Marvel vs DC: briga de titãs, dos quadrinhos ao Cinema

Marvel vs DC: briga de titãs

03/09/2020 14h00

Foi a DC Comics quem começou essa história, com a criação do Superman, o primeiro super-herói dos quadrinhos. O personagem nasceu em 1938, obra de Jerry Siegel e Joe Schuster, sob o contexto de um Estados Unidos que ainda se recuperava dos efeitos da Grande Depressão e cada vez mais imerso nos conflitos da Segunda Guerra Mundial. Ele representa o ideal, a parte quase intocável, ética e perfeita do conceito de super-herói.

Logo no ano seguinte, surgiu outro personagem do panteão da cultura pop: Batman, trazido ao mundo por Bob Kane e Bill Finger. Pouco depois, em 1941, a tríade clássica da DC Comics se completou, quando William Moulton Marston publicou pela primeira vez a Mulher-Maravilha.

Esses três personagens representavam o idealismo. Nos anos pós-Guerra, em que o "American Way of Life" era uma pauta quase que mundial, Superman, Batman e Mulher-Maravilha apresentavam-se como verdadeiros deuses, que buscavam servir de inspiração para a humanidade, funcionando quase que como uma mitologia particular aos norte-americanos.

Porém, o mundo que se desenhou a partir daquele momento transformou a ideia idílica do super-herói protetor. Era Guerra Fria, nos Estados Unidos - onde a DC nasceu -, e Nixon caiu com o escândalo de Watergate. As concepções não eram mais tão absolutas, preto e branco.

A contra-cultura e a revolução sexual apontavam à mente dos jovens para outras direções. Nesse caldeirão de mudanças, entram as figuras dos carismáticos Stan Lee e Jack Kirby, dois veteranos do lápis.

Foram eles que deram início à Era Marvel e publicaram o primeiro quadrinho da editora: Quarteto Fantástico. Era uma nova maneira de enxergar os super-heróis. A Marvel fez de seus personagens homens comuns, imperfeitos, em sintonia com o mundo.

Alguns exemplos clássicos? O Homem de Ferro, um vendedor de armas ferido por suas próprias invenções; o Hulk, uma variação de Jackyl e Hyde, criada sob a fúria de uma explosão atômica - maior sombra do contexto da Guerra Fria, os X-Men, que dão as caras como uma minoria oprimida, defendendo aqueles que insistem em derrubá-los.

A Marvel não tinha medo de inovar, abordando em suas páginas temas considerados tabu, como o consumo de drogas e a Guerra do Vietnã, e se posicionando como um contraponto à mitologia quase que clássica da DC.

Mas, na migração para as telas, foi a DC que tomou a dianteira.

Superman estrelou uma série de TV nos anos 1950, assim como o Batman nos anos 1960, em um programa que se tornou símbolo da cultura pop, e a Mulher-Maravilha nos anos 1970, na série que fez da atriz Lynda Carter um dos ícones do movimento feminista da época.

Em 1978, ela levou aos cinemas Superman - O Filme, de Richard Donner e protagonizado por Chirstopher Reeve, considerado o pai dos filmes de super-herói produzidos pelas editoras. Em paralelo, nos quadrinhos, a DC amadureceu seu tom e publicou obras como "O Cavaleiro das Trevas", de Frank Miller, e "Watchmen", de Alan Moore. Foi esse público que compareceu em peso aos cinemas em 1989 para ver o "Batman" gótico de Tim Burton.

Batman & Robin, no final da década de 1990, foi um fracasso de crítica e público. Mais à frente, em 2005, enquanto ainda tentava recuperar a credibilidade diante do fiasco de 1997, a Warner tomou sua melhor decisão e entregou as chaves do reino a Christopher Nolan.

Batman Begins (2005) reiniciou a série do Homem-Morcego em um filme distante da fantasia, firmando um lado mais realista e inesperado para um super-herói. Batman - O Cavaleiro Das Trevas (2008), sua sequência, bateu US$ 1 bilhão nas bilheterias, deu um Oscar póstumo a Heath Ledger, por seu papel como Coringa e tornou-se a baliza do que os filmes do gênero poderiam atingir em termos de camadas e profundidade.

Batman: O Cavaleiro Das Trevas Ressurge (2012), que finaliza a franquia, foi mais um sucesso nas bilheterias.

