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    História do cinema nacional pelas décadas, movimentos e gêneros

    Cinema brasileiro é arte - e em momentos difíceis ele pode ainda mais nos inspirar e nos dar forças para lutar
    Por Da Redação
    18/06/2020 - Atualizado há 7 meses

    Ir ao cinema é uma das principais atividades culturais não só no Brasil, mas no mundo. Alguém conhece uma pessoa sequer que odeie assistir a um filme nas telonas? No entanto, apesar dessa paixão, o que poucas pessoas sabem é a (grandiosa) história da sétima arte, sobretudo a do cinema nacional.

    Tudo começou em dezembro de 1895, quando, em Paris, foi exibido o filme que deu início à história do cinema mundial: "Saída dos Trabalhadores da Fábrica Lumière". Por incrível que pareça, o cinema brasileiro não tardou muito a despertar. Bastaram-se apenas sete meses. Em julho de 1896, ocorreu a primeira exibição de um filme no Rio de Janeiro.

    Essa primeira exibição, claro, ficou para história, mas o verdadeiro marco que impulsionou o cenário brasileiro foi a abertura da primeira sala de cinema do país, também no Rio de Janeiro, por incentivo dos irmãos italianos Paschoal Segreto e Affonso Segreto. Talvez você nunca nem tenha ouvido falar neles, mas, foi essa dupla, que em 1898, realizou filmagens da Baía de Guanabara. Bastou. Eles se consagraram os pioneiros do cinema nacional.

    Já em São Paulo, a primeira exibição de uma filmagem aconteceu apenas no ano seguinte, em 1899, quando Paschoal Segreto realizou uma gravação para celebrar a unificação da Itália. E foi assim que o cinema paulista começava a engatinhar. Os passos, de fato, só chegaram no início do Século XX com a primeira sala de cinema sendo aberta na capital, o Bijol Theatre.

    Não há dúvidas: o movimento já estava dando as caras e tomando forma, porém tinha um pequeno detalhe atrasando o desenvolvimento da sétima arte no país. Ela tinha nome e sobrenome. Era a tardia falta de eletricidade, que somente foi resolvida em 1907, com a implantação da Usina Ribeirão de Lages, no Rio de Janeiro.

    Resolvido o problema, o número de salas cresceu consideravelmente: a capital carioca chegou a ter, naquele mesmo ano, cerca de 20 salas de exibição. Isso mesmo. Em pleno 1907 o cinema já fazia sucesso por aqui.

    Esse foi o início da construção de uma das expressões artísticas que melhor - e cada vez mais- retratam a cultura brasileira. 

    Século XX e a expansão do cinema nacional

    Bom, era assim pelo menos até 1914, quando, depois de muita experimentação, o português Francisco Santos exibiu o primeiro longa-metragem produzido no país. "O Crime Dos Banhados", este foi o nome escolhido para o primeiro filme brasileiro com mais de duas horas de duração. Evolução e tanto, não? Quando tudo era mato, as películas brasileiras eram no estilo de documentário. Foi então que em 1908 o cineasta luso-brasileiro, António Leal, apresentou "Os Estranguladores", considerado o primeiro filme de ficção brasileiro. Mas engana-se quem acredita que naquela época as produções se assemelhavam em algo com as de hoje. Nem a duração dá para comparar: os primeiros filmes tinham 40 minutos, no máximo.

    O ano de 1914 também foi muito importante mundialmente. Foi nele que se iniciou a Primeira Guerra Mundial, que se estenderia até 1918. O parque industrial europeu foi quase reduzido pela metade e a Europa deixava de ser o grande símbolo da prosperidade no mundo. Foi a partir de então que os Estados Unidos alcançaram a condição de grande potência.

    Com essas mudanças, o cinema nacional entrou em crise, sendo dominado por produções estadunidenses, devido ao surgimento da gloriosa Hollywood. Com a prosperidade do ocidente, na década de 1920, o audiovisual brasileiro ganhou visibilidade com as publicações das revistas de cinema "Para Todos", "Selecta" e a "Cinearte". O manifesto desses impressos eram voltados àqueles que "apreciam verdadeiramente o espetáculo cinematográfico" e "se interessam pelas coisas do cinema", com o objetivo de "formar mentalidades cinematográficas".

    Produções se espalharam por vários cantos do país, dando origem aos ciclos regionais. Na década de 1930, foi criado o primeiro grande estúdio no Brasil: a "Cinédia". Foi a primeira experiência de cinema industrial bem sucedida da história do cinema brasileiro.

    A Cinédia tinha, como principais objetivos, capacitar profissionais da indústria cinematográfica e favorecer as produções nacionais, seja criando condições para que elas, de fato, acontecessem ou auxiliando sua inserção no mercado exibidor. Para isso, modernizou equipamentos, técnicas, processos e estratégias comerciais, baseando-se, sobretudo, no modelo hollywoodiano.

    As produções mais importantes dessa época foram: "Limite" (1931), de Mario Peixoto; "A Voz Do Carnaval" (1933), de Adhemar Gonzaga e Humberto Mauro; e "Ganga Bruta" (1933), de Humberto Mauro.

    Duas companhias pioneiras: a Atlântida e Vera Cruz

    Desde a ascensão dos regimes fascistas ao poder até o último disparo, centenas de filmes foram produzidos tanto pelos países Aliados, quanto pelas potências do Eixo. De todos os centros de produção cinematográfica, Hollywood foi o mais emblemático. O cinema nacional surfou nessa onda.Assim como aconteceu na Primeira Guerra Mundial, o mundo sofreu consequências - válido dizer que ainda maiores - com a Segunda Guerra Mundial. Os dois lados do confronto exploraram o potencial mobilizador das telas de cinema, que uniu-se aos aparelhos de Estado, e serviu como discurso patriótico para a nação comprar a ideia da batalha.

    Durante o período, o destaque fica para a criação da companhia Atlântida Cinematográfica. Fundada em 18 de setembro de 1941, no Rio de Janeiro, por Moacyr Fenelon e José Carlos Burle, a Atlântida representou a primeira experiência de longa duração na produção cinematográfica brasileira voltada para o mercado, caracterizada principalmente pelas chanchadas, filmes de baixo orçamento, em que predominavam um humor ingênuo, burlesco, de caráter popular, com forte sátira ao produto estrangeiro.

    Ao longo dos dois primeiros anos de existência, a Atlântida Cinematográfica focou sua produção em cinejornais, como o Atualidades Atlântida, que lhes rendeu, sobretudo, visibilidade e experiência com obras mais realistas, com caráter de reportagem. 

    Não à toa, seu primeiro longa foi um documentário sobre o IV Congresso Eucarístico Nacional de São Paulo - que, aliás, deu nome ao filme, lançado em 1942. 

    Em seguida, no mesmo ano, a companhia produziu o média-metragem "Astros em Desfile", que trazia, em uma espécie de parada musical, nomes famosos da época, como Emilinha Borba e Luiz Gonzaga.

    Mas o primeiro grande sucesso veio já em 1943, apenas dois anos após a fundação da Atlântida. "Moleque Tião", dirigido por José Carlos Burle, trazia Grande Otelo no papel principal e era inspirado na vida do ator que mais tarde se consagraria como um dos maiores astros da companhia e do cinema nacional.

