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    Olhar de Cinema: Branco Sai, Preto Fica é supervalorizado por temática

    Adirley Queirós consegue fazer filme funcionar, mas não dá para ignorar seus muitos problemas
    Por Roberto Guerra, de Curitiba (PR)
    02/06/2014
    Branco Sai Preto Fica

    Experimentalismo e certo anarquismo são sempre bem-vindos no cinema. Mas estes devem ficar restritos ao campo das ideias. Quando avançam para a execução inevitavelmente ocorrem problemas, a despeito das boas intenções. Filme é arte complexa que exige um mínimo de ordenamento. Buscá-lo na montagem é sobrecarregar as outras bases do tripé de sustentação de uma obra: direção e roteiro.

    Às vezes pode até dar certo, como é o caso de Branco Sai, Preto Fica, longa dirigido por de Adirley Queirós, mas é loteria. A produção é parte integrante da mostra competitiva do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba e teve sua primeira exibição na noite deste domingo (1º). Após a sessão, o diretor de A Cidade é Uma Só participou de debate com o público.

    A conversa acabou por clarificar as deficiências do filme. Adirley venceu edital e pretendia fazer um documentário sobre moradores de Ceilândia, cidade satélite de Brasília, vítimas da violência policial num episódio ocorrido na década de 80. A PM invadiu um clube noturno e o resultado do misto de truculência, despreparo e racismo deixou um homem paraplégico e outro amputado da perna.

    Esses seriam os personagens centrais do documentário, mas eles não queriam mais falar do assunto, revelou o cineasta. Não em um documentário. Queriam ser personagens de um filme de ficção, no caso ficção científica. E Adirley topou! E concordou que eles criassem o enredo. "Não tinha roteiro na verdade, eles inventavam coisas, aconteciam coisas e a gente ia filmando", revelou o corajoso (ou inconsequente) diretor.

    O fato é que a imprudência deu certo em certa medida. Apesar das "barrigas" inevitáveis advindas de um roteiro quem nem existia previamente, Adirley conseguiu transformar o caos em filme. Tanto que a produção agradou o público aqui em Curitiba como em Tiradentes no início ano - onde o longa recebeu menção honrosa do júri. Mas é fato também que a temática central de Branco Sai, Preto Fica – a exclusão social – vem promovendo veneração destituída de senso crítico.

    Há no filme, por exemplo, um personagem que é um viajante do tempo. Por mais que Adirley tenha passado horas numa ilha de edição tentando fazê-lo ter algum sentido para a trama, isso simplesmente não acontece. Se o eliminássemos do longa, não faria a menor diferença. Como é supérfluo também todo um blablablá a respeito da perna mecânica que usa o personagem amputado. Não faz sentido, não interfere no desenrolar da trama, o que se configura, em linguagem bem popular, em famigerada "encheção de linguiça".

    Branco Sai, Preto Fica se passa num futuro distópico (com cara de presente) onde moradores da periferia precisam de passaporte para acessar Brasília. Os heróis do filme tramam um ataque revolucionário da periferia a esse status quo de exclusão. O público engajado fica bem feliz com a possibilidade ficcional, mas isto não elimina o amadorismo do filme. Cinema é arte que não pode ignorar técnica e método. Quando isso ocorre, eficiência sai, pretensão fica.

    O Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba segue até o dia 5 de junho, quando serão conhecidos os vencedores desta edição. Branco Sai, Preto Fica tem sua segunda exibição nesta segunda-feira, às 21h30.

    Serviço: OLHAR DE CINEMA – FESTIVAL INTERNACIONAL DE CURITIBA
    Quando: 28 de maio a 5 de junho de 2014
    Quanto: R$ 5 e R$ 2,50 (meia)
    Onde: Espaço Itaú de Cinema (Shopping Crystal - Rua Comendador Araújo, 731 – Batel); Cinemateca (Rua Carlos Cavalcanti, 1174 – São Francisco)

    *Os ingressos podem ser comprados antecipadamente no local de exibição dos filmes. Cada pessoa pode adquirir três ingressos por sessão.

    **Informações sobre a programação no site: olhardecinema.com.br