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    Adaptações para o cinema: como a arte deve extrapolar o formato

    Por que a arte deve extrapolar o formato
    Por Da Redação
    28/09/2020 - Atualizado há 20 dias

    Desde seu início, as adaptações sempre estiveram presentes no Cinema. A adaptação de uma obra artística implica em adequá-la para uma nova mídia e para publicação e divulgação junto a um público diferente da original.

    A primeira adaptação de que se tem registro na história do cinema é "Arrosage public", uma HQ muda, de humor simples, ilustrada por Uzès (pseudônimo de Achille Lemot), e publicada na revista Le Chat Noir #182, em 4 de julho de 1885.

    A HQ tem uma premissa bastante simples e se baseia no humor pastelão para construir o chiste de forma completamente visual.

    A história é assim: um homem usa uma mangueira para limpar a rua, até que um menino bloqueia a mangueira. Quando o sujeito corre atrás do menino, a mangueira volta a ganhar pressão e encharca um vendedor numa loja.

    Parece estranho e até simplório demais para os leitores de hoje, mas essa ideia fez sucesso à época e foi copiada por diversos cartunistas e ilustradores na França e na Alemanha.

    Além disso, acabou adaptada para o cinema em três curta-metragens: "L'Arroseur", de Georges Meliès (1896); "L'Arroseur arrosé", de Alice Guy (1897); e "The Bitter Bit", de James Bamforth (1900).

    E, já então, os desafios do gênero eram evidentes - como a necessidade de redefinir seu formato, acrescentar ou remover informações e, efetivamente, adaptar a ideia para uma linguagem nova.

    E algumas das principais fontes de adaptação do Cinema nos mostram justamente isso.

    Intertextualidade: as adaptações literárias e o desafio da linguagem cinematográfica

    Há uma infinidade de abordagens possíveis - por meio de novas mídias, gêneros e suportes - de obras canônicas da literatura.

    As adaptações literárias, porém, dividem seus espectadores. De um lado, temos aqueles que acreditam que o Cinema "corrompe" as obras originais e que "o livro é sempre melhor que o filme". Do outro, aqueles que defendem as apropriações tomadas pelo cinema sobre as artes que lhe precedem.

    Por outro lado, há quem encare de forma positiva o exercício criativo que o Cinema faz para adaptar outros gêneros com as possibilidades estéticas e de criação que lhe são características.

    Nesse sentido, a "fidelidade" da adaptação é menos importante do que a reformulação da ideia, que será trabalhada em um novo formato.

    Exemplos clássicos desses tipos de adaptações são:

    Moby Dick (1956), de John Huston. Baseado no clássico da literatura universal de Herman Melville, publicado originalmente em 1851, o filme é centrado no capitão Ahab, que foi ferido por uma baleia branca. Com uma profunda sede de vingança, ele viaja pelos sete mares à procura do animal.

    Alice no País das Maravilhas, obra de Lewis Carroll, publicada em 1865, é uma das histórias mais consagradas do surrealismo e continua intrigando o público até hoje. 

    Ela conta a história de Alice, que, certo dia, se depara com um coelho apressado e persegue-o até cair em um buraco, que a transporta para um lugar fantástico e onírico.

    O clássico, naturalmente, já foi adaptado várias vezes para o cinema. A primeira delas foi em 1903 - um curta-metragem para o cinema mudo. 

    A mais recente é Alice No País Das Maravilhas (2010), produzida pela Disney e que conta com os atores Mia Wasikowska e Johnny Depp.

    Outro exemplo é Laranja Mecânica, dirigido por Stanley Kubrick, uma das obras mais marcantes da história do Cinema, e filme que não pode faltar na lista de qualquer cinéfilo. 

    Ele é uma adaptação do livro homônimo do autor Anthony Burgess, lançado em 1962, que conta a história de Alex e sua gangue, que espalham o caos em uma Inglaterra futurista marcada pela violência.

    Imagem e expressão: a era dos quadrinhos nas adaptações

    Um movimento um pouco mais à frente, o dos quadrinhos, mudou a forma como interpretar um texto e uma história - principalmente com o conceito de ilustração e das expressões exageradas dos personagens.

