Coronavírus: Comparamos pandemias da ficção com a realidade

Descubra como a ficção trata pandemias

20/03/2020 10h30 (Atualizado em 27/11/2020 19h39)

Por Daniel Reininger

O Coronavírus mexe com o emocional das pessoas de todo o mundo e muitas vezes a fronteira entre fantasia e realidade se mistura. Não é à toa que o filme Contágio, de 2011, sobre uma pandemia mundial mostrada de forma realista (porém ainda dramatizada) está em primeiro lugar em diversos serviços de streaming.

CinemaTV produzem muitos conteúdos com tramas sobre vírus e oferecem não só uma fuga da realidade com histórias tensas e dramáticas, mas também, nesse momento em que a vida nos pega de surpresa, serve como uma maneira das pessoas processarem a situação.

Entretanto, por mais realista que filmes e séries sejam, como Contágio, é preciso lembrar que Hollywood vive do exagero, dos conflitos, dos heróis, e, por isso, as versões para o entretenimento sobre pandemias globais vão em busca do fantástico: de zumbis a conspirações governamentais. 

Pandemia na ficção

Um dos primeiros thrillers a tratar sobre o tema é O Enigma De Andrômeda, de 1971, adaptado de um livro do autor Michael Crichton (Jurassic Park e Westworld), que costuma abordar como a tecnologia cria dilemas morais e existenciais para a humanidade.

O Enigma de Andrômeda

Os elementos de ficção científica são recorrentes, como podemos ver no clássico de 1995 Os 12 Macacos, sobre o uso de viagens no tempo para tentar impedir uma praga criada em laboratório de acabar com a maior parte da humanidade. Ou de Epidemia, de 1997, que mostra o vírus do Ebola contrabandeado da África para os EUA, exigindo que uma equipe de médicos (liderada por Dustin Hoffman) corra contra o tempo para impedir o alastramento da doença mortal. 

Nesse ponto, Contágio, do diretor Steven Soderbergh, traz a visão mais realista ao mostrar os efeitos de uma pandemia no mundo, mas mesmo esse longa exagera números, situações e cria dramas para gerar tensão a fim de entreter.

A vida real não funciona assim. Viver uma pandemia significa longos períodos de incerteza e tédio, difíceis de refletir em um filme destinado a divertir. Imagine um filme onde o mundo é salvo apenas pela população lavar as mãos e ficar em casa. Seria chato de assistir, certo? Mas, ao viver uma situação dessa, já ficamos apreensivos. Por isso a importância de separar realidade e ficção.

Zumbis e pandemias

E aí temos os filmes que realmente extrapolam de vez o assunto, como Zumbilândia (2009), Extermínio (2003), Madrugada Dos Mortos (2004), Guerra Mundial Z (2013), Eu Sou A Lenda (2007), Invasão Zumbi (2016). Nesses longas, vírus transformam a maior parte da população em seres famintos comedores de cérebro e nada pode pará-los. Quer mais fantasia do que isso?

Cena de Guerra Mundial Z

Pandemia como metáfora

Filmes de pandemias são boas formas de mostrar pessoas comuns se sacrificando, enquanto o futuro da Terra está em risco por um inimigo nomeável e realista. Além disso, um surto é uma maneira de mostrar como funcionam sistemas que governam nossas vidas e mal sabemos que eles estão lá.

O filme Contágio traz informações relevantes sobre a disseminação de vírus e as formas vigente de controle a surtos. No filme coreano A Gripe, o presidente da Coréia do Sul é derrubado temporariamente por um funcionário maligno da Organização Mundial da Saúde. Relações tensas com outros países e organizações globais, como o Fundo Monetário Internacional, são trazidos à tona e extrapolados.

Se você parar para pensar, raramente esses filmes focam muito na doença em si, acabam tratando de temas como governos e poderes oprimindo os vulneráveis, terroristas, burocratas e militares inescrupulosos, pessoas comuns se tornando heróis após serem abandonados - um medo comum nos Estados Unidos, onde não existe um sistema público de saúde.

A propagação da doença torna-se apenas o estopim para lutas pelo poder.

Realidade vs Ficção

O filme Contágio é o mais próximo da situação atual, ao mostrar uma mulher (interpretada por Gwyneth Paltrow) que retorna a Minnesota, EUA, com uma doença estranha após uma viagem a Hong Kong, China. Mesmo assim, os exageros são muitos e o longa não deve ser tomado como um documentário. Veja algumas diferenças entre os vírus da ficção e a realidade do Coronavírus:

Pandemias - comparação realidade e ficção


Como surgiu

Ficção:

Em Contágio, um morcego infecta um porco, que é consumido posteriormente num restaurante de um hotel de Hong Kong pela paciente zero, que espalha a doença sem saber que estava contaminada.

Realidade:

A teoria mais forte é parecida com o filme de 2011, no qual aconteceu uma mutação em animais e posteriormente aconteceu a transmissão a humanos. Entretanto, é muito difícil identificar o paciente zero, pois quando se percebeu que algo estava acontecendo, já eram 41 casos com os mesmos sintomas em Wuhan, China.

Disseminação

Ficção:

Em Contágio, vemos o segundo dia da propagação do vírus, quando um homem em Hong Kong, na China, é o primeiro a morrer da doença logo de cara. Um homem em Tóquio e uma mulher em Londres também morrem no mesmo dia. No filme, o vírus MEV-1 se espalha por contato próximo e superfícies tocadas por pacientes infectados. E o número de pessoas infectadas e mortos é catastrófico.