Durante anos, a DC Comics conseguiu se manter à frente da batalha dos super-heróis no cinema. O grande problema foi ancorar-se basicamente em um único personagem: o Batman. O plano da Marvel, por outro lado, foi mais paciente e ambicioso.

A Marvel começou a fechar parcerias com produtoras e estúdios em 1998 para lançar seus filmes. Fez Blade - Caçador De Vampiros (1998), pela produtora New Line, e X-men, O Filme (2000), pela Fox, transformando Hugh Jackman, o Wolverine, em um astro. Além disso, esse filme foi o marco dos longas de super-heróis modernos.

Depois veio, em 2002, Homem-aranha, uma década após de brigas judiciais da Sony para levar o herói à tela grande. O filme foi um estouro e rendeu mais duas sequências. Ainda sem estúdio próprio, a Marvel seguiu fechando parcerias com grandes produtoras para colocar nos cinemas longas como Hulk (2003); Demolidor - O Homem Sem Medo (2003), Quarteto Fantástico e Quarteto Fantástico E O Surfista Prateado (2005 e 2007).

Nessa época, os direitos pelos personagens da Marvel eram uma bagunça. Eles estavam espalhados entre Sony e Fox e - posteriormente chefiado pela figura de Kevin Feige - a Marvel buscava uma identidade própria para suas produções.

A mudança veio quando a Marvel buscou um aporte de capital para se tornar um estúdio independente. Lançou então Homem De Ferro (2008) e acertou na mosca: Robert Downey Jr. seria o protagonista. Poucas vezes, intérprete e personagem casaram de forma tão perfeita.

"Homem de Ferro" foi um sucesso, fortaleceu a marca e foi a deixa para a Marvel começar seu universo compartilhado, conhecido como MCU (Marvel Cinematic Universe). A ideia é que os heróis habitam o mesmo mundo e, eventualmente, cruzam os caminhos.

Surgiram então filmes como O Incrível Hulk (2008); Homem De Ferro 2 (2010); Thor (2011) e Capitão América: O Primeiro Vingador (2011), que desaguaram no antológico Os Vingadores - The Avengers (2012). Tudo interligado, com cenas pós-créditos empolgantes, que davam um vislumbre do que assistiríamos a partir dalí.

Nos bastidores, a Disney comprou os domínios em 2009 e abalou a indústria. O sucesso de "Vingadores", junto à nova proprietária, abriu caminhos nunca antes trilhados para a Casa das Ideias. Veio Homem De Ferro 3 (2013), Thor: O Mundo Sombrio (2013) e Capitão América: O Soldado Invernal (2014) - todos foram além das bilheterias de seus antecessores.

Os US$ 780 milhões faturados pelos desconhecidos Guardiões Da Galáxia (2014) e o inesperado Homem-formiga (2015) provaram a força da marca. A essa altura, a Marvel já havia estabelecido uma rede intrincada de filmes e personagens, que funcionavam de maneira independente e complementar entre si.

A partir daí, veio só porrada: Vingadores: Era De Ultron (2015); Capitão América: Guerra Civil (2016); Doutor Estranho (2016); Guardiões Da Galáxia Vol. 2 (2017); Homem-aranha: De Volta Ao Lar (2017); Thor: Ragnarok (2017); Pantera Negra (2018); Vingadores: Guerra Infinita (2018); Homem-formiga E A Vespa (2018); Capitã Marvel (2019); Vingadores - Ultimato (2019); e Homem-aranha: Longe De Casa (2019).

Em paralelo, houve uma continuidade de filmes X-Men desde "X-Men: O Filme", lá dos anos 2000, e que até hoje é um dos responsáveis pela acessibilidade do gênero.

Os direitos pelas produções dos mutantes estava com a Fox, que foi responsável por lançar ainda X-men 2 (2003); X-men: O Confronto Final (2006); X-men Origens: Wolverine (2009); X-men: Primeira Classe (2011); Wolverine - Imortal (2013); X-men: Dias De Um Futuro Esquecido" (2014); X-men: Apocalipse (2016); e X-men: Fênix Negra (2019).