    Com esse filme, a Atlântida abriu caminho para produções que se voltavam às questões sociais e não tardou em se consolidar como a maior produtora cinematográfica do Brasil.

    Entre 1943 e 1947, foram produzidos 12 filmes pela companhia, inclusive clássicos como "Gente Honesta", de Moacir Fenelon, com Oscarito, e "Tristezas Não Pagam Dívidas", de José Carlos Burle, onde Oscarito e Grande Otelo atuaram juntos pela primeira vez.

    Outro astro do cinema brasileiro também viu seus dias de ascensão graças ao espaço calcado pela Atlântida: o diretor Carlos Manga, que, em 1953, dirigiu seu primeiro filme junto à companhia - "A Dupla Do Barulho". O longa foi seguido por "Nem Sansão Nem Dalila" e "Matar Ou Correr", faroeste tropical que mais uma vez levou a dupla Oscarito e Grande Otelo para as telonas.

    Além deles, a Atlântida congregou as estrelas Anselmo Duarte, Eliana, Cyll Farney e seu irmão, o cantor Dick Farney, e o diretor Watson Macedo. 

    Deste, merecem citação os filmes "Não Adianta Chorar" e "Este Mundo É Um Pandeiro", de Watson Macedo, além de "Segura Esta Mulher", de José Carlos Burle, que estabeleceram o padrão das chanchadas - gênero no qual a companhia se destacava.

    Marcada pela paródia da cultura estrangeira e do cinema hollywoodiano, ao mesmo tempo em que se preocupava em expor as mazelas da vida pública e social do país, a chanchada se tornou a marca registrada da Atlântida, atravessando toda a década de 50.

    A companhia produziu um total de 66 filmes até 1962, quando interrompeu suas atividades.

    Outra companhia que marcou a história do Cinema Nacional foi o estúdio Vera Cruz, criado em 1949.

    Baseado no modelo hollywoodiano de produções mais sofisticadas, o estúdio teve Mazzaropi como seu artista de maior sucesso e o filme "O Cangaceiro" (1953) como principal marco de sua história, já que ele foi a primeira produção brasileira a ganhar o Festival de Cannes.

    Porém, a Vera Cruz não teve vida longa e faliu em 1954. 

    Nesse mesmo ano, foi produzido o primeiro filme nacional a cores: "Destino Em Apuros", de Ernesto Remani. 

    Também na década de 1950 foi criada a primeira emissora de televisão do Brasil, a "Tevê Tupi". Com o fim do estúdio, muitos atores da Vera Cruz passaram a atuar na emissora.

    Cinema nacional nas décadas de 1960 e 1970

    Com a sociedade dividida, em 1960, Jânio Quadros, que sucedeu JK na presidência do Brasil, deu ênfase a dois problemas a serem resolvidos, caso fosse eleito, em sua campanha: a ineficiência governamental e a crise financeira que o país vivia.Lembra das aulas de História sobre a Guerra Fria? O mundo ficou dividido entre os ideais do capitalismo e do socialismo, causando tensão principalmente entre os Estados Unidos e a União Soviética. Na década de 1950, Juscelino Kubitscheck era o presidente do Brasil e tinha uma postura que favorecia os norte-americanos e a industrialização massiva do país. Parte da população, por outro lado, discordava dessa postura.

    Ele era como a "esperança" do "povo abandonado" e tinha como símbolo uma vassoura. De fato, ele prometia "varrer a corrupção do país". Com um país polarizado ideologicamente e enfrentando crises governamentais e financeiras, surgem alguns dos movimentos mais emblemáticos do cinema nacional, que se estenderiam pelos anos mais duros da Ditadura Militar: o Cinema Novo, Cinema Marginal e as Pornochancadas.

    Cinema Novo, Marginal e Pornochanchadas

    O Cinema Novo focava em temáticas de cunho social e político, com fortes características revolucionárias. Na década de 1950, já foram produzidos filmes considerados precursores desse estilo, como "Rio 40 Graus" (1955), de Nelson Pereira dos Santos. No entanto, os mais emblemáticos são as produções do baiano Glauber Rocha: "Deus E O Diabo Na Terra Do Sol" (1964) e "O Dragão Da Maldade Contra O Santo Guerreiro" (1968).

    De 1968 a 1970, especificamente, surge o Cinema Marginal, ou "Údigrudi". Essas produções estavam bastante alinhadas ao movimento de contracultura e também ao tropicalismo. No exterior, a contracultura nasceu do desejo de uma felicidade individual, simples, distante da sociedade de consumo e do moralismo.

    No Brasil, havia a cultura engajada dos Centros Populares de Cultura, que continha uma intensa militância política na qual uma parte do movimento da bossa nova evoluiu para as canções de protesto. Por outro lado, havia a cultura de consumo, representada pela Jovem Guarda e baseada na cultura do rock.

    No meio do caminho, entre essas duas correntes, surgiu o Tropicalismo, movimento liderado por Caetano Veloso, Gilberto Gil e inspirado no antropofagismo das vanguardas modernistas brasileiras dos anos 20. O Údigrudi bebia nessa fonte e sofreu grande censura por parte do regime militar, por seu caráter experimental e radical. Um filme de grande destaque foi "O Bandido Da Luz Vermelha" (1968), dirigido por Rogério Sganzerla, e as maiores produtoras foram a "Boca do Lixo", em São Paulo e a "Belair Filmes", no Rio de Janeiro.

    Por outro lado, em 1969, é criada a Embrafilme (Empresa Brasileira de Filmes), apoiada pelo governo ditatorial e com a finalidade de usar o cinema como uma importante ferramenta de controle estatal. Nesse contexto, o Estado passa a financiar as principais produções cinematográficas.

    Na sequência dos anos 1970, em São Paulo, as produções de baixo custo do movimento "Boca do Lixo" começam a produzir as pornochanchadas. Talvez o gênero mais emblemático da história do nosso cinema. Baseada nas comédias italianas e com forte teor erótico, à exemplo de "A Viúva Virgem" (1972), do cineasta Pedro Carlos Rovai, as películas dessa corrente duraram até o fim da década de 1980.

    Por fim, ainda que a produção cinematográfica tenha sofrido oscilações do meio para o encerramento da década de 1970, filmes como "Dona Flor E Seus Dois Maridos" (1976), do cineasta Bruno Barreto, e filmes de comédias, com a turma dos Trapalhões, por exemplo, faziam bastante sucesso.

    Cinema nacional nas décadas de 1980 e 1990

    Em 1975, funcionavam 3.276 salas de cinema ao redor do país, mas esse número foi diminuindo ao longo dos anos, até chegar a apenas 1.033 em 1995.O começo da década de 1980, para o cinema nacional, é desastrosa. O primeiro motivo é a chegada do videocassete e a proliferação das locadoras. Depois vem o fim da ditadura e a crise econômica. Ocorreu um expressivo aumento das dívidas interna e externa e o processo inflacionário atingiu altos patamares. Assim, os produtores não tinham dinheiro para produzir seus filmes, e os espectadores, da mesma forma, já não tinham condições para ir aos cinemas.

