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    Como os estereótipos orientais ainda são propagados no audiovisual

    As abordagens e rotulações que as produções televisivas e cinematográficas ainda fazem sobre os asiáticos
    Por Thamires Viana
    13/01/2021 - Atualizado há 5 meses

    Quando o assunto é estereótipos, a indústria audiovisual ainda é uma das mais lembradas em propagar a prática. Seja no cinema ou na televisão, as produções chegam às telas abordando personagens de diferentes etnias com preconcepções e, quase sempre, superficialmente.

    Esse retrato limitado de negros, asiáticos, árabes, entre outros, é algo, infelizmente, enraizado há muito tempo no mercado audiovisual e faz com que muitos atores sejam escalados para interpretar indivíduos carregados de rótulos ultrapassados e exaustivos.

    Um exemplo claro é o de atores asiáticos ou com ascendência asiática. Quase sempre as produções trazem os mais velhos como inteiramente sábios, enquanto os jovens são super inteligentes, bons de matemática, lutadores de alguma arte marcial, mafiosos, ou mulheres sempre ingênuas e infantilizadas. 

    Na TV brasileira não é diferente. Algumas produções nacionais, incluindo novelas, trazem personagens com aquele sotaque característico que já foram "representados" como feirantes, nerds, além de apelidos usados por aqui como "japa", "china", e piadas como "abre o olho" e "pastel de flango". Ainda há quem encontre espaço para brincadeiras sem graça sobre seus órgãos sexuais. 

    "Eu acredito que mais de 90% dos personagens que fiz até hoje, seja em séries ou televisão, foram todos com algum estereótipo, sim. Isso é um vício do audiovisual já há muitos anos. Então eu acho muito importante que sejam personagens com protagonismo, de uma certa forma", nos conta a atriz brasileira Bruna Aiiso, que trabalhou nas webseries Lua em Gêmeos e Motherb0x, na série A Todo Vapor, e também da novela Bom Sucesso, da rede Globo.

    Bruna Aiiso nos bastidores da novela Bom Sucesso, da Rede Globo

    Nascida em São Paulo, a atriz de 34 anos comenta, principalmente, sobre o sotaque que muitas produções brasileiras costumam colocar nos personagens. 

    "Muitos atores e atrizes amarelos acabam sempre sendo convidados para fazer papéis com estereótipos de várias formas. Por exemplo, personagens que tenham sotaque estrangeiro, e digo isso pois é de uma nacionalidade que não é a nossa. Nós, atores amarelos brasileiros, não somos japoneses ou chineses, somos brasileiros! É até um pouco confuso pois nos tratam como estrangeiros, mas nós somos brasileiros como qualquer outro que tenha nascido aqui", pontua a atriz.

    Bruna conta que apesar dos estereótipos estarem presentes nos personagens, a aceitação dos trabalhos é uma forma de fazer a diferença e buscar mudanças para isso.  

    "Um dos motivos mais importantes pelos quais eu e muitos artistas aceitam os trabalhos é porque temos a oportunidade de estarmos inseridos no mercado e de fazermos a diferença de dentro para fora. Se nós queremos disseminar o nosso pensamento e a nossa insatisfação, eu acho que é importante estarmos lá ocupando esses espaços, conversando, ensinando e mostrando que nós podemos fazer qualquer personagem. Estando lá, acredito que é muito mais fácil dialogar e mostrar o nosso lado", afirma a atriz.

    Outro agravante é que quando não estão representando personagens com essas rotulagens, os atores lutam para conseguirem oportunidades de trabalhos e, pior ainda, quase nunca conseguem papéis de destaque. Em Hollywood, por exemplo, a prática do whitewishing, ou seja, o "embranquecimento" étnico, ainda é corriqueira e dá espaço (mais uma vez) a atores brancos para interpretarem personagens de outras etnias. 

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    O que é whitewashing?

    Mickey Rooney em Bonequinha de Luxo (1961)Reprodução

    Lá no início do século XX, os estúdios de Hollywood escalavam atores caucasianos para trabalhos com abordagens étnicas. Essa era uma prática comum e muitos usavam blackface ou o yellowface - pintura preta para viver personagens negros e amarela para viver personagens asiáticos - ao encarnarem os papéis sempre carregados de exageros.

    As técnicas, inacreditavelmente, eram bem aceitas naquele tempo pois a diversidade de atores de outras etnias no mercado cinematográfico ainda era bem escassa. Somente no final do século XX e início do XXI que os artistas negros e asiáticos começaram a ganhar mais espaço - ainda a curtos passos - no meio audiovisual. Só então é que o black e yellowface se tornaram menos populares entre os estúdios, mas não foram, de fato, erradicados.

    Quando falamos de filmes clássicos, um exemplo claro é o do longa Bonequinha de Luxo, um dos maiores sucessos da atriz Audrey Hepburn. Nele, o ator americano Mickey Rooney interpretou o personagem Mr. Yunioshi que, embora tenha se tornado emblemático no longa, era caricato, exagerado e completamente fora da realidade.  

    Já um dos exemplos atuais que causou muita revolta no público foi A Vigilante Do Amanhã: Ghost In The Shell, filme de 2017 que trouxe Scarlett Johansson para viver a Major Motoko Kusanagi, uma ciborgue oriental. Não demorou muito para que o longa recebesse críticas por inserir a personagem interpretada por uma mulher branca. O mais estranho disso tudo é que grande parte do elenco foi formada por atores orientais, menos a protagonista.

    A atriz Scarlett Johansson em A Vigilante do Amanhã Reprodução

    "Quando falamos do cenário audiovisual nacional e internacional, para nós, atores amarelos, eu vejo uma grande diferença. Por exemplo, as produções americanas já têm muita diversidade, muitos artistas amarelos nas produções, infinitamente mais do que nas produções brasileiras. Porém, ainda falta muito porque nós não queremos só estar lá, nós queremos estar lá com relevância e protagonismo!", conclui Bruna. 

    Alguns estereótipos

    Artes marciais

    Já reparou que é bem comum estar assistindo a alguma produção hollywoodiana de ação e de repente ver algum personagem oriental deferindo golpes de artes marciais? Embora esse estereótipo venha sendo cada vez menos usado, ele também não foi 100% erradicado e aparece até mesmo em comédias. Em Se Beber Não Case, filme de 2009, há uma cena em que Chang, personagem do ator Ken Jeong, sai do porta malas de um carro e crava uma luta da forma mais gratuita possível. Jackie Chan, por exemplo, conquistou um sólido protagonismo em solo americano, porém seus personagens em filmes de Hollywood são sempre mestres, lutadores ou derivados, quase nunca escapando destes estereótipos.

    Minoria modelo

    Esse é um dos mais comuns, não só no meio audiovisual, mas na sociedade em si. O chamado minoria modelo é aquele em que os orientais são sempre colocados como estudiosos, nerds, bons de matemática e tecnologia, como se fossem "gênios". Embora alguns países como Japão e Coréia do Sul insiram a educação de seus jovens como uma das coisas mais importantes, eles têm outras prioridades além dos estudos, incluindo diversas atividades e hobbies.

    Asiáticas sedutoras/ingênuas

    Estereotipar mulheres já é algo que, infelizmente, nem causa mais surpresa em produções audiovisuais. Algumas personagens asiáticas ainda chegam às telas como mulheres sedutoras e fetichizadas, ou até mesmo infantilizadas e ingênuas, e que quase sempre estão ali para satisfazer as vontades dos homens. É triste ver que boa parte do audiovisual ainda não amadureceu suas abordagens para acompanhar a evolução das mulheres perante à sociedade. 

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