    O material base agora é menos abstrato: temos o registro visual da história contada. E o cinema usa esse recurso a seu favor na hora de adaptar mais uma forma de expressão.

    Felizmente, Flash Gordon, Buck Rogers, Mandrake e Fantasma, entre outros personagens, não demoraram muito para chegarem às telonas.Em seguida, um sub gênero de super-heróis que viraram ícones da cultura pop surgiu, como Batman, Capitão América e Superman.O pioneiro, que elevou o padrão de excelência contra o qual outras produções competiram durante várias décadas, foi “Superman - O Filme”, de 1978.  Após esse sucesso, muitas outras adaptações de HQs surgiram nos cinemas, como: Flash Gordon (1980), "Monstro do Pântano" (1982), Supergirl (1984), Conan, O Bárbaro (1982) e Conan, O Destruidor (1984); Howard: O Super-herói (1986), Justiceiro (1989), "As Tartarugas Ninja" (1990), Rocketeer (1991), O Corvo - 1994, O Sombra (1994), O Máskara (1994), "Juiz Dredd" (1995), "Barb Wire" (1996), O Fantasma (1996), Spawn, O Soldado Do Inferno (1997), "Aço" (1997), e muitas outras.

    O filme que oficialmente deu continuidade à era moderna das adaptações, de acordo com os críticos, é “Blade - Caçador de Vampiros'', de 1998. Foi após o sucesso da obra que o gênero se consolidou, tornando esse tipo de filme um dos queridinhos de Hollywood. 

    O primeiro grande fenômeno veio em 2002, com Homem-aranha, depois de uma década de brigas judiciais da Sony para levar o herói à tela grande. O filme foi um estouro e rendeu mais duas sequências.

    Em 2008, lançou o divisor de águas Homem De Ferro - e acertou na mosca: Robert Downey Jr. seria o protagonista. Poucas vezes, intérprete e personagem casaram de forma tão perfeita. "Homem de Ferro" foi um sucesso, fortaleceu a marca e foi a deixa para a Marvel começar seu universo compartilhado, conhecido como MCU (Marvel Cinematic Universe). A ideia é que os heróis habitam o mesmo mundo e, eventualmente, cruzam os caminhos.

    Surgiram então filmes como O Incrível Hulk (2008); Homem De Ferro 2 (2010); Thor (2011) e Capitão América: O Primeiro Vingador (2011), que desaguaram no antológico Os Vingadores - The Avengers (2012).

    O sucesso de "Vingadores", junto à Disney, nova proprietária, abriu caminhos nunca antes trilhados para a Casa das Ideias. Veio Homem De Ferro 3 (2013), Thor: O Mundo Sombrio (2013) e Capitão América: O Soldado Invernal (2014) - todos foram além das bilheterias de seus antecessores.

    Os US$ 780 milhões faturados pelos desconhecidos Guardiões Da Galáxia (2014) e o inesperado Homem-formiga (2015) provaram a força da marca. A essa altura, a Marvel já havia estabelecido uma rede intrincada de filmes e personagens, que funcionavam de maneira independente, mas complementar entre si.

    A partir daí, veio só porrada: Vingadores: Era De Ultron (2015); Capitão América: Guerra Civil (2016); Doutor Estranho (2016); Guardiões Da Galáxia Vol. 2 (2017); Homem-aranha: De Volta Ao Lar (2017); Thor: Ragnarok (2017); Pantera Negra (2018); Vingadores: Guerra Infinita (2018); Homem-formiga E A Vespa (2018); Capitã Marvel (2019); Vingadores - Ultimato (2019); e Homem-aranha: Longe De Casa (2019).

    A DC também resolveu investir em seu próprio universo de filmes de super-heróis, mas a competição já estava desnivelada: lançou "Homem de Aço" (2013); Batman Vs Superman: A Origem Da Justiça (2016); Esquadrão Suicida (2016); Mulher-maravilha (2017); Liga Da Justiça (2017); Aquaman (2018): Shazam! (2019); e Aves De Rapina - Arlequina E Sua Emancipação Fantabulosa (2020).

    Todos eles eram adaptações de quadrinhos, repaginados para serem acessados por um novo público.

    Quer conhecer mais sobre a história dos super-heróis nas telonas? Não deixe de conferir nosso artigo sobre a evolução do gênero.

