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    Cine Ceará: Documentário sobre Mercedes Sosa peca por excesso de reverência

    Filme foi bem recebido pelo público que lotou as salas de exibição do Centro Cultural Dragão do Mar nesta quinta
    Por Roberto Guerra, de Fortaleza
    13/09/2013
    Mercedes Sosa

    O documentário Mercedes Sosa – A Voz da América Latina arrancou aplausos entusiasmados da plateia na noite desta quinta-feira no Cine Ceará. Dificilmente seria diferente, o filme foi construído milimetricamente para reverenciar a figura da cantora argentina. Infelizmente, em nenhum momento, propôs-se a ir mais fundo na figura humana por trás do mito.

    É bem sabido que fazer documentário não é fazer jornalismo, apesar do produto documental se assemelhar à matéria jornalística audiovisual. Documentarista não precisa buscar a isenção e pode tomar partido abertamente caso deseje. Mas há limites que quando ultrapassados acabam por atentar contra a credibilidade do que se vê na tela.

    Mercedes Sosa, o filme, é uma peça de propaganda dirigida por Rodrigo H. Vila. Está mais para um vídeo familiar póstumo, desses que são exibidos em velórios para reverenciar o morto, do que uma cinebiografia da cantora. Apesar de ter recebido apoio da fundação que leva o nome da artista, o diretor afirmou não ter sido vítima de qualquer tipo de censura prévia.

    "Trabalhei livremente e o apoio da Fundação Mercedes Sosa foi meramente emocional. Muita coisa ficou de fora do filme, mas o que não está lá foi porque não achei pertinente entrar", disse Vila em entrevista na manhã desta sexta-feira (13) em Fortaleza.

    Naturalmente, sintetizar a vida de alguém em pouco mais de uma hora e meia é tarefa complexa, principalmente em se tratando de uma artista tão importante, mas se o reducionismo é inevitável, este tem de ser temporal e nunca informativo.

    A Mercedes Sosa levada às telas por Vila é uma mártir, colocada em pedestal como vítima do que a rodeia e nunca como protagonista de sua própria vida. É apresentada a principio como presa da pobreza que marcou sua infância, depois como vítima de um primeiro marido incompreensível, logo em seguida como alvo da ditadura militar argentina. Por último, seus alogozes são a depressão e um breve episódio de alcoolismo.

    Entre os depoimentos selecionados pelo filme não há voz dissonante. Todos estão lá para corroborar o talento da artista, incluindo brasileiros como Milton Nascimento e Chico Buarque. Estes chancelam o talento de Sosa, algo redundante, porque ninguém seria capaz de contestar isso. Nos depoimentos daqueles que conviveram com ela, dados em entrevista a seu filho - o que já revela muito do que vai se ouvir -,  o tom de reverência se mantém.

    Mercedes Sosa tinha voz poderosa e capaz de transcender o idioma. O filme, inclusive, fala de shows que fez na Europa em que pessoas vinham cumprimentá-la como lágrimas nos olhos apesar de não entenderem patavina das letras. Resultado do impacto emocional de sua interpretação, coisa que o longa trata en passant.

    Documentário mais visto da história do cinema argentino, Mercedes Sosa – A Voz da América Latina pinta um retrato excessivamente edulcorado da artista que cantou as mazelas do continente. O excesso de veneração acaba por levar às telas uma personagem de ficção e não uma pessoa real, com seus defeitos e fraquezas mundanas. 

    A 23ª edição do Cine Ceará segue até este sábado (14), quando serão conhecidos os vencedores desta edição. Para informações sobre programação, acesse: cineceara.com.