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    O Homem das Multidões recebe aplausos entusiasmados em Tiradentes

    Filme trata da solidão que aflige homens e mulheres em centros urbanos brasileiros
    Por Roberto Guerra, enviado especial a Tiradentes
    31/01/2014
    O Homem das Multidões

    A 17ª edição da Mostra Tiradentes de Cinema exibiu no início da noite desta sexta-feira o longa O Homem das Multidões, dirigido e roteirizado a quatro mãos pelos cineastas Cao Guimarães e Marcelo Gomes. A produção, que estreia dia 2 de maio em Belo Horizonte - e depois segue para outras capitais -, foi recebida com aplausos animados pelo público. O Cineclick esteve presente à sessão e faz a análise do filme.

    A solidão das metrópoles 

    A solidão é algo que compartimenta o indivíduo nele mesmo. É como se houvesse uma fronteira delimitando o entorno do solitário, mesmo que este esteja cercado de gente a todo o instante. Assim vive Juvenal (Paulo André), protagonista de O Homem das Multidões. Ele é maquinista do metrô de Belo Horizonte, vive numa metrópole, conduz milhares de pessoas de um lado para o outro todos os dias, mas é profundamente só.

    Os diretores Cao Guimarães (Otto) e Marcelo Gomes (Era Uma Vez Eu Verônica) propõem uma ousadia estética logo de início. A bolha de retraimento habitada por Juvenal se expõe fisicamente na tela de cinema. O filme é exibido com proporção de tela reduzida. A projeção ocupa o 1/3 central sem se expandir para as laterais. Um incômodo visual que transporta o espectador rapidamente para a angústia solitária do personagem.

    Quando não está sozinho na cabine do trem, Juvenal está sozinho caminhando pelas ruas apinhadas de gente, no bar onde toma um trago enquanto ri sozinho da gargalhada de uma mulher numa mesa próxima. Está só em seu apartamento onde atravessa as madrugadas insone e continua apartado do mundo mesmo quando precisa de sexo e contrata os serviços de uma prostituta.

    Da mulher que faz Juvenal ri no bar, só ouvimos a risada. Da garota de programa, só vemos sua silhueta por trás e à distância. O personagem não se comunica com o mundo e o espectador também é privado disso. Quem quebra esse distanciamento é Margô (Silvia Lourenço), funcionária do metrô responsável pelo fluxo das linhas. Contrariando a máxima dos opostos que se atraem, os dois se aproximam por serem iguais. Margô é outra vítima da solidão urbana.

    Ela mora com o pai (Jean-Claude Bernardet), com quem pouco fala, e passa as noites trancada no quarto se socializando com o mundo pela internet. Foi pela rede que conheceu o noivo e, mesmo o conhecendo pouco, vai se casar em breve - subterfúgio radical para fugir da solidão. Mas como só tem amigos virtuais, se vê com problemas em conseguir um padrinho. Escala então Juvenal para a função, a única pessoa fisicamente próxima o suficiente para convidar.

    Os encontros de Juvenal e Margô são carregados de um silêncio aflitivo. Eles pouco falam quando estão juntos, sentem-se incomodados com a presença do outro. As emoções afloram quando estão distantes e se comunicam pelas câmeras de monitoramento das estações do metrô. A barreira imposta pelo meio eletrônico que transmite a imagem livra esses dois tímidos do cara-a-cara constrangedor.

    O noivo de Margô nunca aparece de fato. Somente de costas, à distância, na penumbra. É fugaz para o espectador como também para ela. Há um diálogo interessantíssimo no qual Margô diz que as pessoas são difíceis, fácil é o computador. "Você escreve uma coisa lá no chat e ele responde". Margô vai se casar, Juvenal será seu padrinho, mas talvez as relações humanas sem intermediações eletrônicas ainda sejam imbatíveis... Pelo menos por enquanto.

    A 17ª Mostra Tiradentes de Cinema se encerra neste sábado à noite quando serão conhecidos os vencedores desta edição.