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    Marcelo Galvão retorna a Gramado com o sensível e honesto A Despedida

    Filme abre mostra competitiva de longas nacionais e agrada público e crítica
    Por Roberto Guerra, enviado especial a Gramado
    09/08/2014
    Marcelo Galvão

     

    Dois anos depois de brilhar em Gramado com o longa Colegas, vencedor do Kikito de Melhor Filme, o cineasta Marcelo Galvão voltou ao palco do Palácio dos Festivais na noite desta sexta-feira (8) para exibir seu novo trabalho, A Despedida, estrelado por Nelson Xavier e Juliana Paes. O filme deu o pontapé inicial na mostra competitiva de longas nacionais da 42ª edição do Festival de Gramado, que segue até o dia 16 de agosto na serra gaúcha.

    A Despedida é um afetivo e consciencioso filme sobre a velhice, que foge do discurso politicamente correto da "melhor idade". A vida de seu personagem central, um homem de 92 anos chamado Almirante, está longe de carregar alguma vantagem. Logo na sequência de abertura, o velho homem desperta, erguendo-se com dificuldade da cama e vivencia um fugaz momento de contentamento ao perceber a fralda geriátrica limpa.

    O personagem, inspirado no avô de Galvão, é interpretado com destreza insuspeita por Xavier. O ator teve a consultoria de um médico para conseguir expressar as limitações físicas de um homem 20 anos mais velho. "Eu tenho 72 anos, tive um câncer e ele me fez pensar mais na existência, a encarar as limitações da velhice. Eu tinha isso na cabeça para compor o personagem, então só precisei aprender como uma pessoa dessa idade se comporta fisicamente", disse Xavier em coletiva de imprensa na manhã deste sábado (9).

    Faltou, no entanto, um cuidado especial com a voz do personagem. Almirante é claudicante, anda com o auxílio de um andador e mal consegue vestir-se sozinho. Infelizmente, não houve preocupação na construção da voz do ator, que soa jovial e firme demais para alguém tão debilitado fisicamente.

    "Eu parti de uma referência, que era meu avô. Quando tinha 92 anos ele ainda tinha a voz firme. Tinha uma cabeça bem jovem e essa foi uma forma de preservar esse espírito que tinha dentro dele", defendeu-se Galvão.

    A Despedida
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    A estranheza com a voz de Almirante, mesmo que evidente, é detalhe dentro de A Despedida. Além de retratar a velhice de forma honesta e sem condescendência, Galvão encanta ao apresentar o relacionamento entre o personagem e sua amante, uma mulher 50 anos mais nova vivida por Juliana Paes.

    Eles tiveram um ardente romance no passado e não se veem há muitos anos – a idade avançada o fez deixar de visitá-la. Vendo a morte se aproximar, ele decide se despedir de tudo o que considera importante em sua vida – o endereço final é a casa de Morena.

    Fazer essa ligação amorosa funcionar na tela era nitidamente difícil, mas o diretor soube conduzir o encontro dos dois com o cuidado necessário para que nada ficasse acima ou abaixo do tom. Um trabalho de direção elogiável, que soube aproveitar as atuações inspiradas de Nelson Xavier e Juliana Paes.

    A atriz, que chorou ontem durante a sessão – "Parece insolente você se emocionar com o próprio trabalho. Eu tentei disfarçar, mas aconteceu" -, admitiu ter ficado preocupada com a diferença de idade dos personagens.

    "Fiquei com um pouco de medo, mas fui me tranquilizando com o trabalho de pesquisa. Conheci uma mulher de 30 anos casada com um homem de 90. Eu me aproximei dela, conversamos muito e fui entendendo como funciona uma relação assim", contou Juliana.

    A 42ª edição do Festival de Gramado segue neste sábado com a exibição de mais dois longas da Mostra Competitiva Nacional: Os Senhores da Guerra, de Tabajaras Ruas, e A Estrada 47, de Vincente Ferraz.