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    Opinião: Os filmes de heróis e a dificuldade de dar voz às mulheres

    Heroínas não representam a figura feminina atual
    Por Rebeca Tosta
    04/05/2016

    Fui assistir a Capitão América: Guerra Civil e me decepcionei. Não com roteiro ou cenas de luta, que para mim foram muito bem amarrados. Nem por seu humor já esperado, que aparece até nas cenas mais tensas do longa. Na verdade, o filme, de uma maneira geral, me agrada muito e já está no meu top três da Marvel. Mas não impressiona o fato de ainda termos personagens femininas tão rasas e fracas.

    Vale lembrar que, quando digo fracas, não estou falando do porte físico. Afinal, Viúva Negra (Scarlett Johansson) é capaz de paralisar um exército de vilões apenas com a luta corpo-a-corpo. E Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) não precisa sequer se mover, já que o seu poder está na mente. Além disso, esse não é um problema exclusivo da Marvel, visto o que vimos com Mulher-Maravilha de Gal Gadot, e o que ainda estamos por ver em Esquadrão Suicida com Margot Robbie como Arlequina, ambos da DC. A mulher dos filmes de quadrinhos ainda é hipersexualizada e está longe de representar a figurina feminina atual.

    Feiticeira Escarlate

    A mulher nos filmes de super-heróis ainda não encontrou o seu lugar. São poderosas, como já citei, mas parecem rasas e um tanto manipuláveis. Um bom exemplo é a própria Feiticeira em Guerra Civil. Por um período, ela fica presa no complexo dos Vingadores por uma decisão de Tony Stark (Robert Downey Jr.) e, apesar de não concordar com a situação, não esbraveja, apenas acata.

    É difícil compreender tal atitude. Afinal, como o próprio Steve Rogers (Chris Evans) cita no filme, trata-se de "uma criança". Na verdade, de uma adolescente. E, como todos que me leem devem lembrar, não somos muito cordiais quando nos impõe limites nessa fase da vida. Ainda assim, Wanda só toma uma decisão quando é "resgatada" por Gavião Arqueiro (Jeremy Renner). Mas a cena não consegue nos mostrar que ela verdadeiramente está decidida a fugir e a lutar contra Visão (Paul Bettany), nos fazendo acreditar que, mais uma vez, ela foi convencida de que alguém sabe o que é melhor para ela.

    O caso de Viúva Negra, então, talvez seja um pouco mais complexo. A personagem precisou dar o braço a torcer e concordar com Stark, com quem, convenhamos, ela não tem um bom relacionamento. E, depois disso, trai a confiança de seu time e volta a ajudar Rogers na fuga com Soldado Invernal (Sebastian Stan).

    Viúva Negra

    Nas cenas de luta, Natasha some. Até compreendo que ela não queira enfrentar aqueles que considera seus verdadeiros amigos. Mas o que tento deixar claro é como faltou algo que mostrasse qual é a sua verdadeira posição sobre o que os Vingadores deveriam fazer. Não fosse algumas frases soltas, chegaria a pensar que ela não passou de uma infiltrada no time do Homem de Ferro (e talvez ela realmente seja).

    A falta de pulso e, de certa maneira, de uma postura mais enfática sobre sua decisão, nos faz perceber como ainda somos condicionadas a acreditar que precisamos confiar em alguém para lutar sobre o que acreditamos, quando, bem, já aprendemos que isso nos levará a lugar algum. Mas Viúva Negra nos apresenta uma mulher passiva, que, apesar de saber o que é acha que é melhor, prefere não se impor.

    Além disso, Natasha tem uma história forte e agradaria aos fãs. E não sou só eu quem digo isso. Como confirmado em uma pesquisa, um longa que abordasse a heroína e seu passado violento na KGB é esperado pelo público. Ela é complexa e chegou até a ser uma vilã nos quadrinhos, o que nos faria deixar o velho maniqueísmo dos filmes de heróis de lado.

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    Mas se tem uma coisa que me deixa um pouco aliviada com Guerra Civil: os uniformes das personagens. Apesar de justos, eles cobrem seus corpos e contribuem com as suas necessidades na hora da luta. O mesmo não posso dizer, por exemplo, dos trajes de Mulher-Maravilha e Arlequina. Curtos e hipersexualizados, eles garantem cenas bastante exageradas e com o foco nas curvas das atrizes. Gal Gadot sofreu menos isso e as poucas vezes que aconteceram, parecem ter sido despropositais.

    Já com Margot Robbie a situação é completamente diferente. E isso porque ainda nem temos o filme completo para analisar. Só no primeiro trailer, quando a personagem se abaixa para roubar uma bolsa na vitrine de uma loja, somos condicionados pela câmera a focar no corpo da atriz, como se naquela cena nada mais importante acontecesse. A vilã surgiu ainda com atitudes ainda mais sensuais nos vídeos seguintes e takes mais escancarados sobre como se utilizaram da sua beleza para o respiro entre as cenas de ação.

    Mas nem só de heroínas vivem os filmes. E a Marvel mostrou o quanto ainda somos focados na beleza destruindo a imagem que qualquer pessoa tinha da Tia May. Escalando Marisa Tomei, o estúdio nos faz questionar sobre o quanto ela combina com o personagem. Nem mesmo Stark deixou de comentar isso em Guerra Civil, dizendo o que, acredito, estava engasgado na garganta de muita gente. Não quero entrar no mérito da capacidade da atriz, mas é realmente muito estranho que ela apareça tão mais jovem e sensual agora. E sensualidade nunca foi uma característica da Tia May.

    É claro que os estúdios não precisam seguir exatamente as características dos quadrinhos. Ainda assim nos faz pensar o quanto as atrizes ainda servem nesses filmes apenas como parte da figuração. Elas dificilmente participam de diálogos mais acalorados ou importantes para a trama. E quase sempre servem para incluir um certo tom de romance, por mais desnecessário que ele seja (como aconteceu com Hulk e Viúva Negra, em Era De Ultron).

    Minha esperança, agora, se deposita no futuro. O solo de Mulher-Maravilha tem tudo para acabar de vez com essas falhas e colocar a figura feminina realmente em destaque. Sem falar em Capitã Marvel, que ainda promete ter uma mulher no comando da direção do longa. Realmente precisamos de representatividade nos cinemas. Resta torcer para que ano que vem seja melhor.