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    Mostra com Luc Moullet revela cineasta provocador, cômico e gaiato

    Realizado em SP, RJ e DF, retrospectiva Luc Moullet - Cinema de Contrabando traz obra completa de cineasta inquietante
    Por Heitor Augusto
    07/02/2011

    Quando se fala de vanguarda do cinema francês, Luc Moullet não é um nome que nos lembramos de primeira. Aqui no Brasil, nenhum de seus filmes foi lançado no circuito comercial. Nos festivais, apenas a Mostra de SP exibiu três curtas e um média em 1990. Mas a retrospectiva Luc Moullet – Cinema de Contrabando, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo e Rio de Janeiro, vem cobrir essa lacuna.

    Moullet é um cineasta que você precisa conhecer e ao menos assistir a alguns de seus filmes. Trata-se de um provocador, não um polemista, que mexe nas bases da cinefilia, na posição de intelectual do realizador e cutuca a apreciação do espectador. Um cineasta que produz com o que tem, liberando uma apurada veia cômica e assumindo a precariedade de produção como ganho para o próprio filme.

    Por exemplo, em Prestígio da Morte (2007), Moullet interpreta um cineasta que tenta financiamento para adaptar uma obra de Thomas Hardy. Mas os tempos estão difíceis, ninguém quer bancar um filme de um cineasta que não está no panteão dos gênios. Pois bem, Moullet tem uma ideia genial: forjar a própria morte, ser alçado ao tal panteão e, depois do golpe bem aplicado, voltar à vida como um deus do cinema.

    Nesse tom cômico, o filme é ácido e critica tanto o sistema de produção francês quanto o caldo intelectual que permite outorgarmos a um artista a pecha de imortal. A sacada de Prestígio da Morte é justamente brincar com o valor da vida: às vezes, é melhor estar morto porque só assim se ganha reconhecimento.

    Mas não enxerguem nessa história um cineasta emburrado que reclama pelos cotovelos e cruza os braços diante da impossibilidade. Os filmes de Luc Moullet carregam uma certa gaiatice e uma indelével pulsão por existir. Se não há dinheiro para caprichar na maquiagem do morto, não tem problemas: basta pegar um manequim e dizer ao espectador que se trata de um corpo. Quem assiste acredita na farsa de um filme que jamais tenta ser imitação da realidade, mas construção de sentidos a partir dela.


    Cena de Uma Aventura de Billy the Kid

    Jean-Luc Godard

    Além de realizador, Luc Moullet é crítico de cinema e ainda escreve regularmente. Dois de seus textos ficaram famosos por frases antológicas: “Eu detesto westerns. É por isso que adoro Rio Bravo” e “a moral é uma questão de travellings”.

    Como cineasta, Moullet é mais jocoso do que essas duas afirmações permitem supor. No documentário O Homem da Ravina (2010), no qual é o principal personagem, ele diz algo como: “É fácil diferenciar ficção de documentário, basta olhar para o peso do diretor. Se ele está muito mais magro do que quando começou as filmagens, é ficção, porque lidar com ator é muito trabalhoso. Agora, se estiver mais gordinho, certamente é documentário, porque em documentário o diretor não faz nada!”.

    Ou senão, na ficção Anatomia de uma Relação (1975), Moullet se auto-interpreta e atravessa uma crise conjugal. Lá pelas tantas do filme, solta essa pérola: “Antes era tão fácil transar e ter prazer, era só fazer sexo 'normal'. Agora, não, tem de dar prazer à mulher, perguntar se está bom, se preocupar com ela. Que azar, por que nasci logo agora? Por milhares de anos os homens puderam transar de maneira ‘normal’, mas eu nasci logo agora?”. Texto cômico que revela o choque do homem médio frente à liberação feminina pós-anos 60.

    Mas um dos temas recorrentes do Moullet cineasta é a problematização da ideia de obra de arte. Do diretor de Acossado Moullet já disse, ironicamente e dentro de um filme, que ele estava morto (Prestígio da Morte) e espinafrou o que há de raso nos filmes de Godard (Jean-Luc Segundo Luc), além de bater forte no que define um trabalho irretocável (Obra-Prima?).

