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    Análise: Premiações, Shia LaBeouf, e o quão ridículo é ser "ator"

    Em época de tapete vermelho, vale mais relembrar o discurso de Jerry Seinfeld
    Por Cristina Tavelin
    11/03/2014

    Passada a época do Oscar e de outras grandes premiações do cinema, talvez seja a hora de refletir sobre as sombras logo abaixo dos holofotes e tão longe de nosso nariz.

    Entra ano sai ano, celebridades continuam a circular com sorrisos amarelos pelo tapete vermelho. Se, em 2013, Jennifer Lawrence estava em foco, hoje Lupita Nyong'o se sobressai - e não importa quem seja, aqui conta a ideia da imagem, não do indivíduo.

    Porém, este ano, Shia LaBeouf chamou a atenção no Festival de Berlim. O ex-Transformers e recém cult Jerome de Ninfomaníaca deixou abruptamente a coletiva de imprensa do longa lançando mão da seguinte frase do ex-jogador francês Eric Cantona: "Quando as gaivotas seguem a traineira é porque elas acham que as sardinhas serão jogadas no mar".

    Quem assistiu à saga dramática de Joe não deixará de lembrar das tantas metáforas de caça x caçador nas quais esse discurso até poderia se encaixar. Mas a questão é que ninguém se daria ao trabalho de pensar nisso, porque a norma sugere ficar histérico frente a qualquer reação fora dos padrões e sair falando sobre o assunto sem ter nada a dizer. A imprensa pira.

    Lars von Trier

    Depois, o ator foi ao tapete vermelho com um saco de papel na cabeça no qual estava escrito "eu não sou mais famoso". LaBeouf, de fato, pode estar passando por uma crise de estrelismo. Nasceu e cresceu no meio do entretenimento, caminho fácil para ficar transtornado - vide o exemplo de Christian Bale e seus eternos atritos com a família.

    Alguns atores saíram em sua defesa, como James Franco em um ótimo artigo para o The New York Times, no qual diz acreditar que tudo não passa de uma ação planejada, inclusive porque LaBeouf já fez uma performance chamada #IAmSorry na qual fica sentado frente a visitantes numa galeria de Los Angeles usando um saco de papel cabeça.

    Franco vê nas recentes atitudes do jovem ator - plagiar um roteiro, pedir desculpas por meio do twitter plagiando outro tweet, etc., etc. - uma tentativa de arrancar essa máscara colada ao seu rosto pela indústria do entretenimento e pelo próprio comodismo de ser celebridade. Totalmente justificável, tendo peso como discurso artístico ou não.

    Mas, do nosso lado de pobres mortais, é espantoso notar a falta de humor, de espírito, de irreverência. Afinal, a arte (ou a ideia dela) não seria exatamente a quebra de protocolo? Qual o problema de um ator - especialista na arte de interpretar - fazer de si mesmo algo diferente numa premiação?

    Fato é que está cada dia mais comum ver essa postura de ator-celebridade fora dos muros de Hollywood. Até nos meios antes alternativos essa figura padronizada circula com um sorriso estampado na cara e acena para a imprensa querendo preservar sua incrível imagem a qualquer custo. 

    Não seria essa a verdadeira performance "bizarra"?

    É de se espantar que os Tom Cruises da vida sirvam de referência e qualquer exceção à regra seja vista como inconveniente. Sem admitir a existência da arte fora dos seus limites, da sua mediação, a indústria do cinema exige determinadas atitudes e se vê estarrecida diante da diversidade estampada em LaBeouf e Lars von Trier - a eterna persona non grata de Cannes.

    Não há a menor tentativa de entender o que foge ao lugar-comum e esse é o perigo, essa é a estagnação. O problema não são eles - o que fazem ou deixam de fazer -, somos nós. 

    Toda publicidade em torno de Ninfomaníaca foi desenvolvida de forma a enganar o espectador, a fazê-lo acreditar num filme de pornografia pesada. Uma armadilha questionadora feita com as próprias ferramentas de um sistema que prevê nossa reação tão óbvia.

    Sorte que ainda existam personas não gratas para questionar toda essa mise en scène, como o ótimo Jerry Seinfeld ao receber um prêmio na HBO: "Todo o sentimento neste espaço de reverência e honra é exatamente o oposto de tudo o que desejei para a minha vida. Realmente não queria estar aqui em cima. Queria estar lá atrás dizendo algo engraçado sobre o quão estúpido é tudo isso".

     

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