    Mas, ainda assim, o cinema nacional não enfraqueceu totalmente. Algumas produções merecem destaque, tais quais: "O Homem Que Virou Suco" (1980), de João Batista de Andrade; "Jango" (1984), de Sílvio Tendler; "Cabra Marcado Para Morrer" (1984), de Eduardo Coutinho; "Pixote - A Lei Do Mais Fraco" (1980), de Hector Babenco; e "Ilha Das Flores"(1989), de Jorge Furtado, talvez o que mais tenha marcado época e que, aliás, continua muito atual.

    Afinal, o filme explora, com bastante ironia e acidez, as diversas contradições da sociedade de consumo - tema atual mesmo 3 décadas depois. 

    Mais do que isso, porém, “Ilha das Flores” foi considerado um dos cem melhores filmes brasileiros de todos os tempos pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) graças à sua inovação em termos de linguagem ao antecipar, segundo seu diretor, “questões relacionadas à velocidade e ao hipertexto”.

    E por falar em descarte, em 1990, com a chegada de Fernando Collor no poder, a situação ficou dramática para o cinema nacional. Além das privatizações, o novo presidente extingue o Ministério da Cultura, e acaba com a Embrafilme, o Concine e a Fundação do Cinema Brasileiro.

    Mas lembrando: cinema é arte - e em momentos difíceis ela pode ainda mais nos inspirar e nos dar forças para lutar.

    Cinema de Retomada

    É na segunda metade da década de 1990 que o cinema retoma sua musculatura. Esse período ficou conhecido como Cinema de Retomada.

    Ainda que tenha promulgado o mais importante mecanismo de incentivo à cultura até hoje - a Lei Rouanet -, a renúncia de Collor foi o que permitiu que o cinema nacional voltasse a respirar. 

    Mas ele não foi o único a trazer iniciativas de fomento ao Cinema. Sucedendo-o na presidência, Itamar Franco promulgou a Lei do Audiovisual - uma lei de incentivo fiscal mais específica para o setor - e Fernando Henrique Cardoso, que sucedeu Franco, deu continuidade às políticas estatais de incentivo à cultura, possibilitando, mesmo que minimamente, que as produções cinematográficas resistissem.

    O filme que marcou o início do movimento de Retomada foi "Carlota Joaquina - A Princesa Do Brazil" (1995), de Carla Camurati. Foi, também, o primeiro filme nacional da década a levar mais de 1 milhão de pessoas ao cinema. 

    E, de modo geral, podemos dizer que foi um período prolífico para o Cinema no Brasil.  Durante o período de oito anos, chegaram aos cinemas mais de 180 longas, com pelo menos 10% deles alcançando mais de 500 mil espectadores. 

    Além disso, o público que foi às salas de cinema prestigiar um longa brasileiro subiu de cerca de 800 mil, em 1996, para mais de 22 milhões, em 2003.

    Nessa década, merecem destaques as produções: "O Quatrilho" (1995), de Fábio Barreto; "O Que É Isso, Companheiro?" (1997), de Bruno Barreto; e, principalmente, "Central Do Brasil" (1998), dirigido por Walter Salles. São filmes que definitivamente marcam o Cinema de Retomada, principalmente por terem atravessado fronteiras, ganhado bastante projeção internacional e pelo refino técnico que o cinema nacional começava a receber.O gradativo aumento dos festivais de cinema foi outro elemento importante para essa divulgação do cinema nacional, bem como o acesso facilitado aos equipamentos cinematográficos, além, claro, de uma produção maior de filmes mais voltados para as massas. Houve também o deslocamento do eixo Rio-São Paulo de produção para outras partes do país e a revisitação do sertão e da favela, presentes em movimentos artísticos do passado.

    Cinema nacional nas décadas de 2000 e 2010

    No começo do novo milênio, surgiu o conceito de Cinema Popular Brasileiro. É um movimento orientado por cifras, mas, apesar disso, não significa que seja algo ruim ou sem qualidade.

    Mesmo que mais pessoas possam "ir ao cinema", os números das bilheterias deixam de fora toda uma parcela do público que tem acesso aos filmes brasileiros fora do circuito tradicional, através de mostras e festivais - muitas vezes criadas justamente para atender àqueles que não moram em grandes centros e, portanto, não têm acesso a muitas salas de cinema. Esse aspecto, por sua vez, acaba forçando essas salas a transmitirem apenas os filmes que vão trazer maior retorno financeiro, a fim de que a indústria possa recuperar os investimentos no filme.

    Porém, popularidade não é determinada apenas pelo número de pessoas que assistiram ao filme, mas também pelo quanto essa pessoa gostou e se envolveu com o filme. Feita essa reflexão, analisemos o movimento.

    A primeira característica das maiores bilheterias dos anos 2000 é daqueles filmes que buscam representar um determinado aspecto da nossa sociedade.

    Destaque para: "Cidade De Deus" (2002), de Fernando Meirelles; "Carandiru" (2003), de Héctor Babenco; "Cazuza - O Tempo Não Para" (2004), de Sandra Werneck e Walter Carvalho; "Olga" (2004), de Jayme Monjardim; "Dois Filhos de Francisco" (2005), de Breno Silvera; "Tropa De Elite" (2007), de José Padilha; "Enquanto A Noite Não Chega" (2009), de Beto Souza e Renato Falcão; "Tropa De Elite 2" (2010), também de José Padilha; e "Que Horas Ela Volta?" (2015), de Anna Muylaert.

    Destaque também para, em 2001, a criação da Ancine (Agência Nacional do Cinema), órgão oficial do governo federal, constituída como agência reguladora, cujo objetivo é fomentar, regular e fiscalizar a indústria cinematográfica brasileira.

    Do riso ao choro: os principais gêneros do cinema nacional

    Até a década de 1990, o experimentalismo era o que dominava o cinema nacional. Diálogos cartunescos e exagerados e uma sexualização exacerbada. Essa última característica conseguiu se destacar mais do que todas as outras, sendo que nos anos 70 chegou a bombar com as pornochanchadas.

    Com o movimento de Retomada, o centro das produções nacionais começou a ganhar novas vertentes de produção e de conteúdo. A ditadura militar, e sua repercussão, criaram uma nova necessidade artística: a de expressar tudo aquilo que estava entalado na garganta de diretores e artistas que sofriam com a opressão governamental. 

    Eis, então, que o cinema brasileiro deu um passo à frente, investimento em uma linguagem mais orgânica, realista - que visava expor o Brasil para o próprio Brasil. Foi disso que nasceu um dos maiores estigmas da indústria cinematográfica brasileira - a presença de pobreza e miséria na maior parte de nossas produções. 

    Mas, em contraste, é também dessa iniciativa que surge um país colorido, vibrante, explorando regiões antes ignoradas, como o nordeste. A trilha sonora dos filmes passa a ter funções que vão além das cinematográficas, se estendendo para fora da telas como produções que se sustentam sozinhas, comercialmente.

    E essa nova onda do cinema brasileiro conseguiu afastar um pouquinho a rejeição que muitas pessoas nutriam por nossas produções, bem como o fantasma da chanchada - caracterizada por estruturas mais engessadas e que pouco inovavam em suas histórias.

    O filme "Cidade De Deus" (2002) pode ser considerado o marco final da Retomada, porque deu início às produções baseadas na inquietação diante das injustiças nas grandes cidades, como o crime e a miséria. Durante essa década houve um crescente investimento na cultura e obras de cunho crítico ampliou o reconhecimento internacional.

