BRASÍLIA 2010: Cheias de boas intenções, produções mineiras buscam novas estéticas

28/11/2010 13h48


















A curadoria deste 43º Festival de Brasília tem sido ousada. Optou por privilegiar filmes de jovens diretores, com tocada mais experimentalista. Mais ou menos como acontece também com a Mostra de Tiradentes, em Minas Gerais. Ao descartar o convencional, Brasília se mantém fiel às suas propostas e às suas raízes fincadas há mais de quatro décadas por Paulo Emílio Salles Gomes, um dos fundadores do evento, profissional sempre inquieto e sintonizado com as novas tendências.

Para o público em geral, porém, a opção muitas vezes é estafante, já que os filmes em competição passam longe do mero entretenimento, buscando a inquietação e a perturbação. Como toda vanguarda, os filmes deste Festival também estão sujeitos a erros gigantescos, risco inerente a quem ousa.

Na noite da última sexta-feira (26/11), por exemplo, o diretor mineiro Tiago Mata Machado subiu ao palco do Festival para apresentar seu filme Os Residentes. Com uma certa dose de otimismo exagerado, disse que o longa foi feito “para oxigenar” o cinema brasileiro. Logo após a exibição, mal recebida pela grande maioria dos presentes, o assunto imediatamente virou piada. O estilo passadista do filme, que lembra a vanguarda experimentalista dos longínquos anos 60, pouco ou nada traz de novidade estética e/ou narrativa, e dificilmente oxigenará alguma coisa.

O longa da noite de sábado (27/11), o também mineiro O Céu Sobre os Ombros, foi um pouco mais feliz. Um pouco. O diretor estreante Sérgio Borges se debruça sobre três personagens solitários, de classe média baixa, moradores de Belo Horizonte e imediações: uma transexual, um torcedor fanático do Atlético Mineiro (e também Hare Krishna), e o pai de um garoto deficiente mental.

Esta trinca serve de base para que a câmera de Sérgio faça longos planos introspectivos, reflexivos e não raro silenciosos que lentamente desvendarão fragmentos destes três universos. Um estilo contemplativo meio O Céu de Suely, meio A Casa de Alice, mas longe, bem longe da forte dramaturgia destes dois exemplos citados. É o velho problema de roteiro do cinema brasileiro.

Neste processo de fugir do que já foi feito, de tentar a ruptura pela ruptura, muitas vezes os jovens experimentalistas deixam em segundo plano (quando não, terceiro) a boa e velha tradição de se contar uma boa história, de construir personagens interessantes, de desenvolver minimamente um fio narrativo. É do que se ressente neste Festival de Brasília, salvo honrosas exceções.

No outro extremo, os dois curtas exibidos na noite deste sábado (27/11) pecam tanto na forma como no conteúdo. O brasiliense Falta de Ar, de Érico Monnerat, e o paraense Matinta, de Fernando Segtowick se utilizam de estética e narrativa convencionais, já usadas e reusadas pelo cinemão comercial, para contar histórias de dramaturgias igualmente frágeis.

Este repórter, incurável otimista, anseia por noites melhores até o final do Festival.

*Celso Sabadin viajou a Brasília a convite da organização do evento.


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