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    Marvel vs DC: briga de titãs, dos quadrinhos ao Cinema

    Cada um luta com os personagens que tem e o público fica cada vez mais dividido
    Por Da Redação
    03/09/2020 - Atualizado há 16 dias

    Foi a criação do Superman, o super-herói dos quadrinhos da DC, que determinou o começo dessa história. Em 1938, Jerry Siegel e Joe Schuster deram vida ao personagem baseando-se em um Estados Unidos que ainda se recuperava dos efeitos da Grande Depressão e cada vez mais imerso nos conflitos da Segunda Guerra Mundial. 

    Em 1939, Bob Kane e Bill Finger criaram o novo ícone da cultura pop: Batman. Em seguida, em 1941, William Moulton Marston completou a tríade de super-heróis clássica da DC ao publicar a história da Mulher-Maravilha.

    HQ Superman Nº1 (1938)Reprodução

    Os três personagens representavam um ideal estadunidense muito comum para a época. O Superman, por exemplo, foi criado para mostrar a parte quase intocável e ética de um super-herói.

    Em uma era pós-Guerra, Superman, Batman e Mulher-Maravilha praticamente se transformaram em deuses de uma nova mitologia, que serviam de inspiração para a humanidade, pautada no “American Way of Life”. No entanto, logo essa concepção foi posta em cheque, uma vez que a mente dos jovens apontavam para outros movimentos. Afinal, na década de 60 aconteceu a revolução sexual e os ideais baseados na política “self made man” foram rompidos.

    HQ Marvel Comics Nº1 (1939)Reprodução

    E assim surgiu a Era Marvel, criada por Stan Lee e Jack Kirby. Eles aproveitaram o momento de mudanças e publicaram o Quarteto Fantástico, o primeiro quadrinho da editora e obra que revolucionou a forma como o público enxergava os super-heróis.

    Abordando temas considerados tabus, como consumo de drogas e a Guerra do Vietnã, a Marvel conseguiu inovar e se posicionar opostamente às histórias com ares mitológicos da DC. Por isso, começaram a apostar em personagens mais “reais”, imperfeitos e que se conectavam com as pessoas comuns. 

    Alguns exemplos clássicos? O Homem de Ferro, um herói sem poder algum além da sua inteligência e que age sem pensar nas consequências; o Hulk, que surgiu de uma explosão atômica - maior sombra do contexto da Guerra Fria, e os X-Men, que dão as caras como uma minoria oprimida, defendendo aqueles que insistem em derrubá-los.

    Mas, na migração para as telas, foi a DC que tomou a dianteira.

    Entre 1950 e 1970, os três heróis da DC Comics ganharam suas próprias séries de TV. Superman estreou nos anos 50, enquanto Batman seguiu sem passos em 1960, com um programa que se tornou ícone da cultura pop. Lynda Carter protagonizou a série da Mulher-Maravilha, em 1970, o que a tornou um dos símbolos do movimento feminista da época. “Superman - O Filme”, de Richard Donner e protagonizado por Christopher Reeve, chegou aos cinemas em 1978, logo assumindo o posto de “pai”, dentre os demais filmes produzidos pelas produtoras cinematográficas. 

    Cena de Batman (1966-1968)Reprodução

    Enquanto isso, a DC foi amadurecendo suas obras em quadrinhos. Foi nessa época que “O Cavaleiro das Trevas'', de Frank Miller, “Watchmen”, de Alan Moore, e outras produções do mesmo estilo foram publicadas. O público que consumia esse tipo de conteúdo compareceu em peso aos cinemas, em 1989, para ver o filme gótico, “Batman”, de Tim Burton. Durante anos, a DC conseguiu se manter em primeiro lugar no mercado de filmes de super-heróis. No entanto, cometeu o erro de dar muito mais foco para o seu personagem “mais humano”, o Batman, pelos anos seguintes. Batman & Robin, lançado no final da década de 1990, foi um fracasso de crítica e público.

    Foi só em 2005 que a Warner tomou a decisão de entregar as chaves do reino a Christopher Nolan. E foi assim que “Batman Begins” (2005) se aproximou novamente do público, saindo um pouco do lado fantástico da história e se firmando em um lado mais realista e inesperado para um super-herói. Em 2008, “Batman - O Cavaleiro das Trevas” bateu US$ 1 bilhão nas bilheterias, garantindo o Oscar a Heath Ledger pelo seu papel como Coringa e firmando-se como base para os próximos filmes do gênero. 

