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    Festival em Floripa abre janela para filmes do Mercosul

    Por Celso Sabadin, de Florianópolis
    17/06/2010

    Todo artista tem que ir onde o povo está. E todo Festival de cinema também. O FAM – Florianópolis Audiovisual Mercosul – sabe de cor e salteado a letra desta música: diariamente, todos os 1.400 lugares do Centro de Cultura e Eventos da Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, ficam lotados para as exibições dos curtas e longas que compõem o evento.

    “Venho aqui todas as noites do Festival. É a única chance de ver filmes destes países”, ouço alguém comentar com os colegas, na fileira bem atrás de mim. Estes “outros países” a quem o anônimo se refere são “nuestros hermanos” da Argentina, Paraguai, Uruguai e Chile, vizinhos na Geografia, mas que parecem estar a milhões de quilômetros de distância quando o assunto é mercado cinematográfico.

    “É uma pena o circuito exibidor brasileiro estar lotado por produções norte-americanas, enquanto nós ficamos totalmente no escuro em relação ao que se produz aqui pertinho”, diz o mineiro Gilberto Scarpa, diretor do curta “O Filme Mais Violento do Mundo”, que passa hoje aqui no FAM. Neste sentido, o Festival é uma janela importante que nos permite espiar – pelo menos por alguns dias – a recente produção dos países do Mercosul.

    Quarta-feira de emoções chilenas

    Na noite desta quarta-feira (16/6), o lotado auditório do Centro de Cultura e Eventos da UFSC aplaudiu quatro curtas e um longa. A sessão foi iniciada com o curta cearense Fractais Sertanejos, de Heraldo Cavalcanti. Este documentário poético afetivo mostra a incrível história de um operário da construção civil que se torna escultor após passar por um coma. Impossível não se arrepiar com a cena onde o homem cai no choro, emocionado pela exuberância da natureza do lugar onde vive.

    Em seguida foi a vez do baiano Nêgo Fugido, de Cláudio Marques e Marília Hughes. Já aplaudido em outros festivais, o curta tem um tom encantadoramente perturbador, e mostra a relação de um casal de turistas que se envolve – talvez um pouco além do previsto - numa apresentação folclórica tradicional no interior da Bahia.

    Em seguida foi a vez do carioca Rendez-vous, de Fernanda Teixeira. Em tom melancólico, e demonstrando ótimo domínio de câmera e direção, o filme retrata o cotidiano de um viúvo solitário que trabalha como Papai Noel, às vésperas do Natal.

    O último curta da noite veio do Paraguai: com uma marcante fotografia em preto e branco,  Karai Norte, de Marcelo Martinessi, é uma espécie de faroeste guarani, sobre uma idosa solitária que teme ser – novamente – assaltada por bandoleiros, no descampado interior do país.

    Na Mostra de Longas Mercosul, a noite foi chilena. Representando seu filme Ilusiones Opticas, a atriz Paola Lattus subiu ao palco, dizendo estar muito feliz por estar no Festival e - claro - por seu país ter vencido Honduras na tarde desta quarta (16/6), pela Copa do Mundo. Como sempre acontece quando o assunto é futebol, foi aplaudida pelo público.

    O filme também mereceu aplausos. Ilusiones Opticas, longa de estreia de Cristián Jiménez, se utiliza com talento do conhecido estilo de contar várias histórias que se entrelaçam. Um esquiador faz uma operação para deixar de ser cego, mas fica cada vez mais descontente com o que começa a ver. Uma empresa de seguro saúde tenta usar o ex-cego como garoto propaganda de uma campanha publicitária que poderia tirá-la do buraco financeiro, mas enquanto a crise não passa, ela é obrigada a demitir funcionários e - de quebra - dá 50% de desconto para que seus empregados, em nome da auto-estima, possam fazer operações plásticas. Manuella, uma secretária que julga ter seios pequenos, adere ao programa de descontos, ao mesmo tempo em que seu irmão, um segurança de shopping, se apaixona por uma mulher rica, que por sua vez.... bom, por aí vai.

    O diretor e corroteirista Cristián Jiménez pode não ser nenhum Robert Altman, mas conta suas histórias com fluidez, bom ritmo, e um humor muito particular, repleto de sarcasmo e um sabor agridoce que mistura riso e melancolia. Um ótimo filme chileno, co-produzido com França e Portugal, que caberia muito bem no circuito brasileiro. Alguma distribuidora se habilita?

    * Celso Sabadin viajou a convite do Festival.