Especial dublagem: Conheça o processo e como se tornar um dublador

"Hoje o mercado está bombando, temos trabalho para muitas mídias"

17/04/2020 19h02 (Atualizado em 28/09/2020 16h43)

Por Daniel Reininger

Com tantas séries de TV nos canais pagos e streaming, aumentou muito a demanda por dubladores, que fazem um trabalho incrível, quando o processo é profissional. E existe muito trabalho bem feito no Brasil, tanto que diversos personagens ficaram marcados pela voz do dublador e não pela do ator original. Conversamos com três profissionais para entender melhor esse processo que leva o português às produções estrangeiras e deixa tudo mais acessível e divertido.

O processo de dublagem

Você sabe como funciona? Bem, tudo começa bem antes do texto ser interpretado por atores. Primeiro, o material original é traduzido. Depois, texto e filme são entregues ao diretor que vai assistir e mapear as cenas dos personagens. "Nesse momento o diretor escala o elenco e determina o tempo de estúdio para cada dubladora. Após a escalação, a gravação é feita", explica Renan Freitas, conhecido por viver Finn, de Star Wars: A Ascensão Skywalker, e John Snow, de Game Of Thrones, que trabalha há mais de 25 anos na área.

Tecnologia ajuda muito. "O processo é bem rápido. Entro no estúdio, onde encontro meu texto. Lá, o diretor de dublagem indica pelo fone o loop (ou anel, como é chamada a situação mostrada na cena) em que meu personagem se encontra. O operador coloca na tela a minutagem. Vejo a cena duas vezes e na terceira gravo. Se ficar legal, passa-se para o loop/anel seguinte", explica Hector Gomes, conhecido por viver Tucker, de Izombie e Jake, de The Good Doctor e trabalha na área há cinco anos.

São muitos elementos no estúdio em volta do dublador: fone de ouvido, microfone, texto, vídeo da cena, mas, com a prática, tudo se torna mais natural. "É como aprender a dirigir, porque tem muita coisa para controlar ao mesmo tempo e a dublagem é mais ou menos assim até pegar o jeito", diz Flavio Back, conhecido por viver o Leôncio, de Pica-Pau, e o Charles Boyle, de Brooklyn Nine-Nine e com mais de 25 anos de trabalhos na dublagem.

Cena de Game of Thrones



Desafios da Dublagem

A dublagem em si já é um desafio e na maioria dos casos o ator nem mesmo sabe quem vai interpretar. "Não saber o que vamos dublar é um dos desafios, mas tem também a questão de como cada pessoa fala e respira", explica Back.

No caso de um reality show, por exemplo, são pessoas normais conversando sem texto decorado. "É preciso respirar com elas, entender o contexto para passar com a mesma emoção e espontaneidade", afirma Back.

Encontrar o "tom" do personagem é outra grande dificuldade. "É preciso achar o ponto de naturalidade da voz. É dar a sensação de que a língua original da produção é o português. Esse é um grande diferencial", diz Hector.

E não é só isso. "É preciso conseguir passar a emoção certa apenas com a voz em um tempo determinado por outro ator", afirma Freitas.

 

Dublador Hector Gomes

Dublador Hector Gomes posa para foto no estúdio


Avanço tecnológico

A forma de intepretação pode continuar quase a mesma, mas a tecnologia mudou. E hoje é tudo muito mais rápido. "Tudo era analógico e agora é digital, o próprio operador de áudio pode encaixar as falas no lugar certo", diz Flavio Back.

É possível ser mais ágil, mas é preciso cuidado. "Hoje cada dublador grava separado. Ganhamos tempo e qualidade de captação de áudio, mas precisamos tomar cuidado pra não ficar um trabalho robótico sem a interação com os outros colegas de cena. O diretor precisa de muita atenção pra auxiliar o dublador", explica Freitas.


"Antigamente, se um dublador errasse, era preciso voltar para o início da cena e gravar de novo. Era um processo cansativo e trabalhoso, mas muito gratificante por causa da interação real entre os dubladores", complementa Freitas.

Mercado brasileiro

Com os canais a cabo e o streaming, aumentou a demanda. "Hoje o mercado está bombando, temos trabalho para muitas mídias. Como games e produções para o cinema. Há dez, 15 anos isso não acontecia", explica Freitas. "E tudo tem mais urgência", completa Gomes.

Cena de Brooklin Nine Nine

No Brasil, falta a valorização da dublagem. "Nosso trabalho perde força, pois cada cidade trabalha diferente", explica Freitas.

