BRASÍLIA 2010: Exibido em cópia restaurada, primeiro filme internacional de Glauber Rocha faz alegoria do colonialismo

30/11/2010 15h22



























“Fui fazer um filme na África porque compreendi que estava chegando a hora de começar a romper com o auto-isolamento em que vivem os vários cinemas do terceiro mundo. E o título – O Leão de Sete Cabeças – veio simplesmente disto: um mesmo cinema e várias manifestações”.

Assim Glauber Rocha explica, na biografia das filmagens, as razões para fazer seu primeiro filme internacional, coprodução franco-italiana com diálogos em múltiplas línguas e elenco globalizado, com presença de brasileiro (Hugo Carvana), alemão (René Koldhoffer), italianos (Giulio Brogi e Gabrielle Tinti), sérvia (Rada Rassimov), francês (Jean-Pierre Léaud, o muso de Truffaut) e congoleses (Baiack e André Segolo). Na trilha, Clementina de Jesus cantando o Hino da França, em sintonia com o título internacional do filme, Der Leone Have Sept Cabeças.

Na belíssima cópia restaurada exibida na segunda-feira (30/11) no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, já fica claro que O Leão de Sete Cabeças (1970) compõe que levaria Glauber do maniqueísmo de Barravento (1961) à loucura de A Idade da Terra (1980).

Novamente, seu cinema trabalha com alegorias, mas concretas e palpáveis, jamais abstratas. Os personagens são tipos que ilustram a estrutura política de um lugar. A Besta (Rassimov) é a Europa colonialista, protegida pelo imperialismo norte-americano (Tinti) e por um ex-nazista (Koldhoffer). Um pregador perdido pela África (Léaud) transita entre um revolucionário (Brogi), um líder local chamado Zumbi (Baiack) e a elite colaboracionista representada por Xobu (Segolo).

Enredo que parece bem óbvio quando observado a uma distância de 40 anos do lançamento. A República do Congo havia conseguido sua independência da Bélgica apenas dez anos antes (1960) de Glauber filmar no país. No ano em que O Leão de Sete Cabeças estava sendo rodado, ainda existiam 11 colônias na África, ou seja, tratava-se de um filme atual, uma resposta ao presente.

Ainda que as formas de dominação política tenham se sofisticado ao redor do mundo, o que em teoria diminuiriam o impacto do espectador com o enredo, está em jogo também a maneira propositalmente caótica e insanamente agressiva de Glauber filmar. Personagens entram e saem de quadro num frenesi. Diálogos antológicos, ironia à flor da pele com Hugo Carvana falando francês e soltando um “sossega, leão!” vez em quando.

como a realidade não era filmada quadradinha, com o simples intuito de reproduzir a estrutura da realidade, O Leão de Sete Cabeças sobrevive com suas associações híbridas de clássico e popular – nas canções, por exemplo –, em seu clima operístico, no uso de metáforas.

Mas, se por acaso der errado, nas filmagens, sempre há uma solução. “Então, o pessoal da fotografia diz que está tudo pronto, aí perco a cabeça e mando filmar sempre, rindo e gritando: – Vai de qualquer jeito que depois o Escorel resolve na montagem!”. No caso de O Leão de Sete Cabeças, o editor Eduardo Escorel não teve de quebrar tanto a cabeça.

Segundo Paloma Rocha, presidente da fundação Tempo Glauber, o filme só tem distribuição fechada para o mercado de DVD, com a Versátil, o que já é um começo. Porém, seria ótimo se algum distribuidor ou exibidor de cinema se aventurasse a levar O Leão de Sete Cabeças novamente às telonas. Na posição de quem o assistiu no Cine Brasília, asseguro que faz uma boa diferença.

*Heitor Augusto viajou a convite da organização do evento.


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