    Esta fase, chamada de Pós-Retomada (porque deriva da Retomada) teve início com o que os críticos chamavam de "Favela Movie", cujas característica principal é a mistura da violência, da miséria e do cotidiano nas favelas com a ação policial “heroica”. 

    São destaque desse gênero filmes como "Carandiru" (2003), de Hector Babenco e "Tropa De Elite" (2007) e "Tropa De Elite 2" (2010), de José Padilha - produções de alto investimento e com uma narrativa realista, que ganharam o mundo por retratarem, de acordo com seus espectadores, “o Brasil como ele é”.

    Já o horror no cinema brasileiro brinca com diversas linguagens, se caracterizando como um dos gêneros mais experimentais do país.

    Temos o horror tradicional e explícito (visto em "Condado Macabro", "O Diabo Mora Aqui", "Morto Não Fala"), o surrealista ("O Fim Da Picada"), o existencialista ("A Noite Amarela"), bem como as comédias e paródias (como "Exterminadores do Além contra A Loira do Banheiro"). 

    Podemos atribuir parte dessa “paixão pelo experimento” ao fato de a grande maioria de seus diretores serem jovens cineastas afinados com o novo cinema e com um vastíssimo repertório à disposição, principalmente depois da internet.  

    Isso resulta numa combinação altamente favorável para o Cinema, onde realizadores inspirados por seus antecessores buscam, mesmo que prestando suas homenagens, uma linguagem própria e autoral.

    O resultado são filmes que, embora se definam como “horror”, são tão dúbios sobre suas narrativas e propostas artísticas que provocam dúvidas até mesmo sobre sua classificação como gênero.

    No entanto, é indiscutível que o gênero mais popular entre os brasileiros, ao longo da história do Cinema Nacional, foi - e é, até hoje - a comédia. Afinal, se a vida é uma grande ironia, esse fator é mais efetivamente captado pelo olhar cômico do que pelo olhar mais reflexivo dos dramas, por exemplo.

    A ideia dos produtores, ao que parece, é: por que gastar mais em filmes mais arriscados se a atual fórmula continua funcionando muito bem? Se o objetivo final de produtores é alargar cada vez mais a diferença entre valor de produção e lucro final, o público brasileiro já provou algumas vezes que, quando é surpreendido, atende de maneira bem mais satisfatória a esse anseio específico de cinema como negócio.

    Para colocar em perspectiva: "Tropa De Elite 2" (2010) custou R$ 14,5 milhões e lucrou mais de R$ 100 milhões. O efeito colateral dessa aposta (investir mais esperando maior retorno) é especialmente benéfico para a história do cinema nacional a longo prazo. Temos - e teremos cada vez mais - filmes mais diversos ocupando as salas. Se o público responder à altura, investir mais e melhor pode deixar de ser apenas risco para virar regra.

    A comédia no cinema nacional

    O humor é uma importante expressão da cultura popular brasileira. Prova disso é que, desde os anos 1950, comédias atraem público o bastante não só para se autofinanciar, mas também gerar lucro - o que justifica o apreço dos estúdios pelo gênero.

    Não à toa a pornochanchada foi um dos subgêneros mais famosos do país, especialmente quando suas produções davam um passo além do chiste. 

    Filmes como "Como Era Boa a nossa Empregada" (1973) e "Ainda Agarro Essa Vizinha" (1974), que zombam da classe média, satirizando seus “valores vazios” e seu falso moralismo, encantaram o público, sobretudo, por rir de situações com as quais a maioria se identifica.

    Nesse sentido, as comédias brasileiras atuais não se diferenciam muito, ainda que mais desprendidas do teor sexual das produções da década de 50. Elas continuam tocando na ferida das classes mais altas, se infiltrando no cotidiano da classe popular e, acima de tudo, forçando os espectadores a rirem de si mesmos.

    Alguns dos principais filmes de comédia nacionais são:

    O Quatrilho (1995)

    Sinopse: Rio Grande do Sul, 1910. Em uma comunidade rural composta por imigrantes italianos, dois casais muito amigos se unem para poder sobreviver e decidem morar na mesma casa. Mas o tempo faz com que a esposa (Patricia Pillar) de um (Alexandre Paternost) se interesse pelo marido (Bruno Campos) da outra (Glória Pires) e é correspondida. Após algum tempo, os dois amantes decidem fugir e recomeçar outra vida, deixando para trás seus parceiros, que viverão uma experiência dramática e constrangedora, mas nem por isto desprovida de romance.

    O enredo de “O Quatrilho”, segundo filme brasileiro indicado ao Oscar na história do cinema nacional, é baseado em uma história real e, inclusive, figura José Clemente Pozenato, autor do livro no qual o roteiro foi baseado, como um personagem ao final do longa. Não só isso: o próprio diretor do filme, bem como alguns membros de sua família do diretor aparecem em pequenos papéis. É, também, o segundo de 3 filmes que o diretor Fábio Barreto e a atriz Glória Pires fizeram juntos. Os outros foram "Índia, a Filha do Sol" (1982) e "Lula, o Filho do Brasil" (2010).

    O Auto Da Compadecida (2000)

    Sinopse: João Grilo (Matheus Natchergaele), um sertanejo pobre e mentiroso, e Chicó (Selton Mello), o mais covarde dos homens, lutam pelo pão de cada dia e atravessam por vários episódios enganando a todos do pequeno vilarejo de Taperoá, no sertão da Paraíba. A salvação da dupla acontece com a aparição da Nossa Senhora (Fernanda Montenegro). Adaptação da obra de Ariano Suassuna.

    “O Auto da Compadecida” era para ser apenas uma minissérie de 4 capítulos da Globo, transmitida em janeiro de 1998. Mas, por conta do sucesso entre público e crítica, a produção foi adaptada para os cinemas, atraindo mais de 2 milhões de espectadores.

    O longa foi considerado o 63º melhor filme brasileiro de todos os tempos pela Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ganhou 4 estatuetas no 2º Grande Prêmio Cinema Brasil, de 2001, sendo elas: Melhor Diretor, Melhor Ator (Matheus Natchergaele), Melhor Roteiro e Melhor Lançamento.

    Lisbela E O Prisioneiro (2003)

    Sinopse: Lisbela (Débora Falabella) é uma moça que adora ir ao cinema e vive sonhando com os galãs de Hollywood. Leléu (Selton Mello) é um malandro conquistador, que em meio a uma de suas muitas aventuras chega à cidade de Lisbela. Após se conhecerem eles logo se apaixonam, mas há um problema: Lisbela está noiva. Em meio às dúvidas e aos problemas familiares que a nova paixão desperta, há ainda a presença de um matador (Marco Nanini) que está atrás de Leléu, devido a ele ter se envolvido com sua esposa (Virginia Cavendish).

    O diretor Guel Arraes já era conhecido pelas minisséries "O Auto da Compadecida" (2000) e "Caramuru - A Invenção do Brasil" (2001), que, embora tenham sido adaptadas para filmes, foram originalmente pensadas para as telinhas. Sendo assim, podemos considerar "Lisbela e o Prisioneiro" como sua estreia nos cinemas, que foi tão bem recebida quanto suas demais produções, lucrando cerca de R$ 20 milhões nas bilheterias.