    Moullet defende que um filme não precisa de gordura para marcar alguém. Tanto que analisou a exploração do Primeiro Mundo em relação ao Terceiro com uma lata de atum, um omelete e uma banana em Gênese de uma Refeição (1978).

    Acima de tudo, Luc Moullet é um crítico e cineasta provocador, que tira o espectador do lugar de conforto intelectual e estremece as bases do socialmente estabelecido. Alguém fundamental de se conhecer.

    Além da retrospectiva completa no CCBB-SP, RJ [programação aqui] e em Brasília a partir do dia 15 [programação aqui], haverá um debate com Luc Moullet em cada cidade na qual a mostra acontece. Em São Paulo, a conversa com o público será no dia 16, às 19h30

    Serviço
    Luc Moullet – Cinema de Contrabando
    CCBB-SP (2 a 20 de fevereiro), CCBB-RJ (1º a 20 de fevereiro) e CCBB-DF (15 de fevereiro a 6 de março)

    Confira a programação restante da retrospectiva em São Paulo:
    CCBB-SP
    Rua Álvares Penteado, 112 - Centro
    Terça a domingo, das 10h às 20h – Telefones: (11) 3113-3651/52

    Quarta-feira (9/2)
    18h - Parpaillon (84´)
    19h30 - A Comédia do Trabalho (88´)

    Quinta-feira (10/2)
    18h - As Contrabandistas (80´)
    19h30 - Prestígio da Morte (75´)

    Sexta-feira (11/2)
    18h - Anatomia de uma Relação (82´)
    19h30 - Foix (13´)/ As Poltronas do Cine Alcazar (52´)

    Sábado (12/2)

    16h30 - Os Náufragos da D17 (81´)
    18h - Brigitte e Brigitte (75´)
    19h30 - Uma Aventura de Billy The Kid (77´)

    Domingo (13/2)
    16h30 - Sem Título (4´)/ Os Minutos de um Fazedor de Filmes (13´)/ Minha Primeira Braçada (43´)/ Tentativa de Abertura (15´)
    18h00 - Uma Aventura de Billy the Kid (77´)
    19h30 - Gênese de uma Refeição (117´)

    Quarta-feira (16/2)

    17h30 - Vontade Indômita (114´), de King Vidor
    19h30 - *Encontro de Luc Moullet com o público*

    Quinta-feira (17/2)
    18h - Os Náufragos da D17 (81´)
    19h30 - Gênese de uma Refeição (117´)

    Sexta-feira (18/2)
    18h - Foix (13´)/ As Poltronas do Cine Alcazar (52´)
    19h30 - Brigitte e Brigitte (75´)

    Sábado (19/2)
    16h30 - A Odisseia do 16/9 (11´)/ La Sept Segundo Jean e Luc (13´)/ O Fantasma de Longstaff (20´)/ A Valsa da Mídia (27´)
    18h - Aerroporrrto de Orrrrly (6´)/ Equilíbrio e Cegueira (5´)/ Todos Nós Somos Baratas (10´)/ Cada Vez Menos (13´)/ Cada Vez Mais (24´)/ O Império do Totó (13´)
    19h30 - Introdução (8´)/ O Complô dos Ouriços (17´)/ Catracas (14´)/ Imphy, Capital da França (24´)

    Domingo (20/2)
    16h30 - Introdução (8´)/ O Complô dos Ouriços (17´)/ Catracas (14´)/ Imphy, Capital da França (24´)
    18h - Aerroporrrto de Orrrrly (6´)/ Equilíbrio e Cegueira (5´)/ Todos Nós Somos Baratas (10´)/ Cada Vez Menos (13´)/ Cada Vez Mais (24´)/ O Império do Totó (13´)
    19h30 - A Odisseia do 16/9 (11´)/ La Sept Segundo Jean e Luc (13´)/ O Fantasma de Longstaff (20´)/ A Valsa da Mídia (27´)