos grupos em manter o mais do mesmo em funcionamento. A obra representa outras pessoas e diferentes possibilidades e isso incomoda, por isso algumas pessoas detestam o filme. É um momento para se divertir e relaxar ao assistir um filme de heróis e heroínas, mas é também uma ótima oportunidade para pensar: será que eu já vi uma pessoa como essa no cinema? Se eu não vi ainda, será que eu não preciso assistir outras coisas? Conhecer outras histórias? Talvez Eternos ajude as pessoas a terem outros pontos de vista. E, quem sabe assim, se permitirem conhecerem outras possibilidades", finaliza Samilo.

    É importante termos a representação positiva, de famílias que acolhem, de relacionamentos que terminem bem. "Tivemos outros filmes de grande público sobre a temática LGBT+, a diferença é que Eternos não é um filme sobre LGBT+, mas um filme com LGBT+, onde eles ocupam a mesma posição das pessoas hétero e cis e isso é importante. Porque é normal, comum e não é um problema. Ser LGBT+ ainda é uma questão social, mas nem todas as histórias são trágicas, como vemos em filmes como Brokeback Mountain, focar nesse tema é algo paralisante. As novas representações possuem um olhar mais positivo, como no caso do novo Superman", explica Leona.

    Salma Hayek em cena de EternosReprodução

    Marvel sempre esteve à frente do tema

    Eternos é o primeiro filme com tanto foco na representatividade, mas a Marvel já trata do assunto há muito tempo em suas páginas. “Estamos falando da Marvel, devemos lembrar que os X-Men são uma metáfora criada pela Marvel contra o Macarthismo, o senador Kelly é uma referência ao conservador senador McCarthy", explica.

    X-Men é conhecido por seu forte apelo social. "A trama trata de apontar um sistema que prende, caça e pune minorias. Trata o diferente como aberração a ser eliminada pelo 'bem da sociedade' ou da 'família'. Há uma lista de super-heróis LGBT+, esperamos que eles cheguem às telas ou as telas mostrem sua sexualidade, o próprio  Deadpool, Estrela Polar, Homem de Gelo, Irmã GrimmLucy in the Sky, Miss America, Míssil, Shade, Mística, Sera, Koi Boy e mesmo a Loki gênero fluido”, finaliza Leona.

    Arte dos X-Men dos anos 90Reprodução

    Eternos

    Eternos acompanha seres ancestrais que vivem na Terra em segredo por milhares de anos e protegem a humanidade contra os Deviantes.

    Com a volta da população humana após o estalo do Hulk, energia suficiente foi gerada para começar um evento catastrófico conhecido como Despertar, que destruírá a Terra.

    O elenco do filme conta com Richard Madden (Ikaris), Kumail Nanjiani (Kingo), Lauren Ridloff (Makkari), Brian Tyree Henry (Phastos), Salma Hayek (Ajak), Lia Mchugh (Sprite), Angelina Jolie (Thena), Barry Keoghan (Druig) e Gemma Chan (Sersi).

    Eternos está nos cinemas brasileiros.

    Veja mais