    Em 2004, o filme foi outorgado com dois prêmios no Grande Prêmio Cinema Brasil: um foi o de Melhor Ator (Selton Mello) e o outro de Melhor Trilha Sonora (André Moraes). Porém, contava com dez indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Figurino, Melhor Maquiagem, Melhor Montagem e Melhor Som. 

    Ó Paí, Ó (2007)

    Sinopse: Em um animado cortiço do centro histórico do Pelourinho, em Salvador, tudo é compartilhado pelos seus moradores, especialmente a paixão pelo Carnaval e a antipatia pela síndica do prédio, Dona Joana (Luciana Souza). Incomodada com a farra dos condôminos, Dona Joana decide puni-los, cortando o fornecimento de água do prédio. A falta d'água faz com que o aspirante a cantor Roque (Lázaro Ramos); o motorista de táxi Reginaldo (Érico Brás) e sua esposa Maria (Valdinéia Soriano); e o travesti Yolanda (Lyu Arisson), amante de Reginaldo, por exemplo, se confrontem e se solidarizem perante o problema.

    "Ó paí, ó" é o 8º dos 9 filmes em que os atores Wagner Moura e Lázaro Ramos atuaram juntos. O longa também conta com a participação de atores do Bando de Teatro Olodum, que encenam o texto nos palcos, e descobertas da atuação brasileira, como o intérprete de Cosme, Vinicius Nascimento, que a diretora conheceu por acaso enquanto voltava de uma visita às locações do filme em Salvador.

    De Pernas Pro Ar (2010)

    Sinopse: Alice (Ingrid Guimarães) já passou dos 30, é casada com João (Bruno Garcia), tem um filho e é uma executiva bem sucedida. Na verdade, ela é uma típica workaholic, que tenta se equilibrar entre a rotina de trabalho e a família, mas perde o emprego e o marido no mesmo dia. É quando ela passa a contar com a ajuda da vizinha Marcela (Maria Paula), que mostra que é possível ser uma profissional de sucesso sem deixar os prazeres da vida de lado. Para isso, Alice vira sócia da nova amiga em um sex shop falido e descobre os prazeres dos sex toys.

    O diretor Roberto Santucci se inspirou em uma notícia real de uma vendedora profissional de produtos eróticos para a construção do filme, que recebeu as indicações de Melhor Atriz (Ingrid Guimarães) e Melhor Roteiro Adaptado no Grande Prêmio Cinema Brasil de 2011. 

    Além disso, a franquia contou com um público de 8,42 milhões de pessoas nos cinemas, distribuídas pelos seus três filmes.

    Minha Mãe É Uma Peça - O Filme (2013)

    Sinopse: Dona Hermínia (Paulo Gustavo) é uma mulher de meia idade, divorciada do marido (Herson Capri), que a trocou por uma mais jovem (Ingrid Guimarães). Hiperativa, ela não larga o pé de seus filhos Marcelina e Juliano (Mariana Xavier e Rodrigo Pandolfo), sem se dar conta que eles já estão bem grandinhos. Um dia, após descobrir que eles consideram ela uma chata, resolve sair de casa sem avisar para ninguém, deixando todos, de alguma forma, preocupados com o que teria acontecido. Mal sabem eles que a mãe foi visitar a querida tia Zélia (Sueli Franco) para desabafar com ela suas tristezas do presente e recordar os bons tempos do passado.

    “Minha Mãe É Uma Peça” foi um sucesso no teatro antes de virar um filme. A personagem de Dona Hermínia, baseada na mãe do humorista e protagonista da obra, Paulo Gustavo, fez tanto sucesso que virou a maior franquia do cinema nacional.

     "Minha Mãe é uma Peça 3" (2019), por exemplo,desbancou, na primeira semana em cartaz, um filme da franquia Star Wars, sendo assistido por cerca de 9 milhões de pessoas. Já "Minha Mãe é uma Peça: O Filme" (2012) levou 4,6 milhões de pessoas ao cinema e "Minha Mãe é uma Peça 2" (2016), 9,32 milhões de pessoas. 

    Terror no cinema nacional

    Em 2002, de acordo com o "Dicionário de filmes brasileiros" de Antonio Leão da Silva Neto, 3415 longa-metragens haviam sido finalizados no Brasil, dentre os quais apenas 20 eram classificados como sendo de horror ou de terror. Desses 20, a maioria era obra de José Mojica Marins, o Zé do Caixão.Dizer que o horror é raro no cinema brasileiro é uma afirmação vazia. Só é possível dizer que o gênero é menos expressivo numericamente se compararmos sua expressão com a de outros gêneros.

    Claro que de lá para cá, o número aumentou, mas não expressivamente. A estatística ainda é válida.

    Por outro lado, em uma reflexão mais profunda, observando a filmografia do cinema nacional, pode-se dizer que o horror é sim - mesmo que contraditório - bastante presente. Pareceria até estranho que não fosse, pois, se olharmos para nossas narrativas tradicionais, vemos que boa parte delas versa sobre os mistérios que envolvem a vida e a morte, os embates entre as forças do bem e do mal e a interferência de elementos sobrenaturais ou irracionais como fatores determinantes no mundo cotidiano – que estão na raiz do gênero.

    Via de regra, os filmes ainda estreiam em poucas salas e não ficam muito tempo em cartaz. Mas têm sido exibidos em festivais nacionais e internacionais, tanto nos de nicho quanto nos que não se pautam por uma temática específica. É uma mudança com relação aos filmes brasileiros de terror lançados a partir da década de 1960, como os de Mojica, voltados para o mercado interno.

    A produção alcançou um ápice numérico e de rentabilidade nos anos 1970, em meio à indústria da "Boca do Lixo" paulistana. São dessa época filmes como "O Anjo Da Noite" (1974), de Walter Hugo Khouri, e "Excitação" (1977), dirigido por Jean Garret.

    Questões culturais e de recepção ainda fazem com que o tamanho da produção, orçamento e recursos técnicos dos filmes de horror brasileiros sejam incomparáveis em relação a países como Japão, Coreia do Sul e Estados Unidos, mercados em que o gênero é particularmente forte.

    Zé do Caixão, embora seja o maior nome do terror nacional, por exemplo, sempre produziu seus filmes de forma completamente independente. 

    Os baixíssimos orçamentos não foram impeditivos para sua consagração. Pelo contrário, o diretor hoje inspira nomes como Juliana Rojas, Marco Dutra, Gabriela Amaral Almeida, Rodrigo Aragão e Ricardo Ghiorzi.

    Alguns dos principais filmes de terror nacionais são:

    Esta Noite Encarnarei No Teu Cadáver (1967)

    Sinopse: As maldades de Zé do Caixão (José Mojica Marins) se tornam cada vez mais sádicas. Em busca da mulher ideal para gerar seu filho perfeito, ele rapta seis jovens e as submete a terríveis torturas. Mais tarde, após acabar com a vida de uma moça grávida, a população se revolta e decide exterminá-lo.