    Falando em sucessos de bilheteria, “Batman: O Cavaleiro Das Trevas Ressurge” (2012) fez um ótimo trabalho finalizando a franquia. 

    Porém, o limite do novo Batman também chegou em 2012, mostrando que, mesmo a DC tentando expandir seu escopo, até os fãs mais apaixonados se cansaram do personagem. 

    A revolução Marvel no Cinema

    Já a Marvel trabalhou de maneira mais estratégica.

    Nessa época, os direitos pelos personagens da Marvel eram uma bagunça. Eles estavam espalhados entre Sony e Fox e - posteriormente chefiado pela figura de Kevin Feige - a Marvel buscava uma identidade própria para suas produções.

    A estratégia da Marvel de fechar parcerias com produtores e estúdios se provou um sucesso. Foi isso, aliás, que fez “X-Men, O Filme” (2000), lançado pela Fox, um marco dos longas de super-heróis modernos. Mas tudo começou em 1998, quando a Marvel fez, junto com a produtora New Line, “Blade - Caçador de Vampiros” (1998). Após uma década de brigas judiciais com a Sony, “Homem-aranha” (2002) chegou às telonas. Esse tempo de espera valeu a pena, já que o filme foi um sucesso. “Hulk” (2003), “Demolidor - O Homem Sem Medo” (2003), “Quarteto Fantástico” e “Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado” (20014 e 2007) foram produzidos todos com parcerias, uma vez que a Marvel ainda não tinha estúdio próprio. Nessa época, a Marvel já buscava uma identidade própria para suas produções, uma vez que os direitos pelos seus personagens estavam divididos entre Sony e Fox.

    O lançamento de “Homem de Ferro” (2008) foi o que a Marvel precisava para se mostrar capaz de produzir seus próprios longas. Ao buscar investimentos para se tornar um estúdio independente, conseguiu fortalecer a marca e foi o próximo passo para começar a trabalhar seu universo compartilhado, MCU (Marvel Cinematic Universe), que mostra heróis habitando o mesmo mundo e, eventualmente, cruzando caminhos.

    Cena de Blade - Caçador de Vampiros (1998)Reprodução

    Dessa toada, surgiram filmes como O Incrível Hulk (2008); Homem De Ferro 2 (2010); Thor (2011) e Capitão América: O Primeiro Vingador (2011).

    Mas não eram só as telonas que vinham sendo movimentadas. Os bastidores também: a Disney comprou os domínios da Marvel em 2009 e abalou a indústria. 

    A estreia junto à nova proprietária foi do antológico Os Vingadores - The Avengers (2012) - um fenômeno nunca antes visto no Cinema. 

    Diante do sucesso estrondoso, o céu era o limite para a Marvel. Na sequência, vieram Homem De Ferro 3 (2013), Thor: O Mundo Sombrio (2013) e Capitão América: O Soldado Invernal (2014) - todos lucrando além das bilheterias de seus antecessores.

    Os US$ 780 milhões faturados pelos desconhecidos Guardiões Da Galáxia (2014) e o inesperado Homem-formiga (2015) provaram a força da marca. A essa altura, a Marvel já havia estabelecido uma rede intrincada de filmes e personagens, que funcionavam de maneira independente e complementar entre si.

    Cena de Homem-Formiga (2015)Reprodução

    A partir daí, veio só porrada: Vingadores: Era De Ultron (2015); Capitão América: Guerra Civil (2016); Doutor Estranho (2016); Guardiões Da Galáxia Vol. 2 (2017); Homem-aranha: De Volta Ao Lar (2017); Thor: Ragnarok (2017); Pantera Negra (2018); Vingadores: Guerra Infinita (2018); Homem-formiga E A Vespa (2018); Capitã Marvel (2019); Vingadores - Ultimato (2019); e Homem-aranha: Longe De Casa (2019).

    Em paralelo, houve uma continuidade de filmes X-Men desde "X-Men: O Filme", lá dos anos 2000, e que até hoje é um dos responsáveis pela acessibilidade do gênero.

    Os direitos pelas produções dos mutantes estava com a Fox, que foi responsável por lançar ainda X-men 2 (2003); X-men: O Confronto Final (2006); X-men Origens: Wolverine (2009); X-men: Primeira Classe (2011); Wolverine - Imortal (2013); X-men: Dias De Um Futuro Esquecido" (2014); X-men: Apocalipse (2016); e X-men: Fênix Negra (2019).

