BRASÍLIA 2010: Angeli 24 Horas e Transeunte usam o som para construir personagens

26/11/2010 12h10

Depois de um primeiro dia morno tanto pelos curtas-metragens como pelo longa, as produções de quinta-feira (25/11) deram um ânimo a mais na Mostra Competitiva do Festival de Brasília. Duas delas usam o som como ferramenta fundamental da escrita cinematográfica.

Angeli 24 Horas, curta-metragem documental de Beth Formaggini (Nós Somos Um Poema), tenta decifrar quais elementos do universo do cartunista Angeli fazem com que seus desenhos sejam o que são. Do outro lado, o longa-metragem de ficção Transeunte, de Eryk Rocha (Pachamama), conhece o mundo de seu protagonista, Expedito, e tem o zelo de apresentá-lo carinhosamente para nós.

Já tivemos um ótimo filme que se aproximou o universo de Angeli por meio de uma personagem sua com a animação Dossiê Rê Borbodosa. Ou seja, com um filme de qualidade já feito sobre a mesma pessoa, como realizar um outro com olhar fresco? Angeli 24 Horas responde com uma característica do cartunista: a necessidade de não se acomodar.

E aí vem o ponto mais interessante desse documentário exibido aqui no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro: para um personagem que entende o conforto artístico como acomodação paralisante, a trilha rock barra pesada propõe o desconforto, uma música alucinante que deliberadamente incomoda. Uma saída interessante para uma pessoa que, de certa maneira, é tão presente no imaginário artístico e já teve seu trabalho ressaltado em outro filme.

O que o desenho sonoro pode fazer?



Transeunte responde muito bem a essa inquietação. Expedito (Fernando Bezerra, em ótima interpretação) é um senhor aposentado desconectado de si mesmo. Anda pelas ruas do Rio de Janeiro, mas parece um coadjuvante de sua própria existência. Não é o tipo esquizofrênico que o cinema já retratou, que fala sozinho e tem uma aproximação dissonante com o mundo.

Expedito está cansado e em algum ponto de seu passado perdeu o brilho nos olhos para tomar as rédeas de sua vida. Um enredo que já frequentou alguns bons filmes, mas talvez não tenha sido enxergado por meio do ouvido.

Na tela, está um filme de imagens lindas, em preto e branco, com o granulado típico do 16mm. Porém, a intermediação entre Expedito e o mundo é feita pelo som, cujo desenho é de Edson Secco. O barulho da obra em frente a seu apartamento, o rádio de pilha que narra o jogo do Flamengo, as conversas dos casais nos bares, a seresta escutada numa ruela da Lapa são os sons que o chamam para o mundo.

Transeunte demora para engrenar, mas, quando o faz, transforma-se em um filme envolvente e acolhedor, acompanhando o movimento de seu personagem do isolamento (de si e do mundo) para o contado (com ele mesmo e com o outro). Isso se dá com o som sendo colocado em pé de igualdade de importância da imagem. Bonito de se ver e interessante de se ouvir.

Natureza

Dos filmes que entraram em cartaz neste ano, O Sol do Meio Dia é um exemplo de criativo trabalho de desenho de som. Muito do filme se passa com os personagens em contato com a natureza, seja no rio ou no mato. O trabalho de som de Beto Ferraz constroi uma ambientação perfeita para que os personagens transitem e se expressem. O som do ambiente é extensão de seus sentimentos.

Criativo, mas de proposta diferente de Transeunte, cujo som é fundamental para entendermos Expedito. Se não fosse dessa maneira, teríamos um personagem inteiramente descaracterizado.

Assim como em Leituras Cariocas, curta-metragem documental que se passa dentro do metrô do Rio de Janeiro. A imagem mostra passageiros compenetrados e em silêncio, mas temos a narração dessas pessoas lendo o que está nas páginas de seus livros. Sem isso, simplesmente não teríamos um filme.

Ou seja, o som é o aspecto mais encantador de Transeunte: mesmo com uma imagem bonita, o filme seria outra coisa se a via de contato de Expedito com o mundo não fosse fundamentalmente auditiva.

*Heitor Augusto viajou a convite da organização do evento.


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