A dificuldade é maior fora dos centros do sudeste. "Atualmente, RJ e SP têm um valor semelhante de cachê pago, algo conquistado com muita luta por gente que nem está mais aqui conosco. Estúdios de outros locais acabam usando o sonho de jovens atores de se tornarem dubladores para pagar pouco a fim de baratear o custo, mas quando isso acontece a qualidade pode cair, mas o problema mesmo é desvalorização", explica Gomes.

E outra novidade é a grande exigência por confidencialidade. "Não podemos mais falar sobre o trabalho que fazemos, existem regras até para entrar no estúdio, não podemos entrar com celular. Essas são as maiores diferenças", conta Back. "Não é mais permitido nem assistir outros dubladores, algo mega importante para o início de carreira", completa Gomes.


Inspirações

O Brasil tem grandes nomes na área, que imortalizaram personagens clássicos e obviamente nossos entrevistados têm seus ídolos.

"Sempre gostei muito de ver desenho. Gosto do trabalho de Mario Jorge, Helio Ribeiro, Monica Rossi, Paulo Flores, Seu Drummond. Lembro que quando eu era criança queria imitá-los. Cheguei a trabalhar e até dirigir alguns deles. Pareço fã quando os vejo, fico até nervoso", conta Back.

"Admiro Hélio Ribeiro e o finado Waldyr Santana, que protagonizaram um dos momentos memoráveis da dublagem: Na cena da barbearia de Um Príncipe Em Nova York, eles fizeram 3 personagens cada, interagindo uns com os outros. É a coisa mais linda", conta Hector Gomes.

Cena da Barbearia de Um Príncipe em Nova York

"Muitas pessoas são inspiração pra mim. Temos ótimos dubladores no mercado. Mas destacaria: Jorge Lucas, Priscila Amorim, Reginaldo Primo, Claudio Galvan, Marcia Morelli. Vejo neles muito do que eu faço", explica Freitas.

Bastidores

Já parou para pensar como é grava a dublagem de um beijo? "Quando o ator beija na cena original, nós beijamos nossa própria mão pra reproduzir o som. Fica uma coisa engraçada de se ver. Um maluco beijando a mão no estúdio (risos)", conta Freitas.

E até na hora da escalação do elenco existem situações curiosas. "Acho engraçado os personagens que sou chamado para dublar. Sou negro de Black Power, porém, mais de 60% dos trabalhos que faço são de loiros de olhos azuis. De preferência, com cara de bobo", finaliza Hector Gomes.

E sem falar em situações engraçadas no estúdio. "Em 1998, enquanto os dubladores dividiam bancada, eu e mais alguns amigos, crianças na época, fizemos um "trote" com Caio Cesar (Harry Potter). Dublávamos o filme "Jack" (com Robin Willians) e em uma cena de basquete falamos para o Caio (novato na época) bater palma junto com o personagem. Detalhe: a gente não pode fazer nenhum barulho além da fala. E obviamente o diretor parou a gravação e todos riram. Caio ficou sem entender nada (risos)", conta Freitas.

Relação com o público

Com as redes sociais, a proximidade com os fãs ficou muito maior. "Hoje, com a internet, nossa voz ganhou rosto. Conseguimos ter uma resposta muito rápida do nosso público. Trocamos experiências de como é dentro do estúdio, curiosidades dos bastidores e a interação é maravilhosa", conta Freitas

"Normalmente, os fãs de dublagem são os que sabem o que você dublou, mas sempre está lá o querido guerreiro da internet", conta Hector Gomes.

"Faço esse trabalho por amor e dedicação aos fãs, então é ótima", diz Back.

Quer ser dublador? Siga essas dicas:

Para se tornar dublador, é preciso entender que essa é uma profissão autônoma, com pagamento de cachê por hora de trabalho. Existem por volta de 30 estúdios em São Paulo e 20 no Rio de Janeiro, além de alguns em outros estados. É preciso ter o registro de ator e curso da área, além de ser preciso convencer um diretor de que você é a pessoa certa para o papel. "Como em toda profissão, é preciso buscar se especializar", explica Gomes.

"Dublar é uma das ferramentas do ator. Costumo dizer que não adianta ter 'voz bonita' e sim ser um ótimo ator. Um bom curso de dublagem ajuda a interpretar apenas com a voz. E só a pratica leva a perfeição. Com isso em dia, vale procurar um estúdio profissional e tentar um teste", dá a dica Freitas.


Deixe seu comentário
comments powered by Disqus