Olhar de Cinema: Longa libanês abre mostra competitiva em Curitiba

Produção trata da greve dos estudantes na Universidade Americana de Beirute em 1974

08/06/2013 10h34

A mostra competitiva internacional do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba não poderia ter começado melhor. Na noite desta sexta-feira (7/6) foi exibido para o público curitibano o longa 74 - A Reconstituição de uma Luta, produção libanesa dirigida pelos irmãos Raed e Rania Rafei. O filme conta a história dos estudantes que protestaram durante 37 dias contra o aumento de mensalidade na Universidade Americana de Beirute em 1974.

Rania veio ao Paraná apresentar seu filme, que surgiu de uma série de documentários que fez para a rede de TV árabe Al-Jazira. "Esse trabalho era sobre movimentos estudantis e acabei me deparando com essa história. Daí duas pessoas que participaram da greve contataram a equipe de produção para contar como tudo aconteceu naquele momento", revela a cineasta, que decidiu fazer um filme sobre o tema que tivesse conexão com o presente.

A diretora, no entanto, não podia prever que a amarração com os dias de hoje fosse superar sua proposta narrativa. Para criar um link com a atualidade, resolveu reencenar os acontecimentos de 74 levando à tela ativistas contemporâneos interpretando os revolucionários da época. Para ela e seu irmão, a década de 70 parecia um momento em que as coisas não estavam paradas, estagnadas ideologicamente como hoje. "A gente estava fazendo o filme e pensando sobre esse mundo atual onde a juventude não tem mais consciência e estourou esse movimento na Tunísia, a Primavera Árabe. Isso nos tomou de surpresa. Trouxe uma nova energia para o processo", conta.

74 - A Reconstituição de uma Luta surpreende ao jogar por terra, como destreza insuspeita, as fronteiras entre documentário e ficção. Os não atores do filme interpretam os jovens da época dos acontecimentos improvisando diálogos repletos de suas convicções atuais, que diferem pouco do que se pensava então, mas que carregam forte crítica sobre os excessos oriundos das convicções ideológicas. " Muitos dos que viveram a época são amargos e se arrependeram do que fizeram. Acham que foram muito radicais. Mas veem o filme e se identificam, dizem que foi assim mesmo, que aquilo pertence às suas vidas", diz Rania.

Em 1974 um grupo de jovens universitários da Universidade Americana de Beirute rebelou-se contra o aumento das mensalidades em 10%. Acreditava que a medida tinha como objetivo excluir alunos como menor poder aquisitivo e legitimar uma elite intelectual no país que serviria aos interesses norte-americanos. Seus líderes estavam imbuídos do ideário revolucionário cubano e queriam mudar o mundo a partir da experiência particular de seu país. Não deu certo.

Os questionamentos dos que viveram o momento e hoje acham que exageram na dose se reflete nos diálogos dos jovens que os interpretaram. Estes, apesar de ainda acreditarem no poder das ideias, conseguem enxergar com certo distanciamento histórico os erros cometidos no passado por quem achava que ia mudar o mundo apenas com convicção revolucionária. 74 - A Reconstituição de uma Luta faz muito mais do que reconstruir esse momento, faz uma amálgama de ficção e documentário, de passado e presente que o torna mais contemporâneo do que poderia imaginar seus realizadores.

74 - A Reconstituição de uma Luta será reexibido na tarde deste sábado (8), às 14h30, no Espaço Itaú de Cinema do Shopping Crystal. 

SERVIÇO

Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba
Quando: de 6 a 14 de junho
Onde: Shopping Crystal (Espaço Itaú de Cinema); Cinemateca de Curitiba; Museu Oscar Niemeyer; Sesc Paço da Liberdade; Teatro Guairinha; Memorial de Curitiba; Casa Heitor – SESI PR
Quanto: R$ 5 (longa-metragem) R$ 1 (curta-metragem / sessão de 4 a 5 filmes)
Mais informações: http://olhardecinema.com.br/


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