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    Quando o cinema vai parar de estereotipar personagens LGBTQIA+?

    No Mês do Orgulho, analisamos como o cinema ainda perpetua estereótipos e tragédias nas telas
    Por Thamires Viana
    17/05/2021 - Atualizado há 5 meses

    O 17 de maio é marcado como o Dia Internacional da Luta contra a LGBTfobia, data lembrada desde 1990 quando a homossexualidade deixou de ser considerada uma doença pela Organização Mundial da Saúde (OMS). No entanto, ainda há um caminho longo para que ela possa, de fato, ser celebrada com tranquilidade.

    Foi só em 2019 que o Brasil passou a criminalizar a homofobia e a transfobia, tornando-se o 43º país a realizar o feito. Ao mesmo tempo, este ainda é o país que mais mata transexuais no mundo, segundo dados da Trans Murder Monitoring.

    No cinema, os personagens homossexuais sempre foram retratados com uma extensa carga de estereótipos, tornando-se alvo de chacotas e muito preconceito. Além disso, muitas vezes eles chegam às telas como vítimas de grandes tragédias, quase como se não pudessem ser retratados como pessoas orgulhosas e felizes de ser quem são. 

    O início

    Se engana quem pensa que a homossexualidade passou a ser retratada no cinema somente no século XXI com as produções chegando às telas de maneira cada vez mais frequente. Foi ainda no século XIX, mais precisamente em 1895, que William Kennedy Dickson trouxe seu filme experimental The Gay Brothers, que consistia em dois homens dançando juntos ao som de um violino. Embora não haja evidências claras que ele pretendia retratar um casal gay, o vídeo de 18 segundos passou a ser considerado um dos primeiros exemplos de pessoas do mesmo sexo no cinema. 

    Já no século XX, em 1919, foi lançado Diferente dos Outros, o primeiro filme a retratar a homossexualidade de maneira direta no cinema. Produzido na Alemanha por Richard Oswald em parceria com o sexólogo e psiquiatra dr. Magnus Hirschfeld, o longa foi recebido com críticas hostis, mas muito de sua trama contou com um olhar amplo em relação ao assunto.

    Oswald era conhecido por trazer produções didáticas às telas, o que não foi diferente com Diferente dos Outros. Abordando a história de um violinista que se apaixona por um aluno, o drama usou a ficção para conscientizar o público ganhando até ares documentais em seu decorrer. 

    Cena do filme alemão Diferente dos Outros (1919)Reprodução

    O filme mudo Asas, de William A. Wellman e  Harry d'Abbadie d'Arrast, se tornou um dos mais marcantes da Sétima Arte por trazer o primeiro beijo entre dois homens, e também por se tornar o primeiro longa da história a ganhar o Oscar de Melhor Filme, em 1929. 

    A abordagem sensível dos diretores chegou em uma época em que o cinema expandia com mais veemência suas abordagens artísticas e inseria, delicadamente, temáticas contraditórias àquelas aceitáveis na sociedade. Por isso, os personagens Jack e David não foram, de fato, inseridos como um casal gay no filme e, sim, como dois grandes amigos íntimos. Dessa forma, o amor de ambos permaneceu em uma linha tênue que somente os olhos mais atentos poderiam enxergar.

    Estereótipos e preconceitos

    Com o passar do tempo, a temática foi ganhando mais espaço (menos do que deveria, fato) nas telonas, mas ainda se caracterizava pela maneira estereotipada e repetitiva que era abordada, além da completa invisibilidade de lésbicas, trans e bissexuais. 

    O personagem gay passou a ser inserido em diversas produções audiovisuais com o objetivo de gerar risadas. Escandalosos, caricatos e, muitas vezes, carregados de trejeitos afeminados, eles viraram elementos indispensáveis em tramas de humor, o que acabou se tornando total ridicularização. 

    Um exemplo muito claro é Crô, que ganhou dois filmes após ser apresentado na novela Fina Estampa, em 2011. Interpretado pelo ator Marcelo Serrado, o personagem representava tudo aquilo que muitos homens e meninos gays lutam contra. Com zero profundidade, ele chegou à trama como um assistente da madame vivida por Christiane Torloni e era ofendido o tempo todo por ela, trazendo infinitas risadas ao público pela forma como era tratado. 

    Ao mesmo tempo, o cinema raramente aborda casais lésbicos de maneira saudável e não fetichizada. Quando chegou às telonas em 2013, Azul é a Cor Mais Quente, adaptação da HQ de Julie Maroh, causou um buzz no público. Um filme que prometia ser realista na abordagem do romance entre duas mulheres, assim como o livro, parecia algo a se admirar e muito! No entanto, o diretor Abdellatif Kechiche desrespeitou completamente o romance original e, ainda por cima, fetichizou a relação inserindo longas cenas de sexo explícito entre as personagens Adèle e Emma. 

    Não bastasse isso, as atrizes Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux ainda vieram a público revelar os abusos ocorridos nos bastidores quando elas tiveram que gravar infinitas vezes as cenas propostas por ele. 

    Cena do filme Azul é a Cor Mais Quente (2013)Reprodução

    A "evolução" que ainda precisa evoluir

    Embora o cinema já venha a curtos passos criando evolução para a temática LGBTQIA+, ainda é preciso muito para se chegar ao ideal. Em 2017 uma ponta de esperança apontou com a vitória de Moonlight: Sob a Luz do Luar no Oscar, da mesma forma que filmes respeitosos sobre o tema já venham se posicionando mais fielmente ao que é ser gay, lésbica, transsexual, bissexual, entre outros.

    No entanto, como citado acima, as abordagens trágicas e infelizes precisam dar espaço aos finais felizes e representações mais vívidas dessa comunidade. É claro que introduzir o assunto pelo seu viés crítico tem como objetivo conscientizar as pessoas contra o preconceito, mas bater na mesma tecla passou a ser frequente, principalmente em Hollywood.

    Ainda são poucos os filmes em que um casal homoafetivo, por exemplo, vive uma vida feliz. É fato que essa felicidade em sua total plenitude não é a realidade em uma sociedade extremamente preconceituosa, mas por que não usar a ficção para também relatar esse orgulho? 

    É por esse ponto que a representatividade no cinema precisa ampliar seus olhares cada vez mais. Como já disse acima, o viés crítico tem um papel fundamental no combate à LGBTfobia, assim como em todos os outros preconceitos, mas também é uma forma de retratar apenas o que se passa "do lado de fora" da comunidade LGBTQIA+.

    Nós queremos ver mais filmes de Natal como Alguém Avisa? (2020), mais romances água com açúcar como Com Amor, Simon (2018), mais transsexuais representadas com criatividade como em Alice Júnior (2019), mais histórias bonitas de descobertas como em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014)...

    A temática LGBTQIA+ não precisa de mais dor nos cinemas. As famílias que rejeitam, os homofóbicos, os amores que não podem ser expostos, a discriminação, isso, infelizmente, acontece na vida real e a luta ainda continua grande para que se acabe de uma vez por todas. Então, se o cinema tem a liberdade de criar o que ele quiser, por que não usar essa oportunidade para deixar essas relações cada vez mais naturais e coloridas nas telonas sem utilizar de estereótipos e lágrimas? 

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