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    "Queria a melhor história de super-herói de todos os tempos", diz criador de série da Netflix

    O Legado de Júpiter é a resposta da streaming à The Boys
    Por Daniel Reininger
    06/05/2021 - Atualizado há 5 meses

    O Legado de Júpiter, nova série da Netflix que chega no dia 7 de maio, é uma resposta do streaming ao sucesso The Boys, criado pela sua concorrente direta, a Amazon Prime Video.

    Essa é é uma das grandes obras de Mark Millar, escritor escocês de 51 anos conhecido pelo filme O Procurado, estrelado por Angelina Jolie, James McAvoy e Morgan Freeman. 

    Depois de criar histórias incríveis para DC Comics e Marvel, como Entre a Foice e o Martelo, Ultimate X-Men e inspirar os Vingadores do cinema, criou, com ajuda de Frank Quitely,  uma história de super-heróis pouco convencional, mais pé no chão e com foco nas dinâmicas familiares.

    Na trama de O Legado de Júpiter, depois de quase um século protegendo a humanidade contra todo o tipo de ameaças, os super-heróis precisam passar o bastão adiante e dar lugar aos seus filhos, mas essa tarefa não será tão simples, afinal as diferenças entre as gerações não permite uma transição fácil.

    Confira nosso bate-papo:

    A série se baseia nas graphic novels que você e o artista Frank Quitely criaram juntos, publicadas pela primeira vez em 2013. De onde originalmente veio a ideia de O Legado de Júpiter?

    MARK MILLAR: Minha única ambição com esses livros era criar a maior e melhor história de super-herói de todos os tempos. Um grande Senhor dos Anéis ou Game of Thrones independente com super-heróis. Trabalhei na Marvel por dez anos, fiz Superman na DC, e só queria pegar tudo que aprendi reinventando os personagens deles para criar a maior franquia que conseguisse imaginar. 

    Tudo começa na década de 1920 e vai até o fim dos tempos, então a história antecede a Marvel e a DC Comics e aborda de tudo, desde o sentido da vida até o maior segredo do universo, com literalmente uma centena de personagens diferentes. Passei dois meses fazendo anotações em 2012. Meu escritório parecia a sala de um serial killer, tinha papéis colados por toda parte, com linhas presas a alguns deles. Desenvolvi a história para os cem anos e mal podia esperar para começar a escrever o roteiro.

    Cena da série O Legado de JúpiterReprodução / Netflix

    Vocês juntaram forças criativas com a Netflix em 2017, e esta será sua primeira colaboração. Por que quiseram que este fosse o primeiro título lançado no serviço?

    MILLAR: Quando Reed Hastings adquiriu nossa empresa, em 2017, ele comprou tudo, então era uma quantidade imensa de material. Nós olhamos tudo aquilo e pensamos: “O que é mais empolgante aqui?”

    E O Legado de Júpiter, com uma primeira temporada que engloba mais de cem anos e acompanha dezenas de super-heróis, é realmente o título mais ambicioso com o qual poderíamos ter começado. É um projeto ousado, que deixa uma marca. 

    Uma série tão grande quanto esta precisa de mais de um cérebro, e tivemos uma equipe criativa fantástica levando para as telas cada aspecto dos quadrinhos. Fiz anotações em cada um dos roteiros. Estou muito orgulhoso da série e empolgado para que todos vejam como ficou.

    Havia algum tema principal nos quadrinhos originais que você fez questão de preservar na adaptação?

    MILLAR: Os roteiristas se sentem atraídos por histórias com as quais se identificam. Eu era relativamente novo quando escrevi Kick-Ass, ainda lembrava bem como era ser o cara que lê quadrinhos no ensino médio. Quando eu estava trabalhando em O Legado de Júpiter, tínhamos acabado de ter o segundo bebê — hoje são três crianças em casa —, então histórias de família de repente passaram a me interessar mais. 

    Não se vê por aí muitas histórias de super-heróis sobre homens ou mulheres com filhos. Você não vê o Superman ou o Batman ou o Homem-Aranha dando mamadeira para um bebê no meio da noite. Eu pensei: “Como seria se alguém legal como o Superman se casasse com alguém incrível como a Mulher-Maravilha e eles tivessem filhos?” Tem uma dinâmica fascinante aí, e seria especialmente difícil para as crianças superarem as expectativas e o legado dos pais. 

    Então apliquei essa dinâmica muito humana ao modelo dos super-heróis. As histórias não falam de capturar assaltantes de banco ou combater um cientista do mal ao longo de três atos. São crianças que nunca pediram por esses poderes e querem trilhar o próprio caminho. 

    São os pais que olham para o mundo que deveriam salvar e percebem que ele está mais confuso do que nunca. E isso tudo traz consigo uma quantidade imensa de conflitos. Isso seria impossível dez anos atrás, mas o público hoje está tão acostumado com os clichês de super-heróis que está pronto para ver uma enorme subversão.

    Hoje em dia há muito conteúdo sobre super-heróis disponível. Que outros elementos de O Legado de Júpiter a diferenciam das outras histórias de super-heróis?

