Cineastas seguem caminho de Spielberg e migram para games

07/06/2010 11h07

A maior reclamação em relação aos filmes baseados em jogos é, à exceção da máxima “eles não capturam o sentimento do jogo”, de que os próprios desenvolvedores do título não se envolvem o suficiente para garantir o sucesso. Há evidências de que a reclamação seja mais do que choro, vide a adaptação de Silent Hill para as telonas, na qual a mera colaboração do diretor de som do jogo deu outro ar ao longa-metragem.

Agora, e quando acontece o inverso? Ainda que não de conhecimento comum, Steven Spielberg, a mente por trás de E.T., Parque dos Dinossauros e Indiana Jones, vem colaborando com o mundo dos jogos muito antes das grandes produções dessa geração.

Chamava-se The Dig a produção da Lucas Arts (isto mesmo, o estúdio do renomado George Lucas) prometida primeiro como episódio da série Amazing Stories e depois como um filme, ambos assinados por Spielberg. Porém, tornou-se tão cara em sua época (final da década de 80) que a única forma de vê-la concluída foi transformá-la em um jogo. Lançado somente em 1995, The Dig, é a história de arqueólogos tentando entender como uma civilização chegou ao fim em um planeta alienígena. Foi um sucesso com a crítica da época.

Só que o caso de The Dig, Spielberg foi o escritor da obra. Ele só veio a interagir fortemente com o mundo dos jogos bem mais tarde, em 1999, sob comando de seu próprio estúdio, a Dreamworks SKG, na criação de um dos mais famosos FPS, ou First Person Shooters (Tiro em Primeira Pessoa), Medal of Honor. Além de inteligente, o jogo recriava o cenário da Segunda Guerra Mundial e exaltava uma narrativa e um senso de propósito quase inexistente no gênero, cuja repercussão mais tarde criou uma própria vertente puramente baseada no maior confronto do século 20.

Spielberg, entretanto, trabalhou apenas no primeiro episódio da aclamada franquia, vendendo seu estúdio para a Electronic Arts um ano depois, coisa que diz ter se arrependido em entrevista dada ano passado à agência Reuters, falando sobre seu novo contrato com a própria EA para a produção de três novos jogos.

Interação entre cinema e videogame

Cada vez mais os dois mundos se aproximam. Já não soa estranho ver nomes como Gore Verbinski, Peter Jackson e Guillermo del Toro, grandes figuras do cinema norte-americano, próximo a futuros projetos dos jogos. Verbinski já contratou remanescentes do ex-estudio Pandemic (Star Wars: Battlefront) para realizar, dentro do seu próprio time, o Blind Wink, o que ele chamou de cinco grandes projetos que podem ser publicados junto a Universal.

Peter Jackson e Guillermo del Toro são casos mais fechados e cheios de segredos. Jackson, abertamente um grande fã da franquia Halo, criou, em cooperação com a Microsoft Game Studios, seu próprio grupo chamado apenas de Wingnut Interactive e seu primeiro projeto seria o cancelado Halo: Chronicles. Ainda assim, Jackson e sua turma continuam firmes em um projeto ainda maior que aparecerá durante a E3 deste ano, o maior evento de videogames do planeta.

Enquanto isso, Del Toro, que aparentemente não mais se encarregará da direção do filme O Hobbit, adaptado da obra literária de J.R.R. Tolkien, não vê problemas em ajudar na construção do jogo baseado no filme, coisa que já adiantou que pretende não ter pressa. Foi o jeito de o diretor criticar os péssimos jogos baseados em filmes, vítimas da pressa para que estes estréiem junto com suas contrapartes cinematográficas. O diretor diz que pretende evocar emoções como o jogo Flower para PlayStation 3, e não apenas replicar cenas dos cinemas.

Vin Diesel também está no jogo

O caso mais curioso de todos é o do ator de filmes de ação Vin Diesel, estrela da franquia Velozes e Furiosos. Para começar, o ator se diz fissurado nos jogos de RPG. É difícil imaginar, mas sempre que pode o astro bombadão senta com seus amigos reunindo fichas de papel e dados para viver aventuras medievais.

Desta maneira Vin Diesel foi apresentado aos RPGs de videogame – na época, o ator trabalhava no filme As Crônicas de Riddick. Diesel, já empolgado com o personagem Riddick, viu um futuro nos videogames e, além de assegurar os direitos do personagem para si, montou sua própria desenvolvedora, a Tygon Studios, para produzir um jogo protagonizado pelo anti-herói.

A ironia é que, enquanto o filme se mostrou morno tanto com o público quanto com a crítica, o jogo The Chronicles of Riddick: Escape from Butcher Bay, que serviu de prelúdio para as aventuras do cinema, foi aclamado por ambos, situando Riddick em uma profunda busca nos moldes do clássico O Expresso da Meia Noite, apenas futurístico e muito mais violento. Diesel contribuiu ativamente no projeto, não apenas na captura de movimento e dublagem, mas também na formulação do script e do enredo. O sucesso fez com que sua empresa lançasse mais dois jogos, um deles sequência de The Chronicles of Riddick, e a promessa de mais quatro inéditos até o fim de 2013.

Muito mais do que o fato do mercado de videogames ter superado o lucro Hollywoodiano desde 2001, com uma soma que ultrapassa US$ 10 bilhões anuais, o videogame atrai os grandes nomes do cinema pela sua capacidade de envolver e emocionar pessoas de todo o mundo com um universo fantasioso que se coloca mais próximo do que qualquer outro. Há até quem vai mais longe: Spielberg acredita que, “como nos anos 80, o cinema foi influenciado pelo ritmo e o estilo dos comerciais de televisão, e como nos anos 90 foi influenciado pelo andamento dos clipes de música” as próximas décadas “serão altamente influenciadas pelo mundo digital dos jogos”. Avatar já faz isto.

Mas também existem aqueles que não dão a mínima, o excêntrico Quentin Tarantino, por exemplo. Além de não se interessar, ele confessa que em sua casa os videogames só servem para acumular pó, o que é uma pena considerando o quanto o mundo dos jogos poderia lucrar com a estranha mente do diretor. Só a ideia de um jogo baseado no universo e Kill Bill já dá comichão nos dedos...

* Rodrigo Brasiliense é repórter e crítico do Game Start, site parceiro do Cineclick.


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