Em São Paulo, Tornatore defende Baarìa como seu filme mais pessoal

25/11/2009 18h41

“Um artista só pode falar daquilo que conhece”. A frase proferida pelo próprio diretor Guiseppe Tornatore (A Desconhecida) em off já nos créditos de seu novo filme Baarìa – La Porta Del Vento, enquanto na tela o espectador vê imagens documentais de seu acervo pessoal, demonstra o quanto este é seu filme mais pessoal.

Declaradamente autobiográfico, Baarìa conta a epopéia de uma família italiana da pequena Bagheria (cidade a 15 km de Palermo), capital da Sicília. As três gerações representadas são seus avós, seus pais e a do próprio diretor e irmãos. Mas se concentra especialmente na história de Peppino Torrenuova (Francesco Scianna), a versão ficcional do pai.

Antes da exibição do filme para imprensa e convidados, na manhã desta quarta-feira (25/11), o próprio Tornatore que está no Brasil como convidado da 5ª Semana Pirelli de Cinema Italiano, que exibe uma retrospectiva de seus filmes até sexta-feira, respondeu perguntas sobre o filme. Margareth Madè, coprotagonista do filme, também participou do evento.

A boa notícia para quem quer assistir a Baarìa – La Porta Del Vento antes da estréia em circuito comercial é que o filme terá três sessões abertas ao público durante a mostra: na FAAP, quinta-feira (26/11), às 18h30 e no HSBC – Belas Artes, na sexta-feira (27/11) e sábado (28/11), às 21h30.

Como a exibição de Baarìa foi depois da coletiva, as perguntas ao diretor foram mais genéricas. Sobre seu novo longa, Tornatore estabeleceu uma relação de proximidade com seu filme mais conhecido, que venceu o Oscar que Melhor Filme Estrangeiro em 1989, Cinema Paradiso. “Os dois são mais do que simplesmente autobiográficos, são como ‘duas faces da mesma moeda’. Mas Baarìa é o meu filme mais íntimo.”

Quanto aos mestres que o inspiram a fazer cinema, o diretor ressaltou que as referências estão diluídas na vida de quem ama o cinema e que, apesar de ter admiração por muitos autores de cinema, quando está fazendo um filme não pensa nisso. “No começo de minha carreira, eu pensava no filme que estava fazendo ou havia feito e ficava pensando que havia referências de tais e tais mestres. Hoje, acho desnecessário. Até porque, quando me perguntam, depois de responder lembro de alguém que deveria ter citado, por isso não citarei ninguém.”

Baarìa – La Porta Del Vento teve sua première no Festival de Veneza de 2009 e, na ocasião, recebeu um elogio público do polêmico e criticado primeiro Ministro Italiano, Silvio Berlusconi. Questionado sobre o que achou disto e sobre a política de Berlusconi, Tornatore respondeu de forma burocrática que quanto à política não concorda, mas que o elogio é benvindo como o de qualquer espectador de seus filmes. “Eu sempre aprecio elogios aos meus filmes, mas não pergunto a cada pessoa da platéia sobre suas posições políticas”, enfatizou.

O diretor se derreteu em elogios ao seu colaborador de longa data, o maestro Ennio Morricone. A parceria de mais de vinte anos que acontece desde seu segundo filme, não por coincidência Cinema Paradiso, é maior do que profissional. “Além da admiração que eu tenho pelo trabalho e talento de Morricone, também o tenho como um grande amigo. Sempre que começo um novo projeto, o convido a participar. É maravilhoso porque sempre espero que ele vá fazer o melhor e todas às vezes me surpreendo.”

Tornatore só decepciona para além do esperado quando perguntado sobre o cinema brasileiro. O cineasta italiano confessa que o único filme do país que viu foi O Quatrilho, de Fábio Barreto (Lula, O Filho do Brasil), porque foi indicado ao Oscar em 1995. Apesar de justificar sua fala com as dificuldades de distribuição de filmes brasileiros na Itália, fica no ar que o desconhecimento, provavelmente, deve-se a falta de interesse considerando que diretores brasileiros têm tido projeção internacional, especialmente depois de Central do Brasil e Cidade de Deus, ambos indicados ao prêmio da Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood .


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