    MILLAR: Lembro que quando saiu o primeiro filme X-Men, em 2000, ele parecia muito diferente dos super-heróis da década de 1990. Foi um salto evolutivo em termos do caminho que um filme estava disposto a trilhar. Em termos de ambição e de escopo, O Legado de Júpiter representa outro salto para o gênero. 

    É, acima de tudo, uma série sobre super-heróis, mas é uma história pé no chão sobre dinâmicas familiares complexas e sobre a natureza cíclica da história. Ela coloca esses personagens chocantes bem no meio do nosso mundo de hoje, fazendo com que pareçam impotentes e muito deslocados, mesmo que tenham o poder de literalmente mover montanhas e mudar o mundo da noite para o dia.

    Algum aspecto da história se tornou mais atual desde quando os quadrinhos foram lançados?

    MILLAR: Quando escrevi os quadrinhos, em 2012, eu estava fascinado com o mundo tentando se recuperar da crise financeira de 2008, traçando paralelos entre aquela situação e a quebra da Bolsa de 1929. O empobrecimento na década de 1930 foi marcante, e a criação do Superman em 1938 foi meio que uma inspiração otimista e idealista para as pessoas que atravessavam aquele período difícil. 

    Nossa série reflete isso. Existem duas histórias paralelas, tipo O Poderoso Chefão 2. A história de 1929 é sobre um cara rico que perde tudo na quebra da Bolsa e começa a ter uns sonhos doidos com uma ilha que não está no mapa, e ele precisa reunir os amigos para encontrá-la porque acredita que ela guarda um segredo que pode salvar o país. Noventa anos depois, o país ainda precisa ser salvo. 

    Em 1929, o mundo ainda estava se recuperando da pandemia de gripe espanhola de 1918, e hoje infelizmente estamos passando por uma situação muito parecida, sem falar nos mercados instáveis e no crescimento do nacionalismo no mundo todo. Em 2012, quando comecei a montar essa história, eu me perguntava até quando ela seria atual, mas infelizmente hoje é mais atual que nunca, e agora a série tem uma profundidade maior quando você assiste. A situação parece muito poderosa e palpável, mas também existe esperança.

    Como foi ver o elenco dar vida a esses personagens?

    MILLAR: Já passei por isso algumas vezes com as minhas outras franquias, vendo Eggsy em Kingsman, Dave em Kick-Ass: Quebrando Tudo e James McAvoy personificando Wesley em O Procurado, mas nunca deixa de ser empolgante. Quando a Marvel adaptou as minhas histórias foi um pouco diferente, porque eu não criei aqueles personagens, mas vem uma sensação quase paternal quando são suas próprias criações naquele palco. 

    Eu queria abraçar todos ao mesmo tempo. Os atores adicionaram camadas à história. É um elenco brilhante de atores de qualidade, dos palcos e das telas, e não existe um único que não seja bom. Super-heróis podem parecer muito bobos por natureza, então os atores precisam se esforçar ainda mais para nos fazer acreditar neles, e esse elenco foi incrível.

    A história se desenvolve em duas épocas diferentes, e isso nos deu a chance de fazer um pequeno comentário sobre como os gibis mudaram ao longo do tempo, desde quando os heróis eram quase que só homens brancos até hoje, que refletem melhor o mundo à nossa volta. Queríamos uma representação consciente do nosso mundo de hoje na nova geração de super-heróis.

    Como você acha que O Legado de Júpiter vai ser recebido pelos fãs dos quadrinhos e também pelos novos públicos que ainda não conhecem essa história?

    MILLAR: Lembro que, quando eu tinha oito anos, Superman – O Filme estreou. Eu mal podia acreditar que estavam fazendo o salto dos quadrinhos para a tela. Fiquei muito empolgado, e aquela sensação nunca mais me abandonou. Para quem gosta dessas coisas, ver aquilo articulado em três dimensões é incrível. 

    Hoje em dia, vivemos em um mundo que conhece super-heróis muito bem. Quando era pequeno, eu era o único no bairro que sabia que Tony Stark era o Homem de Ferro. Hoje, minha tia de 75 anos sabe que o Tony Stark é o Homem de Ferro e que a namorada dele é a Pepper Potts. Já podemos ir além das narrativas simples porque o público já consegue lidar com os super-heróis. Existe uma ânsia por uma complexidade mais intensa. Cinco anos atrás teria sido muito difícil fazer O Legado de Júpiter. Há vinte anos, seria algo impensável. Então ter algo grandioso assim, tão atual e tão bem feito, vai ser incrível para o público. 

    Tradicionalmente, leva quarenta anos para essas histórias receberem uma adaptação de grande orçamento. Superman foi criado em 1938, mas só chegou às telonas em 1978. A mesma coisa com o Homem-Aranha, o Hulk, os X-Men e o Batman. A média tem sido quarenta anos, mas com O Legado de Júpiter foram menos de oito anos. 

    Da mesma forma que com Kick-Ass e Kingsman, eu me senti mimado, mas a proximidade é empolgante. E, como eu estava lá na Netflix como produtor, acho que os fãs vão gostar de ver como eu pude colocar a mão na massa no processo. Fizemos as edições finais mês passado, e assisti à série inteira três vezes semana passada. Foi tudo feito com muito amor, e conseguimos um resultado do qual todos temos um orgulho imenso.

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