    Na época, o filme foi censurado - e por um motivo bem específico: exigiram que a fala “Eu não creio. Não creio”, que Zé do Caixão diz antes de morrer, fosse substituída por "Deus... Sim... Deus é a verdade! Eu creio em tua força. Salvai-me! A cruz, cruz, padre...!"

    Sua exibição só foi liberada após essa mudança. 

    O longa é o segundo da popular tríade composta, adicionalmente, por "À Meia-Noite Levarei Sua Alma" (1964) e "Encarnação do Demônio" (2008).

    Gêmeas (1999)

    Sinopse: A história é ambientada no início da década de 80 e se passa em um bairro de classe-média do Rio de Janeiro: as irmãs gêmeas idênticas Iara e Marilena (Fernanda Torres) vivem pregando peças nos homens, fazendo-se passar uma pela outra, para desespero de seu pai, Dr. Jorge (Francisco Cuoco). Marilena é bióloga. Iara, como sua mãe (Fernanda Montenegro), é costureira. Um dia Marilena conhece Osmar (Evandro Mesquita), dono de uma auto-escola, por quem se apaixona à primeira vista. O mesmo, entretanto, acontece com Iara, que decide seduzir o namorado da irmã sem que este (e esta) saiba. Tem início uma intensa rivalidade entre as irmãs, em busca do amor de Osmar, que irá trazer à história um desfecho surpreendente.

    Era para "Gêmeas" ser apenas um dos capítulos de “Traição”, filme produzido pela Conspiração Filmes que seria composto por três histórias baseadas nos contos de do escritor Nelson Rodrigues. 

    Andrucha Waddington, o diretor, porém, resolveu prolongar a história e dedicar um longo exclusivamente a ela. Por sua atuação no filme, Fernanda Torres recebeu indicação de Melhor Atriz no Grande Prêmio Cinema Brasil de 2001.

    Encarnação Do Demônio (2008)

    Sinopse: Após 40 anos preso, Zé do Caixão (José Mojica Marins) enfim é libertado. De volta às ruas, ele está decidido a cumprir sua missão: encontrar uma mulher que possa gerar seu filho perfeito. Caminhando pela cidade de São Paulo ele enfrenta leis não naturais e crendices populares, deixando um rastro de sangue por onde passa.

    Nascido de um pesadelo - Mojica afirmou que a ideia de criar o Zé do Caixão veio de um sonho que teve. Ele disse que viu um vulto arrastando-o para um cemitério, onde encontrou uma lápide com as datas de seu nascimento e de sua morte. "Acordei aos berros e, naquele momento, decidi que faria um filme diferente de tudo que já havia realizado", relatou. Ganhou os prêmios de Melhor Filme, Melhor Fotografia, Melhor Direção de Arte, Melhor Edição, Melhor Edição de Som, Melhor Trilha Sonora e Prêmio da Crítica no Festival de Paulínia. Além disso, ganhou Melhor Direção de Arte e o Prêmio Especial de Atuação pelo Conjunto da Obra no Festival do Paraná.

    Gata Velha Ainda Mia (2013)

    Sinopse: Glória Polk (Regina Duarte) é uma escritora decadente, que resolveu voltar a escrever um livro de ficção após 17 anos de ausência. Um dia, ela resolve abrir sua casa para Carol (Bárbara Paz), uma jovem jornalista que mora em seu prédio e é casada com seu antigo esposo. Empolgada com a oportunidade, Carol logo se dá conta que Glória possui uma faceta obscura, que fez com que tivesse imensa dificuldade em se relacionar com outras pessoas ao longo dos anos.

    Intencionalmente ou não, "Gata Velha Ainda Mia" pinta logo de prontidão a protagonista como maníaca - e o espectador passa o filme todo esperando ela reconhecer que tem uma tendência a Hannibal Lecter. É uma espera angustiante porque não é todo dia que Regina Duarte, a Namoradinha do Brasil, se presta ao papel de insanidade.

    O Rastro (2017)

    Sinopse: João Rocha (Rafael Cardoso), um jovem e talentoso médico em ascensão, acaba encarregado de uma tarefa ingrata: supervisionar a transferência de pacientes quando um hospital público da cidade do Rio de Janeiro é fechado por falta de verba. Quando tudo parece correr dentro da normalidade, uma das pacientes, criança, desaparece no meio da noite, levando João para uma jornada num mundo obscuro e perigoso.

    O filme levou 8 anos para finalmente chegar aos cinemas. Captar recursos e amadurecer o roteiro foram alguns dos embates enfrentados pela equipe. A princípio a história se passaria em uma casa isolada em alguma colina do país, mas como a própria equipe definiu: "seria muito americanizado". A fim de trazer uma ótica nacional para o filme, eles mudaram a para um hospital e abordaram as condições precárias do local, algo que é verídico em nosso sistema de saúde pública. "O Iluminado" (1980), "O Sexto Sentido" (1999), "Os Outros" (2001), "O Orfanato" (2008) e "O Babadook" (2014) foram algumas das referências usadas pelos criadores, que escolheram desenvolver o filme como um terror psicológico. Segundo a produtora, Malu Miranda, os suspenses de David Fincher também exerceram grande influência no processo de criação.

    Drama no cinema nacional

    A quebra da rotina leva a uma confusão de sentimentos e sensações, que colocam a razão contra a emoção. Drama é conflito e as consequências dele no indivíduo causam uma tensão. No cinema, o drama é a narrativa de uma existência individual complexa. Em cada drama, temos um tipo de narrativa conflituosa, das quais destacamos os subgêneros: dívidas que não acabam, violências domiciliares, expectativas frustradas, incapacidade de se firmar perante situações que desequilibram o emocional. O drama parece mergulhar na vida do espectador do filme e demonstrar que o cinema também representa seus problemas diários.

    No Brasil, o drama ainda tem mais uma evolução: o "Favela Movie", que tem como característica a mistura de ação policial, violência, exposição da miséria social e do cotidiano nas favelas. São produções de alto investimento e com uma narrativa realista.

    Dona de uma dualidade impressionante, a favela se mostrou, durante anos, dividida entre sua cultura belíssima e sua violência absurda, gerada por uma modelo econômico que exclui. E o cinema se aproveitou dos símbolos que acompanham a favela e se lançou para dentro dela a fim de retratá-la em produtos dramáticos.

    Alguns dos principais filmes de drama nacionais são:

    Central Do Brasil (1998)

    Sinopse: A ex-professora Dora vive como escrivã trabalhando na estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro, escrevendo cartas para analfabetos que desejam se comunicar com parentes ou pessoas próximas de outras regiões. Ela embolsa o dinheiro dos clientes sem postar as cartas, pois as considera inúteis e sabe que eles nunca darão falta. Porém, um dia, quando Josué, um menino de 9 anos, vê sua mãe morrer atropelada, ela se sensibiliza e embarca em uma jornada pelo interior Nordeste com o menino em busca do pai que ele nunca conheceu.

    Por sua participação no filme, Fernanda Montenegro foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz em 1999, um marco para o Brasil e o mundo, pois foi a primeira vez que uma atriz latino-americana foi indicada à categoria. 

    Já Vinicius de Oliveira, que era engraxate, foi selecionado entre mais de 1.500 outros meninos considerados para o papel de Josué. Ele e o diretor e Walter Salles voltariam a trabalhar juntos em mais dois filmes: "Abril Despedaçado" (2001) e "Linha de Passe" (2008).