    Cena de Capitã Marvel (2019)Reprodução

    Percebendo o sucesso que a Marvel estava alcançando, a DC resolveu investir em seu próprio universo de filmes de super-heróis - o DCEU, chefiado por Zack Snyder -, mas a competição já estava desnivelada: lançou "Homem de Aço" (2013); Batman Vs Superman: A Origem Da Justiça (2016); Esquadrão Suicida (2016); Mulher-maravilha (2017); Liga Da Justiça (2017); Aquaman (2018): Shazam! (2019); e Aves De Rapina - Arlequina E Sua Emancipação Fantabulosa (2020).

    Fato é, que entre falhas e acertos, o gênero se popularizou. A fórmula demonstrou alguns sinais de repetição e se ressignificou. Nesse contexto, surgiram filmes como Deadpool (2016); Logan (2017); Deadpool 2 (2018); e Coringa (2019).

    Os filmes de super-herói terão - e merecem - vida longa!

    Cena de Shazam! (2019)Reprodução

    Ao longo dos últimos dois anos, os filmes mais assistidos nos cinemas brasileiros foram protagonizados pelos mesmos personagens.

    Vingadores: Guerra Infinita levou mais de 14 milhões de brasileiros às salas de cinema em 2018.

    Já em 2019, foi a vez de Vingadores: Ultimato ocupar o topo do pódio, com 19,2 milhões de ingressos vendidos no país.

    Além disso, das dez campeãs de bilheterias no Brasil em 2019, pelo menos cinco narram a história de super-heróis: Coringa, Capitã Marvel, Homem Aranha: Longe de Casa, X-Men: Fênix Negra e Shazam!.

    Mas grande presença dos heróis nos ranking de bilheterias não é um fenômeno exclusivo de Brasil e está longe de ter um inimigo à altura. Com US$ 2,797 bilhões, Vingadores: Ultimato ocupa atualmente a 1ª posição das maiores bilheterias da história - e isso graças à vasta exibição do longa ao redor do mundo. Com US$ 858,3 milhões somados apenas nos EUA, o filme conquistou a 2ª posição entre as maiores arrecadações do país. Com US$ 614,3 milhões arrecadados na China, o filme superou os US$ 393 milhões do antigo recordista Velozes e Furiosos 7 e se tornou a maior arrecadação de um longa hollywoodiano por lá.

    Cena de Os Vingadores - The Avengers (2012)Reprodução

    O elemento nostálgico, bem como a ideia de “construção de mundo” por meio de diversas peças distribuídas ao longo de vários filmes, justificam a força do gênero e seu sucesso incomparável perante o público.

    Afinal, ao longo dos últimos anos, testemunhamos o surgimento e a expansão de um universo cinematográfico rico, com vários pontos de intersecção, que exploram inúmeras possibilidades e oferecem uma vasta gama de histórias para os mais distintos públicos.

    Mais do que isso, existe, ainda, a possibilidade de cruzar gêneros. Capitão América se tornou uma saga de conspiração e espionagem. Os Guardiões da Galáxia se aproximam da ficção científica. O Homem-Formiga se apoia sobretudo em uma história familiar. A trilogia Batman, do Nolan, é a jornada do herói mais realista possível. Coringa é um drama psicológico que flerta com a ultraviolência. Pantera Negra e Mulher-Maravilha lançam nova luz em temas como representatividade e desigualdade social.

    A Sony está investimento em personagens secundário do universo do teioso, como Venom (2018). A DC está tanto investimento em filmes do universo compartilhado quanto individuais. E agora, a Disney adquiriu a FOX, o que traz os direitos de muitos personagens da Casa das Ideias de volta para o domínio da Marvel.

    Mas no fim, o que realmente fica de mensagem é o legado construído pelos super-heróis no Cinema.

    Do lado da Marvel, nunca na história fora criada uma saga tão profunda em camadas, personalidades, características e ambientações tão distintas e diferentes, que desaguasse em um dos momentos mais aguardados pela cultura pop: um filme-evento. A maior arrecadação de bilheteria da história.

    Do lado da DC Comics, ter sido precursora na exploração do formato e pela constante e inabalável reinvenção para trazer sempre diferentes perspectivas de suas clássicas histórias e personagens, pela ousadia.

    Mas, para encerrar, um aprendizado clássico do Amigão da Vizinhança: com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades. Quando o sarrafo está no alto, é a hora de ligar o alerta vermelho e se reinventar. Há quem diga que a fórmula está se esgotando, mas ano após ano nós vemos filmes mais ousados e novas roupagens de histórias que não nos cansamos de ver passar.

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