BRASÍLIA 2010: Meu filme não é Jogo de Cena 2, afirma diretor de Amor?

29/11/2010 13h55

As histórias são reais, mas interpretadas por atores. O tom documental dialoga com a ficção. Apesar das semelhanças com Jogo de Cena, filme de Eduardo Coutinho que embaralhou a dramaturgia dos gêneros, João Jardim, diretor de Amor?, refuta o diálogo entre seu filme e o de Coutinho.

“O filme do Coutinho encerrou a questão [fronteira do documentário com a ficção] e justamente por isso senti que não precisei tocar no assunto. Nossa discussão não é entre o conteúdo e o próprio jogo da cena, mas os atores são instrumentos para falar o tema”, afirma Jardim, que tem na filmografia Lixo Extraordinário, Pro Dia Nascer Feliz e Janela da Alma. “Para mim, é um filme sobre amor”.

Com uma irônica interrogação no título, Amor? costura diversas histórias reais interpretadas por atores que lidam tanto com o que há de violência numa relação amorosa. Uma das mulheres sai do cerco de violência (Mariana Lima), outra justifica a surra (Lilia Cabral), outro entende sua violência como extensão de abusos familiares (Eduardo Moscovis) e por aí vai. Histórias que foram selecionadas na pesquisa de Renée Castelo Branco.



“Gravamos as entrevistas com um aparelho mp3, sem vídeo e sem revelar o nome mesmo nas gravações, com sigilo absoluto”, diz a pesquisadora. O processo envolveu inicialmente o contato com a procuradora Rosane Reis Lavigne, passou por entrevistas com instituições, psicanalistas e advogados e chegou a uma rede de pessoas que sofreram algum tipo de violência.

“Tentei desconstruir a ideia do ator lidando com o personagem fora, eu me relacionava com eles como se fosse a história deles pra que eles se apropriassem do texto podendo improvisar”, afirma o diretor. Ângelo Antonio, um dos atores, diz que é impossível repetir o texto de seu personagem. “Não consigo, pois foi um processo intenso que me refez rever minhas relações”.

Para aliviar a tensão das histórias, os depoimentos/interpretações são intercalados pela trilha que busca suavidade e imagens que remetem à leveza. “Isso é opção, as cenas de água são um alívio”, argumenta Heloísa Passos, diretora de fotografia.

Em Amor?, homens oprimem as mulheres. “Tentamos mesmo encontrar homens que sofreram algum tipo de assédio por mulheres, mas não conseguimos. Queríamos também um casal homossexual masculino, que até encontramos, mas não tinha a força para entrar no filme”, justifica o diretor. Há uma história lésbica interpretada por Fabiula Nascimento e Sílvia Lourenço.

João Jardim sintetiza que a principal razão para realizar esse documentário/ficção foi o conteúdo das histórias. “É como se o filme em si fosse desimportante, porque o que interessa é a reflexão, o foco no que os atores dizem”.


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