    “Central do Brasil” figura em 11º lugar na lista de melhores filmes nacionais de todos os tempos da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).

    Cidade De Deus (2002)

    Sinopse: Crescido na Cidade Deus, uma favela conhecida por ser um dos locais mais violentos do Rio de Janeiro, o jovem Buscapé sempre temeu seguir a vida do crime. Ele se descobriu na fotografia e deseja se tornar fotógrafo, profissão para a qual ele demonstra ter grande talento. Através das lentes do protagonista, o cotidiano violento do lugar é registrado e, suas fotos são usadas por Zé Pequeno, um traficante ambicioso, que deseja mostrar que é durão.

    A maioria dos integrantes do elenco de "Cidade de Deus" é composta por garotos que nunca atuaram antes e que viviam em diversas comunidades e favelas do Rio de Janeiro. O diretor Fernando Meirelles recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Diretor em 2004 pelo filme, que foi considerado o 8º melhor filme nacional de todos os tempos, segundo a Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).

    Tropa De Elite e Tropa De Elite 2 (2007 e 2010)

    Sinopse: O primeiro longa conta o dia a dia do grupo de policiais e de um capitão do BOPE (Wagner Moura), que quer deixar a corporação e tenta encontrar um substituto para seu posto. Paralelamente, dois amigos de infância se tornam policiais e se destacam pela honestidade e honra ao realizar suas funções, se indignando com a corrupção existente no batalhão em que atuam.

    No segundo, Nascimento (Wagner Moura), agora coronel, foi afastado do BOPE por conta de uma mal sucedida operação. Desta forma, ele vai parar na inteligência da Secretaria de Segurança Pública do Estado. Contudo, ele descobre que o sistema que tanto combate é mais podre do que imagina e que o buraco é bem mais embaixo.

    O filme "Tropa de Elite" (2007) mudou a realidade do favela movie no Brasil, pois expande o ponto de vista para os dos policiais em suas incursões nas favelas, criticando a forma como ações, sobretudo as do BOPE, eram realizadas com o objetivo de "pacificar".

    Que Horas Ela Volta? (2015)

    Sinopse: Val (Regina Casé) é uma pernambucana que se mudou para São Paulo com o objetivo de dar uma vida melhor para sua filha Jéssica. Ela deixou a menina no interior de Pernambuco para morar na casa de seus patrões integralmente e se tornar babá de Fabinho. Treze anos depois, Jéssica pede que a mãe a ajude a ir a São Paulo, pois deseja prestar vestibular. Os chefes dela aceitam e recebem a jovem de braços abertos, mas o comportamento dela complica as coisas na casa.

    "Que Horas Ela Volta?" foi outorgado com vários prêmios nos festivais de Sundance e de Berlim, além de ter concorrido a uma vaga ao Oscar. 

    Mas Anna Muylaert trabalhou duro para conceber o roteiro do filme, passando 19 anos debruçada sobre a história antes de, efetivamente, filmá-la. 

    Ao longo dos anos, a história foi ganhando novos contornos, conforme a economia e seus impactos sociais traziam à tona questões relevantes para as personagens do longa. Jéssica, filha de Val, por exemplo, teria um destino incerto, mas acabou virando uma das personagens mais inspiradoras do filme. 

    Bingo - O Rei Das Manhãs (2017)

    Sinopse: Cinebiografia de Arlindo Barreto, um dos intérpretes do palhaço Bozo no programa matinal homônimo exibido pelo SBT durante a década de 1980. Barreto alcançou a fama graças ao personagem, apesar de jamais ser reconhecido pelas pessoas por sempre estar fantasiado.

    Embora claramente inspirado no famoso palhaço Bozo, seu nome não foi utilizado no filme por questões de direitos autorais.

    Para interpretar Arlindo Barreto, que revelou ser viciado em cocaína, o ator Vladimir Brichta perdeu 8 kg e fez aula de circo. O esforço compensou: o longa foi premiado pelo Grande Prêmio Cinema Brasil de 2018, premiado nas categorias: Melhor Filme, Ator, Ator Coadjuvante, Fotografia, Figurino, Maquiagem, Montagem de Ficção e Melhor Filme pelo Júri Popular.

    Documentários no cinema nacional

    O mineiro Humberto Mauro é um dos precursores do formato de documentário no Brasil. Tendo dirigido por mais de 30 anos Instituto Nacional do Cinema Educativo (INCE), o cineasta realizou mais de 300 curtas educativos, marcados por uma linguagem didática que revolucionaria o fazer documental no país.

    Lembra do começo do texto, que falava sobre a filmagem da Baía de Guanabara? Então! Foram feitas outras gravações do tipo com outras belezas regionais. Esses filmes ficaram conhecidos como "tomadas de vista".

    Eles marcaram a primeira década do Século XX, e eram majoritariamente realizados por antropólogos, com forte caráter etnográfico.

    O grande desafio do cenário nacional documental é o processo de distribuição e a burocracia da aquisição de direitos autorais. Por exemplo, se uma música tem quatro autores e cada um editou em uma editora, e cada editora tem uma política específica, seu uso se torna um processo altamente oneroso.

    É por isso que os festivais são de suma importância para os documentários, como espaço de visibilidade. Além disso, eles formam público, ou seja, qualificam os futuros realizadores de documentários. São verdadeiros fóruns de discussões e trocas. Mas para além dessa esfera, os números ainda são tímidos. De acordo com dados da Ancine, no período de 1995 a 2009, pouco mais de 2,6 milhões de pessoas foram assistir a algum documentário nacional no circuito comercial, o que representa 2% do público geral de filmes nacionais do período.

    Alguns dos principais documentários nacionais são:

    Ilha Das Flores (1989)

    Sinopse: Um tomate é plantado, colhido, transportado e vendido num supermercado, mas apodrece e acaba no lixo. Acaba? Não. O filme segue-o até seu verdadeiro final, entre animais, lixo, mulheres e crianças. E então fica clara a diferença que existe entre tomates, porcos e seres humanos. O curta foi escrito e dirigido pelo cineasta Jorge Furtado em 1989 e mostra, de forma ácida e com uma linguagem quase científica, como a economia gera relações desiguais entre os seres humanos. Em 1995, Ilha das Flores foi eleito pela crítica européia como um dos 100 mais importantes curtas-metragens do século.

    Lançado no Festival de Gramado em junho de 1989, o filme se passa na Ilha dos Marinheiros, que fica a 2 km da verdadeira Ilha das Flores, ambas localizadas em Porto Alegre. 

    Foi considerado o 13º melhor filme de todos os tempos pela Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) - o curta-metragem mais bem posicionado no ranking.

    Notícias de uma Guerra Particular (1999)

    Sinopse: Documentário emblemático de João Moreira Salles, "Notícias de uma Guerra Particular" conta a história da violência urbana nas cidades do Brasil, sobretudo no Rio de Janeiro. Um cenário de policiais corruptos, traficantes e usuários em que todos estão submetidos à uma grande guerra diária.

    Para realizar o filme, Moreira Salles passou dois anos entrevistando policiais, pessoas ligadas diretamente ao tráfico e moradores das regiões mais afetadas pela guerra às drogas. Os relatos tecem uma narrativa sem heróis ou vilões, profundamente marcada pelas perspectivas da guerra particular de cada membro desses grupos.

