Adaptações para o cinema: Como a mudança de mídia afeta o filme

09/04/2015 17h38

Por mais que sejam diferentes, literatura e cinema possuem um relacionamento estreito que, em alguns casos, é difícil afirmar onde um começa e o outro termina. Esta relação vem desde a criação da sétima arte, mesmo período em que o francês George Méliès, então pioneiro em fazer cinema, se inspirou na obra de Julio Verne para filmar o seu Viagem à Lua, de 1902.

Mas nem sempre esse caso de amor foi tão romântico. Até hoje, o cinema recebe inúmeras críticas de produzir adaptações superficiais, de não compreender o verdadeiro sentido da obra original e, muitas vezes, é acusado de desvirtuar a literatura por fazer grandes alterações.

Mas afinal de contas, como a mudança de mídia afeta o filme? Essa imigração é boa ou ruim para a obra literária? Essas são questões difíceis de responder, principalmente por não se tratarem de uma ciência lógica. No entanto, por mais que a adaptação tenha alterações, acredito que a iniciativa de ir para o cinema é sempre benéfica, pois estamos falando de uma plataforma que atrai muita visibilidade e mídia, o que deixa os livros ou histórias em quadrinhos ainda mais em evidência.

Kingsman: Serviço Secreto

Em 2015, estreou no mês de março Kingsman - Serviço Secreto, que adapta a HQ homônima de Mark Millar. Na história original, o Agente London recruta seu sobrinho rebelde, Gary, para uma organização de agentes secretos. Enquanto o rapaz passa por uma série de testes, o experiente espião precisa investigar sobre os desaparecimentos de algumas celebridades, como Mark Hamill, William Shatner, entre outros.

Para dar mais ênfase a trama, o diretor Matthew Vaughn fez consideráveis mudanças e trouxe coisas novas na hora de passar a obra para a telona. Neste caso, Colin Firth vive Harry Hart, um agente que vê no jovem Eggsy (Taron Egerton), um rapaz do subúrbio de Londres que é filho de um ex-colega, grande potencial para se tornar uma espécie de James Bond. Enquanto o rapaz faz as provas iniciais, Galahad (codinome de Hart) investiga o vilão Richimond Valentine (Samuel L. Jackson).

Kingsman

 

Apesar de o enredo do longa ser basicamente o mesmo da HQ, os personagens principais, por exemplo, tiveram seus nomes trocados. Na película, cada agente tem um codinome relacionado a um cavaleiro da Távola Redonda, como Lancelot, Percival, Merlim e Arthur.

Outra grande diferença é o vilão. Se analisarmos ao pé da letra, Samuel L. Jackson teria que interpretar o capanga Gazelle, pois no original ele é descrito como um negro careca que tem as duas pernas amputadas. Não é o que acontece no longa. Além do ator do Nick Fury viver o principal vilão, o tal capanga é uma mulher, vivida por Sofia Boutella.

Mesmo com essas mudanças, o filme não teve sua lógica e dinâmica comprometida. Pelo contrário, elas trouxeram ainda mais força para a mensagem e universo criado por Mark Millar. Sem dúvida, ele deve estar pulando de alegria com o resultado do longa, pois as alterações não comprometeram a essência da história e, com certeza, serviu para atrair novos leitores para a sua obra. Só nos Estados Unidos, o filme já acumulou mais de US$ 122, 3 milhões em bilheteria.

Cinema X Literatura

Muitas vezes, certas mudanças são necessárias na hora de transformar um livro ou uma HQ em filme, pois estamos falando de mídias diferentes, que trabalham com elementos distintos. Em diversas oportunidades, os elementos do cinema não batem com o do livro e daí vem a necessidade da mudança.

No livro Mary Poppins, escrito pela australiana Pamela Travers em 1934, em nenhum momento diz que a babá e as crianças vão parar em um mundo de desenho animado para dançar com pinguins. Essa, aliás, é uma das passagens mais clássicas do filme de 1964, estrelado por Julie Andrews.

Walt nos bastidores de Mary Poppins

 

O curioso é que essa sequência foi causa de uma das maiores discussões que a autora teve com Walt Disney durante a produção do longa (ver Walt Nos Bastidores De Mary Poppins). A escritora não era fã de animações e exigiu que o filme fosse inteiramente feito com atores reais. No entanto, colocar os bichinhos de forma animada foi a saída mais lógica que o dono do estúdio viu para poder, justamente, reforçar de forma apropriada a mensagem que a escritora diz em sua obra.

Outro caso parecido aconteceu com Cinquenta Tons De Cinza. Mesmo sendo alvo de críticas de muitos fãs por não conter as sequências mais picantes entre Anastasia Steele (Dakota Johnson) e Christian Grey (Jamie Dornan), o longa é um sucesso de bilheteria. Nos Estados Unidos já faturou US$ 165,6 milhões. Além disso, o tema proposto pelo livro foi muito comentado no período do lançamento do filme, muito por causa da curiosidade das pessoas em ver todo o erotismo retratado pela autora E.L. James.

50 Tons de Cinza

 

O fato é que mesmo não sendo tão fiel, de acordo com os fãs, o filme foi um dos assuntos mais falados na época da estreia. O fato é que as mudanças realizadas pela diretora Sam Taylor-johnson até fazem sentido, se levarmos em conta a abrangência do público e a dinâmica de um longa-metragem.

Alterar algo que os fãs tem identificação nunca é fácil, mas quando é para fazer um filme é necessário, justamente por trabalhar com imagem, música e todo um esquema de edição complexo e detalhado. Por mais que E.L. James não tenha concordado com algumas coisas, ela não tem do que reclamar, afinal de contas, o longa não afeta no interesse das pessoas em sua obra, tanto é que a trilogia em questão ainda é bastante comentada e lida no mundo inteiro.

O debate é longo e não tem hora para acabar, assim como os exemplos de adaptações que sofreram alterações para ir bem no cinema. Tem O Senhor Dos Anéis, A Culpa É Das Estrelas, A Série Divergente, Jogos Vorazes, Harry Potter e tantos outros. De maneira geral, é inegável que sempre mudanças vão acontecer nestes casos. E elas são importantes para a obra fazerem sentido na tela. No entanto, isso não quer dizer que elas devem ser feitas de qualquer jeito. De jeito nenhum. Tudo tem que ser discutido e cuidadoso, pois a essência e a mensagem da obra original não pode ser alterada. O legal disso tudo é que esse assunto sempre gera boas discussões.


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