Realidade:

No caso do Coronavírus, as partículas virais não podem sobreviver por muito tempo em superfícies e o vírus se espalha mesmo por gotículas passadas a outras pessoas as pessoas infectadas tossem ou espirram. Evitar contato e lavar as mãos e usar álcool gel 70% já fazem uma grande diferença para impedir o avanço da doença.

E a primeira pessoa a morrer pelo novo Coronavírus, um morador de Wuhan, China, de 61 anos, morreu 11 dias após o relato do primeiro caso. Sem falar que o vírus só saiu da China em 13 de janeiro, duas semanas após o início do surto.

Contágio

Imunidade e cura

Ficção:

É comum filmes do gênero mostrarem um paciente imune como chave da cura, muitas vezes essas respostas são encontradas em dias ou meses e como única alternativa para a resolução do problema, sem outro tratamento viável fora a imunidade natural ou cura.

Realidade:

O conceito de imunidade individual não se aplica ao caso dos Coronavírus, segundo Neil Ferguson, cientista do Imperial College de Londres. "Com o vírus da gripe você se torna imune, mas existem muitos vírus diferentes circulando. Os Coronavírus não evoluem da mesma maneira que a gripe, mas igualmente nosso corpo não gera imunidade tão rapidamente", disse ele em entrevista ao Telegraph.

Entretanto, medidas simples como lavar as mãos e evitar contato com pessoas infectadas podem parar a pandemia sem a necessidade de uma cura ou imunidade, por isso governos do mundo todo tem tomado medidas de acordo com essas recomendações, com resultados positivos.

Embora diversos países procurem a cura, uma vacina segura e viável pode demorar meses, porém não é crucial para impedir a doença, como os filmes nos fazem acreditar.

Recuperação dos doentes

Ficção:

Na maioria dos filmes do gênero raramente existem pacientes recuperados, por questões dramáticas a fim de aumentar a tensão dessas tramas ficcionais.

Realidade:

Segundo Todd Ellerin, médico e escritor da Harvard Health Publishing, "muitas pessoas se recuperam em poucos dias" do Coronavírus. A taxa mundial de mortalidade está em aproximadamente 3,7% dos infectados, ou seja, 96,3% das pessoas infectadas se recuperam da doença.

Fake News

Ficção:

Um blogueiro do filme Contágio, interpretado por Jude Law, espalha informações falsas, alegando que o vírus MEV-1 foi fabricado por empresas farmacêuticas em prol de lucros. Já membros do Governo acreditam que o vírus é uma arma terrorista. Nenhuma dessas teorias se mostram verdadeiras no longa, apesar do pânico que as Fake News geram.

Realidade:

A desinformação também se espalhou durante o surto atual. De curas milagrosas a teorias da conspiração.

O senador norte-americano Tom Cotten veio a público com uma teoria de que o Coronavírus veio de cientistas chineses em um laboratório secreto de Wuhan e sua intenção era criar uma guerra biológica.

Cientistas de todo o mundo logo refutaram a possibilidade. "Não há absolutamente nada na sequência do genoma desse vírus que indique que o vírus foi criado em laboratório", disse Richard Ebright, professor de biologia química da Universidade Rutgers, ao Washington Post.

Contágio

Quarentena

Ficção:

Na maioria dos filmes sobre vírus, quarentenas se mostram inúteis ou com sucesso limitado, mal organizadas e incapazes de conter a população em pânico. O povo acaba largado à própria sorte, enquanto os governos são incapazes de criar respostas coordenadas.

Realidade:

Na China, a quarentena funcionou e os números do Coronavírus já começam a diminuir. Em diversos locais do mundo, as cidades que adotaram medidas restritivas mostram sucesso na contenção da doença. Governos tem tomado decisões sensatas, preocupados em evitar o pânico.

Assista filmes sobre Pandemias, mas entenda que são obras de ficção

Não há motivo para pânico. E sim, vale continuar a assistir filmes sobre vírus e pandemias nesse momento de crise, afinal, eles nos ajudam a processar a situação atual e servem como entretenimento nesse momento de quarentena. Mas tenha consciência de que os exageros e dramas vistos nessas obras estão lá para criar tensão, mostrar heróis e, assim, gerar interesse do público.

A realidade é bem diferente e está mais do que claro que seguindo as recomendações de médicos e cientistas, as coisas começarão a melhorar em breve.

Confira filmes sobre pandemias:

Cargo (2017)

Ao Cair Da Noite (2017)

Invasão Zumbi (2016)

Maggie - A Transformação (2015)

Planeta Dos Macacos: O Confronto (2014)

A Gripe (2013)

Maze Runner: Correr Ou Morrer (2014)

Contágio (2011)

Sentidos Do Amor (2011)

O Planeta Dos Macacos: A Origem (2011)

A Epidemia (2010)

Ensaio Sobre A Cegueira (2008)

Fim Dos Tempos (2008)

Eu Sou A Lenda (2007)

Invasores (2007)

Filhos Da Esperança (2006)

Madrugada Dos Mortos (2004)

Extermínio (2003)

Virus (1999)

Epidemia (1997)

Os 12 Macacos (1995)

O Enigma De Andrômeda (1971)

O Sétimo Selo (1957)


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