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    Morro dos Prazeres leva a Brasília tensa relação entre comunidade e UPP

    Documentário mostra rotina de favela um ano após expulsão de traficantes e instalação da Unidade de Polícia Pacificadora
    Por Roberto Guerra, enviado especial a Brasília
    23/09/2013
    Morro dos Prazeres

    A cineasta Maria Augusta Ramos talvez não tenha feito o filme que parte do público do Festival de Brasília esperava ver sobre as Unidades de Polícia Pacificadora no Rio de Janeiro. Algo condenando o Estado e execrando a atividade dos agentes da lei nas comunidades cariocas certamente deixaria os espectadores-militantes, comuns por aqui, exultantes.

    A diretora, no entanto, não entrou nessa e realizou um longa equilibrado, distante de prejulgamentos e estereótipos. Produção que releva os dois lados da inevitável contenda entre uma polícia militarizada - que tem dificuldades em ver-se como servidora do público - e uma comunidade habituada há décadas ao jugo de bandidos. Desconfiada, com toda a razão, da autoridade instituída que só agora começa a conhecer.

    "Não queria tomar partido nem de um lado nem do outro. Isso não podia acontecer. A ideia do filme era desconstruir o preconceito contra a polícia e contra o morador dessas comunidades", revelou Maria Augusta em entrevista na manhã deste domingo (22).

    Morro dos Prazeres mostra o dia a dia da favela de mesmo nome um ano após a expulsão de traficantes e instalação da UPP. Durante quatro meses, entre abril e julho de 2012, a cineasta e sua equipe acompanharam o cotidiano do lugar observando o processo de pacificação do ponto de vista de seus protagonistas: população e policiais ocupantes.

    O filme revela o esforço de parte do oficialato da Polícia Militar do Rio em fazer um bom trabalho nas comunidades pacificadas. Empenho que vai de encontro, muitas vezes, às atitudes de subalternos que dispensam à população tratamento truculento.

    Alguns moradores recentem-se, por sua vez, de não ter a liberdade com a qual contavam quando a comunidade era dominada por bandidos. Também são incomodados com o cotidiano de revistas e abordagens, parte do plano do Estado de sufocar pequenos delitos - como fumar um baseado, por exemplo - para evitar crimes maiores.

    Ninguém imaginava que essa aproximação seria fácil. Como era de se esperar, expulsar os traficantes era apenas parte do problema. Morro dos Prazeres mostra que há interesse de ambos os lados em criar uma relação harmoniosa entre polícia e moradores, mas trata-se de afinidade difícil e pautada por desconfianças.

    Maria Augusta conta que não teve grandes dificuldades de convencer o comando da Polícia Militar do Rio de Janeiro em autorizar seus polícias a deporem no filme. Tampouco teve de se sujeitar a quaisquer tipos de restrições, o que tornaria a produção inviável segundo ela.

    "Disse aos militares o que digo a todos os personagens: que tipo de filme vou fazer, como eu vou fazer. Eu explico a proposta. É claro que a UPP tem interesse, uma preocupação com a mídia, com sua imagem. Em nenhum momento houve qualquer tipo de censura".

    Questionada se acreditava na eficácia da implantação das UPPs a longo prazo, a cineasta disse não ter resposta. Dúvida que permeia o pensamento de moradores dessas comunidades e da própria polícia. Todos, no entanto, fiam-se na certeza de que, por mais delicada que seja a interação entre forças de segurança e população carente, uma volta ao passado seria muito pior.

    O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro segue até o dia 24, quando serão conhecidos os vencedores de sua 46ª edição.