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    Damas do Prazer nos lembra como o cinema brasileiro já foi menos recalcado

    Por Heitor Augusto
    24/04/2010

    Uma cena fundamental para o desfecho de Damas do Prazer ilustra como o cinema brasileiro já viveu momentos em que a preocupação com o pudor era bem menor.

    O filme de 1979, dirigido por Antonio Meliande (que também é fotógrafo), foi produzido dentro da Boca do Lixo e é um dos menos conhecidos da Mostra Clássicos e Raros, que ocorre no CCBB e Cinemateca até 16 de maio em São Paulo.

    As protagonistas são cinco prostitutas: Beth (Irene Stefânia), a mais descolada; uma japonesa (Sueli Aoki) que veio do sul; Vera (Nádia Destro), a novata do ponto; Cora (Bárbara Fazio), uma das mais velhas; Notícias Populares (Nicole Puzzi), presa nas mãos de um cafetão. As cinco histórias são desenvolvidas em paralelo e algumas delas ainda contam com clientes inusitados.

    De tudo que Damas do Prazer tem ou do que trata, o mais inusitado, especialmente quando assistido depois de 30 anos, é realmente a falta de recalque. Não só pelo fato de mostrar mulheres nuas, mas em especial na opção de não fugir dos temas e de assumir que os personagens encontram a solução para suas vidas fora da ordem.

    A começar que não há mistificação em torno das prostitutas. São mulheres que, por diferentes razões, trabalham oferecendo serviços sexuais. Para Damas do Prazer, não são necessariamente vítimas. Claro que uma precisa do dinheiro, a outra tem de manter o filho internado, mas, no geral, são mulheres de carne osso para as quais a câmera não olha com a distância da falsa polidez.

    Só que tem uma coisa na direção de Meliande. Quando filma como crônica ou brinca entre o cômico e o abusurdo, o filme existe. Quando resolve fazer drama de carteirinha, aí é um Deus nos acuda, com cenas regadas a uma música golpe-baixo e atrizes mal dirigidas.

    Mesmo assim, existem duas situações que fazem com que Damas do Prazer não se perca na poeira dos arquivos. A primeira delas é de um marido traído pela mulher. Na moral burguesa, ele teria de cumprir o papel do macho, expor a personalidade maculada da esposa e reforçar a monogamia.

    Mas ele faz justamente o contrário: aproveita-se do jogo criado pela mulher, usufrui dos benefícios e, quando chega a sua vez, subverte a situação de maneira inusitada.

    A segunda das situações, bem mais dramática, fala da personagem de Cora, uma das veteranas que se prostitui para manter internado o filho que tem paralisia cerebral. Desesperada, ela aplica uma injeção e mata o filho. E se essa cena fosse filmada hoje? Será que a câmera permaneceria lá? Ou desfocaria? A câmera de Meliande permanece em frente à mãe e o filho, esperando a ação decorrer. Olha, ela não pode ter sido filmada com maestria e a morte do garoto não é um primor de interpretação, mas é necessário ressaltar a coragem de filmar.

    Perdoem-me os que vão reclamar, com razão, dos spoilers neste texto. Mas não podia deixar de apontar esses dois momentos particulares do filme para refletir as transformações do cinema brasileiro nas últimas décadas. Por que Damas do Prazer não teme em mostrar? Tempos que antecederam o politicamente correto? Ou pela independência da produção, feita “na raça” com sobras de latas de filmes dos amigos? Ou pura consciência de que mulher pelada fazia bilheteria?

    Pena que a exibição deste sábado (24/04) foi a última dentro da Mostra Clássicos e Raros. Mas, a quem se interessar, não custa nada fazer uma consulta na Cinemateca. Ou procurar outros filmes raros ou clássicos da seleção (a programação está aqui).