    Ônibus 174 (2002)

    Sinopse: Um sequestro em um ônibus, que aconteceu em 12 de junho de 2000, na Zona Sul do Rio de Janeiro, chocou o mundo. O enredo se baseia nas imagens do momento, entrevistas e documentos oficiais de tudo sobre o caso. Concomitante aos momentos de tensão, a história também busca mostrar como era a vida do sequestrador, como um comum menino de rua carioca que se transforma em bandido. Em dualidade de narrativas, o documentário analisa razões que resultam em um Brasil tão violento. O filme foi lançado dois anos depois do ocorrido, pelos diretores José Padilha e Felipe Lacerda.

    É o primeiro filme dirigido por José Padilha e o 67º melhor filme brasileiro de todos os tempos, segundo a Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema). Foi indicado a Melhor Documentário, Melhor Roteiro Original, Melhor Edição e Melhor Som no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. Além disso, faturou o Grand Coral e Prêmio Memória Documentada do Festival de Havana; Menção Especial do Festival de Rotterdam; Melhor Documentário no Festival do Rio; e Prêmio do Júri Internacional na Mostra Internacional de São Paulo.

    Jogo De Cena (2007)

    Sinopse: Atendendo a um anúncio de jornal, 83 mulheres contaram sua história de vida em um estúdio. 23 delas foram selecionadas, em junho de 2006, e filmadas no Teatro Glauce Rocha. Em setembro do mesmo ano várias atrizes interpretaram, a seu modo, as histórias contadas por estas mulheres, borrando as tênues linhas que separam a realidade da ficção. Uma obra-prima de Eduardo Coutinho.

    Classificado na posição de número 17 na lista de melhores filmes brasileiros de todos os tempos, segundo a Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema). No 14º Prêmio Guarani de Cinema Brasileiro: premiado como Melhor Filme, Direção, Documentário e Edição, e foi indicado ainda a Melhor Elenco; no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro: indicado a Melhor Documentário, Montagem de Documentário, Roteiro Original e Atriz (Andréa Beltrão).

    Democracia Em Vertigem (2019)

    Sinopse: "Democracia em Vertigem" passa sobre o processo de impeachment da ex-presidente do Brasil, Dilma Rousseff, que foi considerado como um dos reflexos da polarização política e da ascensão da extrema-direita para o poder. O filme conta com imagens internas e exclusivas dos bastidores do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e do Palácio da Alvorada, enquanto ocorria a votação para a queda de Dilma.

    Mesmo enviesado e intimista, é necessário ponderar a relevância que o filme tem como documento, instrutivamente falando, inclusive para que os espectadores estrangeiros entendam como funcionam os mecanismos da velha política brasileira, alicerçadas na enorme influência da mídia e na força econômica originária das oligarquias.No Oscar 2020: indicado a Melhor Documentário em Longa-metragem; no Critics Choice Documentary Awards 2019: indicado a Melhor Documentário Político e a Melhor Narração; e o documentário foi lançado diretamente na plataforma de streaming da Netflix, um caso inédito no cinema brasileiro.

    Cinema nacional independente: Novíssimo Cinema Brasileiro

    A participação cada vez maior de filmes independentes em festivais nacionais e internacionais nos mostra que tem espaço, sim, para produções menos tradicionais, cujo potencial é claramente perceptível.

    São filmes com propostas estéticas significativamente diferentes entre si, que surgem em diversos contextos e regiões do país. Não formam um bloco de filmes com a mesma cara, mas, apesar dessas diferenças, ainda é possível traçar alguns sinais em comum. Para identificar alguns desses sinais, é preciso recuar um pouco no tempo, para descobrir as origens desse movimento de renovação.

    Como já foi dito, no início dos anos 1990, o cinema brasileiro passou por uma abrupta descontinuidade. O presidente Fernando Collor, através de um único decreto, extinguiu as principais instituições públicas responsáveis pelo apoio à sétima arte em solo nacional. Sem o amparo estatal, o mercado local foi completamente dominado pelo produto estrangeiro.

    Somente com a Lei Rouanet e a Lei do Audiovisual - promulgadas definitivamente apenas com Itamar Franco - as atividades foram sendo retomadas e tornaram-se a base do apoio público à produção do cinema nacional. 

    Não obstante, a captação de recursos para cineastas iniciantes ou projetos com pouco apelo comercial era compreensivelmente mais demorada, o que retardou o trabalho de muitos diretores hoje consagrados, como Kléber Mendonça Filho e Eduardo Nunes.

    Eles - e vários outros - apenas conseguiram tirar seus filmes do papel graças a um edital bastante específico do Ministério da Cultura, voltado a filmes de baixo orçamento.

    Se por um lado as leis de incentivo auxiliaram no que chamamos de “retomada do cinema nacional”, por outro lado, elas eram incapazes de viabilizar projetos que não chamavam a atenção de investidores privados, nem se enquadravam nos parâmetros dos editais públicos.

    No início do novo século, entra um fator determinante e que muda o jogo: a tecnologia digital. Isso despertava novas possibilidades, mostrando um novo modo de produção, abandonando a dependência de um certo modelo de financiamento e apontando a necessidade de uma nova forma de circulação dessas obras.

    Além disso, favorecendo as produções de caráter menos convencional, surgiam festivais no Brasil que iam contramão da lógica de circulação tradicional, ao mesmo tempo em que uma geração na crítica cinematográfica que se engajou, sobretudo, na curadoria, abrindo caminho para um cinema brasileiro mais ousado e menos conhecido.

    Com isso, o fazer cinematográfico que prezava pelo processo, e não necessariamente pelo produto final, ganhou mais visibilidade.

    Surgia um cinema que via o processo, e não necessariamente o produto final, um dos pontos-chaves de uma nova forma de produção, que via uma relação de cumplicidade entre o cinema e o mundo, entre a criação e a vida. Um cinema que surgia a partir de um certo inconformismo diante de um recente cinema brasileiro - e dos rumos do próprio país - mas também encantado com as possibilidades de testar os limites de algo que não se sabia bem o que era.

    Diferentemente das bases de um cinema industrial, voltado para os segmentos de mercado tradicionais, surgia um cinema pós-industrial, cujo mote é a flexibilidade e o dinamismo, apoiado nas redes da internet. Esse é o "Novíssimo Cinema Brasileiro".

    O cinema nacional hoje respira!

    O cinema nacional, hoje, conta com uma série de incentivos. Ainda assim, não é tão simples. Ou seja, mesmo com os subsídios disponíveis, quem faz cinema ainda precisa passar por processos enraizados que dificultam o trabalho. A mudança é necessária, mas temos repertório, temos história, trilhamos um caminho brilhante - que substancialmente moldou o que somos agora - e a perspectiva para o futuro é promissora.

    Sempre produziremos pontos fora da curva e filmes aclamados mundialmente pela crítica, como "Central do Brasil", "Cidade de Deus" e "Bacurau". A sociedade brasileira é riquíssima - e o cinema, enquanto expressão antropológica artística - ainda nos brindará com muitos filmes dignos de lágrimas, paixões e risos.