    Novas manifestações: repaginação das animações da Disney e a interatividade dos videogames

    A "era de ouro das animações" da Disney começou ali no final dos anos 1980, quando A Pequena Sereia (1989) foi lançada e rapidamente virou um fenômeno global. Depois, vieram A Bela E A Fera (1991) e Aladdin (1992).

    O Rei Leão, em 1994, por fim, viria para canonizar o gênero. Essas animações fizeram a Disney se reencontrar e se modernizar após um longo período de produções que não faziam sucesso.

    30 anos depois, a bola da vez é uma metalinguagem dessas produções. Uma repaginação dos clássicos, com ares modernos e que apelam para a nostalgia de quem cresceu acompanhando essas animações - tudo com muita tecnologia.

    Nesse contexto, muito se fala sobre um movimento de "live actions", mas nem todas as adaptações se encaixam nessa terminologia.

    Na verdade, live action é a definição usada para filmes nos quais os personagens são vividos por atores reais. Eles podem ser filmados em conjunto com animações 2D ou por produções computadorizadas, usando a tecnologia CGI, mas mesmo os filmes que não usam esses recursos são chamados live action.

    Logo, no caso da Disney, algumas adaptações - como Aladdin (2019) e Mulan (2020) - se encaixam nessa definição. Outras, como O Rei Leão (2019) são apenas animações mais realistas.

    De todo modo, a adaptação de animações para live action é um formato que já foi muito explorado pelo cinema - mas sempre controverso. Os games, por exemplo, viram muitas adaptações polêmicas ganharem as telonas.

    Super Mario Bros (1993) é oficialmente a primeira adaptação de um videogame para o cinema, e a escolha foi merecida, já que o jogo sobre o encanador italiano que faz de tudo é um dos videogames mais queridos e famosos de todos os tempos.

    O personagem Mario surgiu, na verdade, no jogo "Donkey Kong", mas ganhou seu game solo em 1983. Dez anos depois, chegava aos cinemas a versão em live action, e o estúdio apostou forte no filme, lançando a produção no meio do competitivo verão norte-americano.

    O problema é que o filme pouco tinha do jogo, optando por uma atmosfera sombria, deprimente e apocalíptica, ao contrário do colorido e bem-humorado game.

    Nem mesmo a performance alucinada de Dennis Hopper como o vilão conseguiu salvar o filme.

    Depois disso, apareceram filmes dos mais diversos, como: Street Fighter - A Última Batalha (1994); Double Dragon (1994); Mortal Kombat e Mortal Kombat- O Desafio (1995 e 1997); Wing Commander - A Batalha Final(1999); Lara Croft: Tomb Raider e Lara Croft Tomb Raider: A Origem Da Vida (2001 e 2003); "Resident Evil" (2002, 2004, 2007, 2008, 2010, 2012, 2017); Doom - A Porta Do Inferno (2005); "Silent Hill" (2006); Hitman - Assassino 47 (2007); Max Payne (2008); Tekken (2009); Need For Speed (2014); Warcraft - O Primeiro Encontro De Dois Mundos (2016); Assassin's Creed (2016); Pokémon: Detetive Pikachu (2019); e Sonic - O Filme (2020).

    Alguns foram altamente criticados, outros foram prestigiados por público e crítica. Todos, porém, representam um passo ousado pela expansão desse segmento.

    A arte deve extrapolar o formato!

    A arte, seja ela cinematográfica, literária, cartunesca ou audiovisual, em sua essência, tenta aproximar o espectador da história contada, para que ele não apenas observe a vida que essas artes apresentam, mas também possa adentrá-la, efetivamente.

    Por isso, mais do que a suspensão da descrença, é preciso suspender o apego a um formato específico. Representar fielmente uma obra em outro meio é impossível e até mesmo o conceito de se manter o "espírito" é considerado algo subjetivo e abstrato.

    Seria impossível fazer um filme exatamente igual à obra, porque ninguém pode dizer o que a obra é.

    Todos nós, inclusive o autor que se transforma em leitor, temos da obra nossa leitura tirada dela, e não uma verdade incontestável e absoluta.

    A arte deve extrapolar o formato. E devemos celebrar isso.