Percebendo o sucesso que a Marvel estava alcançando, a DC resolveu investir em seu próprio universo de filmes de super-heróis - o DCEU, chefiado por Zack Snyder -, mas a competição já estava desnivelada: lançou "Homem de Aço" (2013); Batman Vs Superman: A Origem Da Justiça (2016); Esquadrão Suicida (2016); Mulher-maravilha (2017); Liga Da Justiça (2017); Aquaman (2018): Shazam! (2019); e Aves De Rapina - Arlequina E Sua Emancipação Fantabulosa (2020).

Fato é, que entre falhas e acertos, o gênero se popularizou. A fórmula demonstrou alguns sinais de repetição e se ressignificou. Nesse contexto, surgiram filmes como Deadpool (2016); Logan (2017); Deadpool 2 (2018); e Coringa (2019).

Os filmes de super-herói terão - e merecem - vida longa!

Nos últimos dois anos, o topo da lista dos filmes mais assistidos nos cinemas no Brasil teve os mesmos personagens.

Enquanto "Vingadores: Guerra Infinita", levou mais de 14,5 milhões de brasileiros às salas de cinema em 2018, no ano passado foi a vez de outro filme da franquia, "Vingadores: Ultimato", ocupar o primeiro lugar do ranking, com uma bilheteria de 19,2 milhões de ingressos vendidos.

Além disso, das dez produções campeãs de bilheterias no Brasil no ano passado, quatro fazem parte do universo desses personagens: "Coringa", "Capitã Marvel" e "Homem Aranha: Longe de Casa" também figuram entre as produções que mais levaram os brasileiros ao cinema.

Maas grande presença dos heróis nos ranking de bilheterias não é um fenômeno exclusivo de Brasil e está longe de ter um inimigo à altura. Com US$ 2,797 bilhões, Vingadores: Ultimato ocupa atualmente a 1ª posição das maiores bilheterias da história - e isso graças à vasta exibição do longa ao redor do mundo. Com US$ 858,3 milhões somados apenas nos EUA, o filme conquistou a 2ª posição entre as maiores arrecadações do país. Com US$ 614,3 milhões arrecadados na China, o filme superou os US$ 393 milhões do antigo recordista Velozes e Furiosos 7 e se tornou a maior arrecadação de um longa hollywoodiano por lá.

Nostalgia e recuperação de memórias afetivas explicam em partes a grande proliferação do gênero e seu consequente sucesso perante o público.

Ao longo das décadas, observamos a criação e expansão de um universo cinematográfico crível, que exige que o espectador tenha que acompanhar diversos filmes, com vários personagens, para ficar por dentro da história.

Mais do que isso, um fator pelo qual o cinema atual ainda está aproveitando a onda – e que explica os bons resultados dos filmes de super-heróis até hoje – é a possibilidade de cruzar os gêneros.

O Capitão América se tornou um filme de espionagem e conspiração. Os Guardiões da Galáxia flertam com um sci-fi. O Homem-Formiga é um filme sobre família. A trilogia Batman, do Nolan, é a jornada do herói mais realista possível. Coringa é um drama psicológico que flerta com a ultraviolência. Pantera Negra e Mulher-Maravilha lançam nova luz em temas como representatividade e desigualdade social.

A Sony está investimento em personagens secundário do universo do teioso, como Venom (2018). A DC está tanto investimento em filmes do universo compartilhado quanto individuais. E agora, a Disney adquiriu a FOX, o que traz os direitos de muitos personagens da Casa das Ideias de volta para o domínio da Marvel.

Mas no fim, o que realmente fica de mensagem é o legado construído pelos super-heróis no Cinema.

Do lado da Marvel, nunca na história fora criada uma saga tão profunda em camadas, personalidades, características e ambientações tão distintas e diferentes, que desaguasse em um dos momentos mais aguardados pela cultura pop: um filme-evento. A maior arrecadação de bilheteria da história.

Do lado da DC Comics, ter sido precursora na exploração do formato e pela constante e inabalável reinvenção para trazer sempre diferentes perspectivas de suas clássicas histórias e personagens, pela ousadia.

Mas, para encerrar, um aprendizado clássico do Amigão da Vizinhança: com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades. Quando o sarrafo está no alto, é a hora de ligar o alerta vermelho e se reinventar. Há quem diga que a fórmula está se esgotando, mas ano após ano nós vemos filmes mais ousados e novas roupagens de histórias que não nos cansamos de ver passar.


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